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Ratos e, agora, cupins

Veja, Especial, p.120-124
08 de jun de 2005

Ratos e, agora, cupins
Ao desbaratar uma quadrilha que lucrava com a devastação da Floresta Amazônica em Mato Grosso, a Polícia Federal esbarra num petista. Em 2004, ele foi encarregado de arrecadar fundos para a campanha do PT à prefeitura de Cuiabá
André Rizek, de Cuiabá
Com reportagem de Marcelo Carneiro
Cupins, como explicam os dicionários de entomologia, são insetos que vivem em comunidades populosas, gostam de viver nos trópicos e se alimentam de madeira e plantas vivas, causando grande prejuízo e destruição. Na quinta-feira passada, a Polícia Federal (PF) desbaratou um ninho de cupins vorazes em Mato Grosso. A Operação Curupira prendeu 102 pessoas – entre madeireiros, fiscais do Ibama e outros funcionários públicos – acusadas de colocar abaixo quase 2 milhões de metros cúbicos de árvores em troca de propinas e lucro fácil, só nos últimos dois anos. A ação policial provocou alívio entre os defensores da mata e os brasileiros que não suportam mais assistir ao crescimento da corrupção no país, mas – como não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos – deverá causar também mais um constrangimento para o governo federal.
Pelo menos três dos detidos na operação foram nomeados pelo atual governo e pertencem aos quadros do PT. No comando do roubo da floresta, segundo a PF, estava o número 1 do Ibama em Mato Grosso, Hugo Werle. Gerente executivo do órgão, Werle é membro do conselho fiscal do PT no estado e foi o arrecadador extra-oficial de fundos de campanha do partido nas últimas eleições municipais em Cuiabá. Essa informação foi confirmada a VEJA por dois dirigentes petistas do estado. Em diversos dos mais de 1 000 diálogos interceptados pela PF ao longo das investigações, participantes da quadrilha se referem a Werle como o manda-chuva do esquema. Outros dois petistas acusados de envolvimento na quadrilha da madeira são Marcos César Antoniassi e Ana Lúcia da Riva. O primeiro, gerente do Ibama na cidade de Juara e presidente do diretório municipal do partido em Novo Horizonte do Norte, é acusado de emitir falsos laudos de vistoria atestando a existência de madeireiras-fantasma – criadas apenas para ampliar a cota de desmatamento dos empresários. Ana Lúcia da Riva, gerente do Ibama na cidade de Sinop, é filiada ao PT e casada com o presidente do diretório municipal do partido em Alta Floresta. Sua prisão não foi fruto das investigações da PF. Ocorreu a pedido do Ministério Público Federal, que também determinou a prisão de Antonio Hummel, diretor de Florestas do Ibama, em Brasília, e de Moacir Pires, braço-direito do governador Blairo Maggi (PPS) na área ambiental. Os três são apontados pelo MP como participantes da quadrilha.
Hugo Werle é professor doutor em geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso. Em seu relatório, a PF diz que ele "usou o seu prestígio como gerente do Ibama para angariar fundos para campanha política" – mais especificamente a do candidato do PT à prefeitura de Cuiabá, Alexandre Luis Cesar. Um diálogo interceptado pela PF às vésperas do segundo turno das eleições, no ano passado, mostra alguns dos métodos usados pelo gerente do Ibama para engordar o caixa da campanha petista. Na conversa, sua secretária, Ivana, diz ao madeireiro Elvis Cléber Portela, preso na Operação Curupira sob acusação de ser uma das peças-chave do esquema: "Preciso vender o convite de um jantar do Alexandre para você". Em seguida, pede ao madeireiro que dê "certeza" de que vai comprar o ingresso, "porque a lista que eu tenho aqui eu tenho de passar tudo para o professor Hugo".
Em outro diálogo, gravado pouco depois, o mesmo madeireiro reclama com um colega do preço do convite para o jantar, mas diz que é necessário ajudar "a eleição do cara" (Alexandre Luis Cesar), sob pena de Werle perder o cargo no Ibama (leia transcrição acima). Werle, como demonstram as investigações da PF, sabia arrecadar também para si. Em 2002, tinha patrimônio declarado igual a zero. No ano seguinte, quando assumiu a gerência do Ibama, declarou ao Imposto de Renda ter amealhado 246.000 reais. Em 2004, seu pé-de-meia já estava em 426.000 reais, segundo informou ao Fisco, de acordo com a PF. Tudo isso ganhando pouco mais de 6.000 reais por mês. Gaúcho, ele foi indicado para o cargo pelo deputado Carlos Augusto Abicalil, membro do diretório estadual do PT em Mato Grosso. Procurado por VEJA entre quinta e sexta-feira, o deputado não atendeu a reportagem.
A madeira ilegalmente derrubada e comercializada pelos participantes da quadrilha nos dois últimos anos, segundo a PF, daria para carregar 66.000 caminhões. Enfileirados, eles ocupariam uma extensão equivalente à distância entre o Rio de Janeiro e Natal. Um dos expedientes usados pela quadrilha para assaltar as florestas passava por um pedaço retangular de papel chamado ATPF: Autorização para o Transporte de Produtos Florestais. Concedido em duas vias aos madeireiros pelo Ibama, ele descreve o tipo de madeira e a quantidade que cada caminhão está autorizado a transportar. No caso da quadrilha de Mato Grosso, o madeireiro preenchia a primeira via do documento (aquela que acompanha o caminhão com o carregamento de madeira) de uma forma e a segunda (que seguia para o Ibama), de outra. Obviamente, colocava na primeira uma quantidade de madeira sempre superior à permitida.
Em um determinado momento, as duas vias tinham de se encontrar no Ibama para conferência. Nessa hora, os funcionários corruptos entravam em ação: sua missão consistia em não conferir nada e simplesmente sumir com a via adulterada. A segunda modalidade de fraude com ATPFs era mais simples. Funcionários do Ibama se limitavam a vendê-las em branco para os madeireiros, a 2.000 reais a folha. Assim, os empresários poderiam preenchê-la com a quantidade de carga que quisessem e o tipo de madeira que desejassem – incluindo as valiosas mogno, tatajubas e maçarandubas, por exemplo. Cortadas, essas árvores demoram de 130 a 200 anos para se regenerar.
Na certeza da impunidade, a quadrilha da madeira chegava a dar-se ao luxo de exibir pitadas de humor negro nas fraudes. A PF descobriu a existência de mais de 450 madeireiras-fantasma – criadas exclusivamente para ampliar a cota de árvores derrubadas permitida aos empresários. O cinismo estava no endereço em que elas eram registradas: cemitérios, por exemplo. Para atestar a existência de uma empresa inexistente, funcionários do Ibama recebiam de 3.000 a 5.000 reais, segundo a PF. Outro ótimo negócio descoberto pela quadrilha consistia em abrir uma empresa de recomposição florestal para compor um esquema triangular de corrupção. Por lei, uma madeireira que esgota sua cota de derrubada de árvores pode conseguir autorização do Ibama para cortar mais madeira desde que contrate uma empresa de reflorestamento que aumente o plantio de árvores em seu terreno. No esquema da quadrilha, a madeireira fingia contratar uma empresa de reflorestamento, a empresa de reflorestamento fingia plantar árvores no terreno da empresa e o Ibama fingia que estava tudo certo. No final, todo mundo levava seu quinhão. "Se uma única empresa, a Tecamat, tivesse plantado o que está no papel, daria para cobrir três vezes a área de Mato Grosso", diz o delegado federal Tardelli Boaventura, que comandou as investigações.
O estado de Mato Grosso, sozinho, é responsável por metade de toda a devastação na Floresta Amazônica entre 2003 e 2004. Até a semana passada, ambientalistas imputavam essa triste liderança ao cultivo da soja no estado – primeiro produtor nacional do grão. Neste momento, sabe-se que há uma praga muito mais devastadora dizimando as florestas: a corrupção. A Operação Curupira, que agora a revela, vem na seqüência de uma série de animadoras ações deflagradas pela Polícia Federal desde 2003, quando o delegado Paulo Lacerda assumiu a direção do órgão. Ao longo de 75 delas, a PF prendeu 1 321 pessoas acusadas de corrupção, sendo 368 funcionários públicos. É uma limpeza inédita na história do país. É também um marco divisório numa instituição que até então vivia o estigma do aparelhamento. A prisão de petistas na Operação Curupira reforça os indícios de que a Polícia Federal se esforça para consolidar o apartidarismo que vem caracterizando a atual gestão. Em breve, ela terá oportunidade de provar se essa disposição é mesmo para valer. O escândalo dos Correios, revelado por VEJA, deverá ser investigado por uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), apesar dos esforços do governo na direção contrária. Mas também será esmiuçado em investigação criminal já em curso na PF. E, nesse caso, tudo indica que cupins graúdos, graudíssimos mesmo, sairão do buraco. Será a prova de fogo da Polícia Federal.
O PT passa por um agora. A revelação de que um integrante de seus quadros – que cumpriu papel de arrecadador de campanha para o partido – estava no comando de uma gangue que ceifava a selva amazônica em troca de propinas surte o efeito de uma bomba de napalm em uma sigla que até há muito pouco tempo tinha na moralidade sua maior bandeira. Nas horas seguintes à divulgação da Operação Curupira, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, veio a público para dizer que o esquema entre madeireiros e o Ibama não surgiu no governo Lula: "Existe há décadas", reagiu. É verdade. O que a constrangida ministra não pôde negar, no entanto, é que, embora o esquema se perpetue há tempos, os cupins que dele participam se renovaram. E alguns dos que hoje estão em ação carregam no peito a estrela de seu partido.

"Tem que deixar ele aí"
No diálogo, dois madeireiros acusados de pertencer à quadrilha de Mato Grosso falam sobre a necessidade de manter o petista Hugo Werle no cargo de gerente do Ibama e comentam um jantar de apoio ao candidato do PT à prefeitura de Cuiabá, organizado por Werle e prestigiado pelo ministro José Dirceu.
Elvis: Mandaram um convite pra mim aqui, pra uma janta do José Dirceu.
Nivaldo: Ah, o Zé Dirceu vai vir aí?
Elvis: Vai, amanhã.
Nivaldo: Ah, mas o Zé Dirceu é mala...
Elvis: Tem que pagar o convite, adivinha o preço do convite...
Nivaldo: 100 reais.
Elvis: 500 reais! (risos) Mas é brabo, é porque é eleição do cara, entendeu? E aqui, e se o cara não ganhar, é perigoso o Hugo sair.
Nivaldo: Não, não. Então tem que deixar ele aí

"Três contos só para vistoria"
José Carlos Ferreira é um dos fiscais do Ibama em Cuiabá que, segundo a PF, elaboram falsos laudos de vistoria para empresas madeireiras. No diálogo, ele negocia a liberação de um lote de madeira ilegal com o dono da Laminadora São Jorge, Wander Destefani.
José Carlos Ferreira: E aí, tudo bom?
Wander Destefani: Graças a Deus, tudo tranqüilo. (...) Eu vou agilizar o cheque pra mandar pra você.
José Carlos: Wander, mas aí aumentou, né...
Wander: Ô, louco, Zé! Sei que tava faltando dois nas nossas contas lá, né?
José Carlos: Veja só: três contos foi só pra fazer aquela vistoria, foi o que todo mundo pagou aqui, entendeu? Aí tinha aquele problema da madeira, aqueles dois contos. Mas, como demorou, o pessoal ficou p..., disse que não queria mais. Queriam fazer até a p... do auto de infração. Aí eu falei que você era uma pessoa chegada nossa, que tava passando por um momento difícil, entendeu? Aí falaram cinco pilas.
Wander: Fora os três?
José Carlos: Fora os três, só da madeira. Porque três contos foi só pra fazer aquele negócio, entendeu, pra liberar o negócio.
Wander: Certo.
José Carlos: Da madeira é coisa à parte. (...) Eu sei que tá difícil pra todo mundo, Wander. Mas faz o seguinte: veja aí, pelo menos, três e meio.
Wander: Eu vou agilizar um cheque, então.
Veja, 08/06/2005, p. 120-124 (Especial)

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