O Globo, Opinião, p. 6
28 de Set de 2007
Realismo ambiental
Ao abrir a 62ª. Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula disse que o desmatamento da Amazônia foi reduzido a menos da metade "nos últimos anos", prometeu um Plano Nacional de Enfrentamento às Mudanças Climáticas e lançou a idéia de uma nova conferência internacional sobre o meio ambiente - a Rio+20, em 2012, 20 anos após a Rio-92.
Não pode ser acusado de ter ido à ONU de mãos vazias em relação à responsabilidade brasileira no esforço mundial para evitar o agravamento dos desequilíbrios ambientais. Contudo, Lula continuou a defender uma posição anacrônica quando mencionou não ser "admissível que o ônus maior da imprevidência dos privilegiados recaia sobre os despossuídos da Terra". Posição condizente com os idos da Rio-92, que fixou metas de redução da poluição para os países desenvolvidos e livrou os em desenvolvimento.
Multa coisa mudou nos últimos 15 anos. As maiores nações em desenvolvimento aceleraram seu crescimento e se tornaram também campeãs da poluição. A China está prestes a ultrapassar os EUA como maiores poluidores, a índia está bem colocada nesse ranking e o Brasil, principalmente por conta das queimadas, já é o sexto. Com as indicações científicas a confirmar as previsões mais pessimistas sobre o futuro do planeta devido ao aquecimento global, não faz mais sentido a pregação de Lula sobre "privilegiados" e "despossuídos". É claro que é preciso os EUA se comprometerem com os acordos internacionais sobre o meio ambiente, mas o mesmo deve acontecer, e rapidamente, em relação à China e à índia, por exemplo.
Para o Brasil, sobram lições valiosas. É importante o Plano de Ação sobre Mudanças Climáticas, a ser anunciado, mas também uma ação diplomática para convencer China, Índia e outros grandes poluidores a aderirem às metas globais, às quais o Brasil também precisará se subordinar. É meritória a redução das queimadas na Amazônia, mas outros indicadores mostram um salto de 30% nos focos de incêndio em Mato Grosso. Há que fiscalizar, ainda, para que o cultivo voltado para a produção de biocombustíveis não implique novos ataques à floresta. Só assim o Brasil terá o que comemorar numa eventual Rio+20.
O Globo, 28/09/2007, Opinião, p. 6
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