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Raposa na reta final

Brasil Norte-Boa Vista-RR
22 de Mai de 2003

O ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos (FOTO) parece ter entendido a complexidade da questão indígena em Roraima. Antes de se posicionar definitivamente sobre se a demarcação da região de Raposa deve ser contínua ou em ilhas (como quer a maioria dos roraimenses), virá à região para testemunhar os fatos e dialogar com todos os envolvidos na contraditória questão para em seguida dar o veredito.
Bastos informou que o presidente da Funai, Eduardo Aguiar de Almeida, e uma grande equipe também virão a Roraima inspecionar a área de 1,6 milhão de hectares onde vivem apenas 12 mil índios. O ministro quer olhar de perto a situação "para tomar uma decisão que atenda ao interesse dos índios e leve em conta todo o conjunto". "Queremos ouvir todos os lados: governos, organizações não-governamentais e sociedade", disse. Após a inspeção, será apresentado um diagnóstico ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva
A decisão do ministro foi anunciada anteontem em Brasília durante a audiência pública na Comissão da Amazônia, da Câmara dos Deputados. "Trata-se de uma questão que deve ser amplamente debatida e a sociedade dizer o que é melhor, pois esse é um caminho democrático para se encontrar uma solução que gere paz e desenvolvimento sócio-econômico ao povo roraimense, garantindo bem-estar aos índios e não índios", disse.
Um aceno para deixar mais tranqüilos os defensores da demarcação descontínua é que Márcio Thomaz Bastos afirmou que toda demarcação é passível de revisão. Era o que todos políticos, empresários, fazendeiros e indígenas contrários a área contínua queriam ouvir.

Agora vai
Presente na audiência pública da Comissão da Amazônia, o senador Mozarildo (PPS) saiu de lá convencido de que agora a demarcação de Raposa/Serra do Sol sai.
"Percebo que o governo deve finalizar sua proposta de demarcação. Uma solução será apresentada nos próximos dias que atenderá a todos os interessados. Mas se preparem, porque a decisão pode deixar também muita gente frustrada".
O senador diz que não vê mais razão para tanta protelação. "Estamos há mais de uma década travando intensas batalhas sobre Raposa. Existe muita gente envolvida no conflito, portanto, há que se tomar logo uma posição definitiva".
Compensação
Uma outra forma de Roraima sair bem na questão da demarcação de Raposa é se houver investimentos maciços no Estado como compensação pela perda das terras.
O próprio ministro disse que a possibilidade existe. "E seria justo que houvesse isso".
Mas a não homologação deixa perplexos os representantes indígenas. O secretário-geral Cimi, Egon Heck, disse que Lula não pode ceder as pressões.

Entendimento
Na audiência de Brasília, o governador Flamarion Portela disse que estudos asseguram que, para cada índio, bastam 12 hectares de terra.
Segundo ele há entendimento na maioria das lideranças da região para que as terras sejam repartidas entre os que habitam na área, índios e não índios.
Flamarion não vê razões nenhuma para tanto drama e acha perfeitamente razoável que prevaleça a harmonia na área.

É prejudicial
Para Luciano Castro (PL) a indefinição é prejudicial para Roraima, não há continuidade no processo natural de desenvolvimento.
"Não se pode dar a segurança devida aos empresários que querem investir em um estado que não oferece garantias suficientes aos empreendimentos", analisa.
Ele entende que o debate será o melhor caminho para encontras as respostas sobre a questão indígena. Mas a lentidão e a burocracia oficial só geram intranquilidade e equívocos excessivos.

Há tempo
Luciano acha que não se deve estabelecer um prazo para o anúncio da demarcação.
"Não se trata de estipular prazos, e sim, realizar a demarcação de forma que melhor atenda as necessidades das comunidades indígenas e as de desenvolvimento do estado".
E resumiu: "Não importa se for homologada daqui a seis meses, um ano ou mais. Importa é realizar o melhor para Roraima".

Na carne
Coube ao deputado Rodolfo Pereira (PDT) protagonizar momento de emoção na audiência sobre a demarcação de Raposa.
Não apenas por ser indigenato, mas pela forma sensível que abordou o tema.
A maior lamentação de Rodolfo é que brasileiros se revelem tão ignorantes como conhecedores da questão de Roraima. Principalmente os deputados sulistas.

Cobranças
A deputada Suely Campos (PP) cobrou do ministro Márcio Bastos mais atenção e a realização de programas que tragam melhorias da saúde, da cultura e da socialização das comunidades indígenas.
"A Funai vem desempenhando papel quase nada valorizador da saúde e da culturas indígenas. Como está, ou se extingue os índios pelas doenças ou pela falta de incentivo ás suas culturas", protestou.

Mesmo lado
Antagônicos históricos, os senadores Mozarildo Cavalcanti (PPS) e Romero Jucá (PMDB) agora habitam o mesmo domicílio, no grupo que dá sustentação ao presidente Lula e ao governador Flamarion.
Mas parece que a convivência, pelo menos política, será pacífica. E o ensaio aconteceu na última terça-feira onde almoçaram juntos com Flamarion.
E Mozarildo não esconde: 'o dinamismo da política permite que adversários se dêem as mãos em defesa de causas justas'.
Segundo ele o político que não admite nem convive com a divergência, tem que desistir da vida pública.

Nova face
O almoço de Brasília oferecido pelo governador Flamarion, na terça, em que 11dos 12 parlamentares da bancada roraimense no Congresso estavam presentes, exibiu a nova face da política estadual. Ausente apenas o deputado Chico Rodrigues que se recupera de uma cirurgia.
O fato é histórico e não podemos jamais imiscuí-lo do registro. Seria o mesmo que não perceber a realidade atual.
Sobretudo por reunir lideranças que não se alinhavam até dias atrás.

A convergência
E quem motivou o diferencial foi o senador o senador Romero Jucá, muito à vontade entre os históricos governistas.
E pelos bramidos, berreiros e vozeria, deixa claro que todos falarão a mesma língua de agora em diante.
O que constitui uma força inquestionável em torno do governador Flamarion, que agora pode auferir mais dividendos nas reivindicações ao Governo Federal.

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