Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: LOIDE GOMES
23 de Jun de 2005
Libertados ontem três agricultores mantidos reféns desde sábado por um grupo de índios macuxi na maloca São Miguel, na reserva Raposa/Serra do Sol, no município de Pacaraima. Antônio Alves de Sousa, 44, Antônio Ferreira, 45, e Otávio Gonçalves da Silva, 23, foram soltos por volta das 7 horas, depois que os indígenas perceberam a aproximação de pessoas vindas de Pacaraima para libertar os reféns.
O episódio, que reacende a tensão entre índios e não-índios, na reserva homologada em abril deste ano, apresenta duas versões. Segundo informações repassadas pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) à Polícia Federal, o grupo de índios e não-índios vindos de Pacaraima para libertar os três agricultores presos, também tomaram, os antes algozes, por reféns. Ninguém soube informar quantos índios teriam sido vítimas dessa ação.
Essa versão dos índios ligados ao CIR é negada pelos agricultores e pelo prefeito de Pacaraima, o rizicultor Paulo César Quartiero, que acompanhou os depoimentos na Delegacia da cidade.
O presidente do CIR, Marinaldo Trajano, não se posicionou sobre o caso. Ele disse que vai aguardar a apuração dos fatos para depois se manifestar. A entidade, no entanto, é acusada de ter comandado o seqüestro. Os indígenas que prenderam os três agricultores são favoráveis à demarcação contínua da reserva e ligados ao CIR.
Segundo relato de Antônio Alves de Sousa à Folha, toda a ação foi orientada por meio de radiofonia. O equipamento de comunicação também foi usado para pedir reforço das aldeias próximas a São Miguel.
Ele conta que no sábado pela manhã estava trabalhando, junto com Otávio Gonçalves, no sítio Fazendinha, na Colônia do Miang, quando foram convidados por um vizinho, Antônio Ferreira, para colher bananas na sua propriedade, chamada de Fazenda Canindé.
Eles já estavam na estrada carregando os cachos de banana, quando por volta das 15 horas foram abordados por um grupo de cerca de 30 indígenas, entre homens, mulheres e crianças, armados com arco, flecha, machado, foice e pedaços de pau. Na versão contada pelo CIR à Polícia Federal, os agricultores estavam destruindo as plantações.
Os índios alegaram que eles estavam retirando produtos de sua área sem autorização e que, por isso, seriam punidos. Os três foram levados a um barracão localizado a aproximadamente 800 metros da fronteira com a Venezuela. Ali, um dos líderes do grupo ordenou uma revista para procurar armas e os indígenas aproveitaram que os agricultores estavam de braços levantados para dominá-los.
"Eles passaram pimenta nos nossos olhos e amarraram nossos braços com cordas, como se fossem algemas. Eu mesmo fiquei sem enxergar por quase meia hora, com a pimenta ardendo nos olhos", conta. Depois de amarrados, lembrou que andaram por cerca de uma hora e meia até a aldeia São Miguel. "Eles receberam a ordem pelo rádio que era pra levar a gente pra lá", acrescentou. Essa maloca fica a cerca de 33 quilômetros da sede do município de Pacaraima.
No trajeto, afirma que foram escoltados por oito índios apenas. "Quando nós chegamos lá, já tinha índios de outras malocas esperando a gente. Como já era noite, eles colocaram a gente na escola para passar a noite. Eles eram orientados o tempo todo por pessoas de Boa Vista", salientou.
Inicialmente, os agricultores tiveram que dormir no chão. Depois o professor da localidade, que se comunicava pelo rádio, trouxe as redes. Eles receberam comida e água durante o tempo em que ficaram presos. As cordas eram retiradas durante as refeições.
Antônio disse ainda que os índios afirmaram que eles só seriam libertados em Boa Vista e que um avião iria buscá-los para trazer até a Capital. No domingo um bimotor só não pousou na aldeia porque a pista estava molhada. Na segunda-feira à tarde, outras duas aeronaves sobrevoaram a área, mas não pousaram.
A noite de segunda-feira, segundo ele, foi a mais tensa. "Por volta das 18 horas, chegou outro grupo de uns 18 índios para fazer a vigilância. Dois deles estavam encapuzados. Eles estavam muito agressivos e bateram na gente na barriga e nas costas com facão. Ameaçavam dizendo que vieram de longe e que não iam dar viagem perdida", relatou.
A partir desse momento, as cordas foram substituídas por uma corrente com cadeado. "Nós três ficamos presos na mesma corrente e eles queriam colocar as cordas nas pernas, mas o professor [que não sabem o nome] não deixou. Quando a gente foi dormir, eles viram que não dava para deitar com a corrente e aí deixaram dois presos a ela e amarraram o outro com a corda", comentou.
Apesar das ameaças de tortura, Antônio disse que passaram à noite tranqüilos, mas por volta das 5 horas perceberam que os índios ficaram agitados ao perceber a chegada de outras pessoas. Ao constatar que eram índios e não-índios da sede de Pacaraima, decidiram libertar os agricultores.
"O tuxaua Miguel disse pra gente que como estava vindo umas pessoas, eles iam nos soltar, e assim fez. Nós saímos a pé e fomos encontrar o pessoal já na fronteira com a Venezuela", comentou.
No depoimento dado à Polícia Civil de Pacaraima, o dono da fazenda Canindé, Antônio Ferreira, contou que eles foram seqüestrados por um grupo de aproximadamente 33 indígenas e que foram resgatados pelos colegas agricultores da Colônia Miang e dos índios que moram em Pacaraima.
Disse ainda que o índio chamado de "Nego André" ameaçou cortar seus dedos e dos companheiros e comentou que outros parentes estavam chegando, "os quais faziam parte do grupo de extermínio e que ele não se responsabilizaria pelo que acontecesse porque todos estavam com muita raiva".
A Colônia do Miang abriga agricultores brasileiros e venezuelanos em uma área próxima ao marco 7, na fronteira dos dois países. A área está dentro da reserva Raposa/Serra do Sol, mas as autoridades locais defendem que ela faz parte do perímetro urbano de Pacaraima, que está fora da demarcação.
As estradas que dão acesso a esse local passam por dentro da Venezuela e foi em território venezuelano que os agricultores dizem que foram seqüestrados
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