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A Raposa e a manipulação dos fatos

Folha Web - http://www.folhabv.com.br/
Autor: Jaime Brasil Filho
16 de Jul de 2011

A dominação ideológica realizada pela grande mídia funciona como uma orquestra; são vários meios, inúmeros níveis de discurso e diferentes formas de levá-lo à população. A característica principal dos nossos tempos é que os ideólogos que constroem os discursos dominantes entenderam que não é necessário e nem eficaz que seja utilizado um modelo linear de ideias, ao contrário de outros tempos, não é mais a propaganda lógica e explícita a que é utilizada para convencer as pessoas, eles agora conseguem a adesão e a acomodação da população por meio de argumentos confusos. É a confusão, e não a defesa de posições, a principal arma utilizada pela grande mídia para que a população fique inerte e conservadora.

Alguns dos exemplos mais prosaicos podem ilustrar o que afirmo. Vejam o que faz a mídia. Em um momento diz que você tem que ser magro, que obesidade é perigosa, mas em seguida somos estimulados a programas de receitas culinárias e propagandas de comidas muito calóricas. Certo tempo na tela é reservado para defender que devemos dirigir devagar no trânsito, em outro a publicidade nos apresenta carros que praticamente voam. Discursam contra a violência, e depois enchem a programação com filmes que enaltecem os mais violentos. Há programas de fim de tarde com tragédias, criminalidade urbana e crueldade, o tal "mundo cão", que depois são sucedidos nas telas pelos reis e rainhas do otimismo, da auto-ajuda, aqueles que dizem que a "felicidade é possível, só depende de você".

A confusão como arma entra também no conteúdo jornalístico. Em um momento os jornais televisivos dos principais canais abertos, defensores das idéias neoliberais, isto é, aquelas dos banqueiros, do grande agronegócio e das corporações dizem que o Governo tem que parar de gastar, que tem que economizar dinheiro para mostrar liquidez e conquistar a confiança dos sanguessugas do mercado especulativo (que eles chamam de investidores) que vivem dos papeis da dívida que nós pagamos, mas depois dizem que as fronteiras estão abandonadas, que ali faltam fiscais, assim como há carência de médicos nos hospitais, de professores nas escolas e que precisamos de mais policiais nas ruas; que precisamos de melhores estradas, portos, aeroportos etc. Mas como gastar cada vez menos, como eles querem, se precisamos gastar mais?

Há alguns anos uma grande emissora ganhou um prêmio por ter realizado uma série de matérias que mostravam como o bioma Cerrado estava ameaçado de desaparecer pelo mau uso e pela ganância do agronegócio. Mas logo em seguida fez outra série de matérias homenageando os grandes produtores de grãos do mesmo Cerrado.

Confusão, pura confusão. Boa parte da população fica sem saber o que pensar, fica estática, com medo de agir, de tomar alguma iniciativa e depois se arrepender. Mas não é só esse tipo de confusão que é usada como arma ideológica, misturar assuntos que não necessariamente dependem um do outro para justificar uma idéia é também uma arma na construção dessa confusão jornalística e midiática.

A Revista Veja fez uma matéria há algumas semanas que requentava a polêmica da TI-RSS (Terra Indígena Raposa-Serra do Sol). A Bandeirantes pegou carona e, talvez não por mera coincidência, começou a transmitir uma série de matérias sobre o mesmo tema, com a mesma linha de "raciocínio" que a Veja usou.

Tirando o fato de que a Band é ligada ao Canal Terra, porta-voz do agronegócio na nossa mídia televisiva, o que mais chama a atenção sobre as matérias é que algumas verdades são mostradas para insinuar uma falsa causa e insinuar uma equivocada conclusão. Fatos paralelos são editados para insinuar que a demarcação e homologação da Raposa-Serra do Sol, tal como está, teria sido um erro. Vamos lá.

Eles mostram que há índios vivendo de forma subumana na periferia e no aterro sanitário de Boa Vista, e isso é verdade, aliás, índios vivendo nas piores condições na periferia da cidade já havia desde quando eu era criança, mesmo quando as terras da TI RSS ainda estavam sob os domínios dos fazendeiros, e mesmo depois com a chegada dos arrozeiros. O chamado "êxodo" de índios para Boa Vista não aconteceu depois da decisão do STF, vem acontecendo há décadas. Mas, e por qual motivo? Devido à falta de melhores condições de vida? Sim, pode ser, mas a questão é que no tempo dos fazendeiros e dos arrozeiros as tais boas condições tampouco existiam por lá, e nada garante que o retorno deles para lá melhorará a condição de vida dos índios. Aliás, eu queria saber: onde é que fazendeiros e arrozeiros foram, ou são, os grandes benfeitores dos índios? Os índios estão aqui porque nós estivemos lá antes, dominando, humilhando, explorando. A solução para o Estado brasileiro é tomar vergonha na cara e garantir não somente aos
índios, mas a todos os cidadãos, uma vida digna onde quer que eles vivam. Em resumo, a Band usou um fato verdadeiro, a miséria de muitos índios na cidade, mas aponta causas falsas e coloca como culpada a demarcação.

Outro ponto abordado é a situação dos chamados desintrusados, daqueles que foram obrigados a sair da área. A matéria afirma que eles teriam sido, em muitos casos, injustiçados, e isso é verdade. Mas isso não significa que os argumentos e parâmetros que levaram à demarcação TI-RSS estivessem errados, a compensação e o tratamento aos desintrusados é que, em muitos casos, foi injusta. Então, qual é a solução? Exijamos justiça, mas não são os milhares de índios da TI RSS os culpados pela injustiça do Estado brasileiro para com os desintrusados.

A matéria televisiva segue assim, misturando causas e efeitos que não estão diretamente vinculados, apontando a atual situação da TI-RSS como a fonte de grandes males.

Realmente, em Roraima há grandes males: muita corrupção, preconceito (principalmente contra os índios), má administração e clientelismo eleitoral. O mau uso da terra disponível, muitas vezes abandonada nos assentamentos oficiais, depois de ser vendida ilegalmente a madeira nobre, e de ser gasto erroneamente, quando não desviado, o dinheiro que deveria ir para a agricultura familiar.

Muitos poderosos querem mais terras, mas que tal discutirmos como estão sendo utilizadas as terras destinadas à produção em Roraima?

http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=112509

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