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Raízes que prosperam: a cultura mato-grossense como motor de pequenos negócios e economia criativa

RDNEWS - www.rdnews.com.br
Autor: Kethlyn Moraes e Thalita Queiroz
07 de Jun de 2026

A viola de cocho pintada em uma tela, a cerâmica inspirada no Cerrado, os colares feitos com sementes amazônicas e os adornos indígenas produzidos na aldeia carregam mais do que beleza e tradição. Em um mercado cada vez mais globalizado e dominado por produtos industrializados, em Mato Grosso, artistas e artesãos transformam a cultura regional em negócio, gerando renda, preservando saberes e mostrando que a identidade local também pode ser uma estratégia de empreendedorismo.

Thalita Queiroz/Rdnews

Rosimar Pareci, artesã e professora

No norte mato-grossense, em Campo Novo do Parecis, o povo Paresí-Haliti começou a empreender, há alguns anos, a partir do que antes era produzido apenas para uso tradicional dentro da aldeia. Utilizando sementes coletadas às margens dos rios, penas e outros materiais encontrados na natureza, a artesã Rosimar Pareci transformou a produção de cocares, pulseiras e colares em um pequeno negócio que ultrapassou os limites da comunidade e encontra cada vez mais consumidores.

Passando de mãe para filha, por muitos anos os adornos eram produzidos apenas para uso próprio. A mudança começou quando a Aldeia Sacre II se tornou uma das principais atrações do etnoturismo no estado. Abrigando a imponente cachoeira Salto Belo, a comunidade passou a receber turistas para acampamento, trilhas e esportes de aventura, levando novas oportunidades.

Kethlyn Moraes/Rdnews

"Quando a gente começou a fazer, fazia por gostar, para a gente mesmo usar. E a gente vendia na aldeia mesmo, para os outros indígenas. Mas a gente nunca pensou que ia evoluir para fora das aldeias, que traria uma renda", explicou Rosimar. Agora, as encomendas e os clientes chegam até eles.

A professora conta que, além de complementar a renda da família, o artesanato se tornou a principal fonte de sustento para diversos moradores da comunidade. Mais do que um negócio, ela vê a atividade como uma ferramenta de preservação cultural.

"Eu aprendi com a minha mãe e agora vamos passando para os filhos. Aqueles que têm interesse vão aprendendo a fazer para vender e para mostrar a nossa cultura", afirma.

Se para Rosimar Parecis o artesanato surgiu como uma forma de preservar saberes, para Liliane Coury a arte foi, primeiro, um caminho de reconstrução pessoal. Indígena, nascida em Manaus (AM) e atualmente moradora de Chapada dos Guimarães, ela trocou a carreira acadêmica pelo empreendedorismo criativo e encontrou nas próprias raízes culturais a matéria-prima para seu negócio.

Kethlyn Moraes/Rdnews

Liliane Coury, artesã e empreendedora

Há 11 anos, durante um período de depressão, Liliane abandonou o mestrado em Sociologia e passou a produzir artesanato como atividade terapêutica. O que começou como hobby acabou se transformando na Fogo Fátuo Artesania, marca de joias artesanais produzidas com contas de vidro e inspiradas na biodiversidade amazônica e mato-grossense.

Você não compra só um produto pelo produto, mas tudo aquilo que ele carrega

Tucanos, araras, onças-pintadas e serpentes aparecem nas peças criadas por ela. Mais do que vender acessórios, a artesã conta histórias. Durante as feiras e eventos, costuma abordar os clientes compartilhando curiosidades sobre os animais que inspiram suas criações antes de apresentar os produtos. Ela defende que o diferencial para manter um negócio criativo, enquanto as grandes empresas "engolem" o mercado, é justamente o fato de o artesanato criar coisas únicas.

"Eu não quero fazer 10 mil peças iguais, eu quero fazer 50, e no mundo vão ser só aquelas 50. Eu vendo o meu tempo, o meu processo criativo. E a economia criativa é realmente isso. Empreender é outra coisa,é estar aqui, apresentar um trabalho, apresentar um conceito, falar da durabilidade, falar do processo, o que o cliente vai estar comprando. Não é só uma peça, é uma história, uma cultura. Você não compra só um produto pelo produto, mas tudo aquilo que ele carrega", pontua.

Annie Souza/Rdnews

Para a gestora de Economia Criativa do Sebrae Mato Grosso, Denize Barros, o estado reúne uma série de manifestações culturais e saberes tradicionais com potencial para gerar renda e impulsionar o desenvolvimento local.

Quando esses ativos culturais são estruturados como negócios, agregam valor ao território e criam oportunidades de desenvolvimento sustentável para as comunidades

"A cultura e as tradições regionais possuem um grande potencial econômico, especialmente quando transformadas em produtos e experiências com identidade própria. Mato Grosso possui uma riqueza cultural expressa no artesanato, na gastronomia, na música, nas festas populares e nos saberes tradicionais, que podem gerar renda, movimentar o turismo e fortalecer a economia local. Quando esses ativos culturais são estruturados como negócios, agregam valor ao território e criam oportunidades de desenvolvimento sustentável para as comunidades", afirma.

Economia criativa e desenvolvimento local

É nesse cenário que, segundo Denize Barros, a economia criativa produz impactos que vão além da geração de renda para os empreendedores. Elas fortalecem a identidade das comunidades e incentivam a continuidade de conhecimentos transmitidos entre gerações.

"Cada peça produzida carrega referências do território, das tradições e dos modos de fazer transmitidos entre gerações. Quando essas atividades se tornam negócios sustentáveis, elas incentivam que os mais jovens aprendam e deem continuidade a esses saberes, evitando que essas tradições se percam com o tempo", avalia.

Annie Souza/Rdnews

Osmar Virgílio, ceramista e empreendedor

Transformar cultura em oportunidade de negócio também foi o caminho encontrado pelo ceramista Osmar Virgilio. Aos 15 anos, ele começou a trabalhar como ajudante de um mestre ceramista e passou anos aprendendo as técnicas do ofício. Ao decidir largar o emprego formal, décadas depois, para apostar na cerâmica, chegou a ouvir que não daria certo. "Eu falei para o meu pai: Vou fazer cerâmica. Ele falou: Isso não tem futuro", relembra.

No entanto, alguns anos depois, Osmar já tinha seu próprio negócio, chamado Barro Vivo, e tornou-se o primeiro Mestre da Cultura Popular da Cerâmica reconhecido pelo Ministério da Cultura em Mato Grosso, vivendo 100% da cerâmica. Em sua jornada, ele defende que a sobrevivência do artesanato depende da valorização da identidade regional. Osmar passou a incorporar às peças elementos da cultura mato-grossense, como animais do Pantanal, paisagens locais e referências aos povos originários, porque precisava encontrar mercado para a produção, já que a cerâmica tradicional tinha pouca aceitação local.

"Muita gente que eu conheci na área parou justamente porque não conseguiu fazer essa transição de um produto para uma coisa com cultura agregada [...] A nossa cultura é linda. Eu coloco os bichos do Pantanal, coloco as paisagens do Mato Grosso. Eu rodei o estado inteiro, conheço a cultura, conheço o interior. Por isso fui colocando o que eu via", diz.

Galeria: Ceramista usa identidade regional como motor de seu pequeno negócio

Ele também aprimorou seu trabalho com a cerâmica de alta temperatura, que permite a utilização dos produtos em fornos, por exemplo, o que expandiu seu negócio, atraindo um público maior.

Preservação cultural

O impacto do trabalho de Osmar vai além da própria trajetória. Ele afirma que seu propósito é popularizar a cerâmica.

"Antes, a cerâmica tradicional era uma atividade de quem não queria trabalhar. Eu, por exemplo, quando não dava para viver da cerâmica arrumava um emprego e ia trabalhar. Mantinha o ateliê no fundo do quintal e produzia nos finais de semana. Nunca parei de produzir. Porque o meu caso é de amor com a cerâmica. E agora virou toda essa moda que o pessoal de alto padrão está querendo entrar na cerâmica e elitizá-la. E a minha ideia não é elitizar. A minha ideia é popularizar. Se a gente não tem pessoas para trabalhar, não tem pessoas capacitadas, então a gente tem que capacitar", afirma.

Ao longo dos anos, ele ajudou a formar cerca de 50 ceramistas, alguns deles hoje donos de seus próprios ateliês. Além da produção e comercialização das peças, o artesão participa de projetos voltados a vivências, abrindo o ateliê para visitas e oficinas que aproximam a comunidade do universo da cerâmica, como por exemplo, participando de um projeto do Sebrae que vai unir a cerâmica com um chá com bolo e rasqueado.

"Temos que introduzir a nossa cultura para os nossos filhos, para nossas crianças, desde pequenininho

Defensor da valorização da cultura regional, ele também busca despertar o interesse das novas gerações pela arte e pelos símbolos culturais de Mato Grosso, contribuindo para a preservação e a continuidade desse patrimônio.

"Temos que introduzir a nossa cultura para os nossos filhos, para nossas crianças, desde pequenininho. Porque senão ele absorve cultura de outro lugar. Tanta coisa linda que a gente tem", diz.

Annie Souza/Rdnews

Desafios e olhar empreendedor

Transformar um saber tradicional em negócio exige muito mais do que dominar uma técnica artesanal. Segundo a gestora de Economia Criativa do Sebrae Mato Grosso, Denize Barros, um dos principais desafios enfrentados pelos empreendedores do setor é justamente a transição entre a produção artesanal e a gestão de um empreendimento. Questões como precificação, comercialização e gestão financeira, costumam representar obstáculos para quem decide viver da própria arte.

"A principal diferença está na gestão e na estratégia. Um negócio criativo precisa conhecer seu público, definir preços adequados, investir em qualidade, criar uma identidade de marca, planejar a produção e buscar canais de comercialização. O talento e a criatividade continuam sendo essenciais, mas quando são combinados com planejamento e visão de mercado, tornam-se uma atividade econômica sustentável e competitiva", pontua.

Kethlyn Moraes/Rdnews

Denize salienta que é importante observar o valor que esse conhecimento possui para outras pessoas. "Muitas vezes, aquilo que parece comum para quem faz pode ser algo único e altamente valorizado pelo mercado. É importante buscar capacitação, conhecer exemplos de empreendedores que transformaram tradições em negócios e validar o interesse do público. O Sebrae pode apoiar nesse processo, auxiliando na estruturação do modelo de negócio, no acesso a mercados e na transformação de um saber tradicional em uma oportunidade de geração de renda e impacto social", conclui.

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