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25 de Abr de 2005
Os protestos de políticos, fazendeiros e índios contrários a homologação da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol têm incentivado a desobediência civil e a violência. De manifestações e ameaças ao bloqueio de estradas e seqüestro de policiais federais, a tensão em Roraima está cada vez maior.
TI Raposa-Serra do Sol. Clique para ampliar
A homologação da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, assinada pelo presidente Lula há dez dias, vem provocando reações violentas por parte de fazendeiros e grupos indígenas de Roraima. Na sexta-feira 22 de abril, quatro agentes da Polícia Federal foram seqüestrados e, desde então, mantidos como reféns na aldeia Flexal, a cerca de 26 quilômetros do município de Uiramutã, dentro da Terra Indígena (TI). A Flexal é uma das 23 aldeias Macuxi, a principal etnia a se opor à homologação entre os povos indígenas que vivem na reserva, cuja área total abriga 164 aldeias e cerca de 16 mil índios. Além dos Macuxi, vivem na Raposa-Serra do Sol os povos Taurepang, Wapixana, Ingarikó e Patamona.
As aldeias Flexal e Contão têm concentrado as manifestações contrárias ao decreto presidencial da sexta-feira 15 de abril, que acabou com um impasse de pelo menos 30 anos. Os macuxi da Flexal afirmam que somente libertarão os policiais federais se o presidente Lula ou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, forem à TI rever as condições e limites da homologação. Mais de mil índios estariam no local em protesto permanente. A Polícia Federal enviou nesta segunda-feira um reforço de 73 agentes à TI para tentar dar fim ao seqüestro. Desde a semana passada, 140 homens da PF atuam na região.
Neste domingo, manifestantes fecharam a rodovia estadual (RR-202) que passa por dentro da aldeia Cantão e que dá acesso ao município de Uiramutã. E outro grupo macuxi bloqueou o tráfego da BR-174, principal rodovia de ligação entre o Brasil e a Venezuela, provocando um longo congestionamento. O maior foco de tensão, entretanto, está no município de Pacaraima, de onde saíram os autores do bloqueio da estrada federal. O município tem área sobreposta à da TI, mas sua sede está localizada fora de seus limites. O prefeito da localidade, Paulo César Quartieiro, também produtor de arroz, seria um dos incentivadores da desobediência civil da população local contra a implementação dos limites da Raposa-Serra do Sol. E teria até solicitado uma audiência com o presidente da Venezuela, Hugo Chavéz, para tratar do problema.
Ao lado de políticos e fazendeiros contrários à Raposa-Serra do Sol, está à frente dos protestos a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima (Sodiur), uma dissidência do Conselho Indígena de Roraima (CIR). Seus representantes têm declarado que a homologação contínua da TI significará o isolamento e o empobrecimento das comunidades indígenas. A Sodiur apóia a decisão do governador Ottomar Pinto (PTB) que, na semana passada, entrou com ação na Justiça Federal contra a homologação e ameaça cortar os serviços públicos de saúde, educação, transporte e geração de energia da TI como retaliação à decisão federal.
Bomba caseira e ameaças
Na capital do estado, Boa Vista, três protestos foram realizados contra a homologação até agora. O maior deles, na quarta-feira passada, dia 20, contou com cerca de 5 mil participantes, de acordo com estimativa da Polícia Militar. Nos dias que se seguiram à assinatura do decreto homologatório, organizações e entidades que apóiam os povos indígenas de Roraima passaram a receber telefonemas anônimos com ameaças e ofensas. "Falam que se a gente não mudar de lado vamos pagar caro", conta Luis Carlos Gomes, da ONG Grupo de Trabalho Amazônico (GTA). Gomes conta que o centro da cidade vem sendo ocupado por caminhões de arrozeiros com faixas e auto-falantes, com mensagens agressivas contra o presidente Lula.
O incidente mais grave ocorreu na madrugada da terça-feira 19 de abril - Dia do Índio -, quando uma bomba caseira, do tipo coquetel-molotov, foi lançada contra a residência do professor Fabio Almeida de Carvalho, coordenador do núcleo de formação superior indígena da Universidade Federal de Roraima (UFRR). O professor, que também recebeu ameaças por telefone, teve seu carro danificado mas não foi ferido.
Em razão do atentado, as organizações indígenas e indigenistas do estado cancelaram as atividades comemorativas da Semana dos Povos Indígenas de Roraima. Outros professores, como Pierlângela Nascimento da Cunha, coordenadora da Organização dos Professores Indígenas de Roraima (Opir), e Telmo Ribeiro Paulino, coordenador do Centro de Formação Macuxi Região Baixo Cotingo, na TI Raposa-Serra do Sol, também foram alvo de ameaças na semana passada.
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