CB, Turismo, p. 8
17 de Mai de 2006
Raízes da América Latina
Projeto de instituições brasileiras e de outros países da América Latina pretende transformar roteiro em principal circuito turístico do Mercosul
Eugênio Bortolon
Especial para o Correio
As Missões Jesuíticas são redescobertas de tempos em tempos. Grandes projetos, grandes iniciativas, mas depois de um entusiasmo repentino tudo cai no vazio e na velha desculpa da falta de dinheiro para que as propostas seguissem adiante. Lugares extraordinários, com muita arte, história e arquitetura para contar aos turistas. Agora, porém, parece que o turismo nestas regiões - que abrange áreas do Brasil, Argentina e Paraguai - pode ganhar mais consistência. Há muita gente interessada em fazer com que o turismo nas Missões deslanche e vá em frente. No lado brasileiro, estão a Embratur, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, universidades, instituições culturais, escolas, museus, bibliotecas e empresas privadas.
No Paraguai e Argentina, os governos também resolveram dar um empurrão para que o projeto Circuito Turístico Internacional das Missões se torne realidade. O circuito turístico já foi lançado, numa iniciativa de vários órgãos federais, estaduais e municipais e do Patrimônio Cultural das Missões Jesuíticas dos Guaranis.
O projeto envolve CD-ROM, um site na Internet e um Banco de Dados, além de muitas festas e promoções e o roteiro Caminho das Missões, elaborado já há alguns anos e que vem, pouco a pouco, ganhando consistência e grande número de adeptos. Para mostrar que as Missões são de fato um Patrimônio Cultural do Mercosul, o roteiro também foi mostrado para agentes de viagens de vários países da América Latina e em eventos e feiras internacionais européias no início do ano.
As Missões, de fato, têm tudo para ser um grande destino turístico do Brasil e do Mercosul. É uma viagem às raízes do continente, a um pedaço misterioso da história da América do Sul. O circuito leva os turistas para os povoados missioneiros dos três países. Os visitantes conhecem os sítios arqueológicos, monumentos, museus e outros locais históricos, além dos atrativos naturais de cada região. A história missioneira também será desvendada em exposições, vídeos, espetáculos de som e luz e centros de documentação e interpretação.História As Missões Jesuíticas deixaram, realmente, um rastro de histórias e mistérios.
Consideradas uma forma de domínio promovida pelos espanhóis na América, a partir de 1600, os religiosos trataram de se aliar, logo que ali chegaram, aos índios Guaranis para desenvolver o seu trabalho de conquista. Durante 160 anos, foram fundados 30 povoados missioneiros no Brasil, Paraguai e Argentina, com aproximadamente 140 mil habitantes. Em cada missão havia dois padres jesuítas e até 6 mil índios.
Mas como a política é dinâmica e complexa, em 1750 tudo começou a desandar. O Tratado de Madri daquele ano estabeleceu novos limites entre as terras de Portugal e Espanha na América. O acordo determinava que a Colônia de Sacramento, povoação portuguesa no Rio da Prata, seria passada para a Espanha.
Em troca, seriam concedidos a Portugal os sete povoados missioneiros localizados hoje no Brasil e conhecidos como Sete Povos. A divisão não agradou, houve até uma Guerra Guaranítica, onde os índios enfrentaram os exércitos conjuntos de Portugal e Espanha e foram derrotados. Neste confronto, morreu o famoso cacique Sepé Tiaraju. Em 1767 tudo foi por água abaixo com a expulsão dos jesuítas.
Ao longo do século 19, localizados em três nações diferentes, os povoados missioneiros se transformaram aos poucos em ruínas, sem qualquer cuidado, invadidos por vegetações e ladrões de raridades e obras históricas. A bem da verdade, durante o século 20, a situação de abandono continuou com uma ou outra ação mais rigorosa de recuperação.
Nada avançava. Mas para fortalecer a importância das Missões Jesuíticas, há poucos anos a Unesco reconheceu os remanescentes das colônias como Patrimônio Cultural da Humanidade. Entre as ruínas consideradas patrimônio, estão São Miguel e os Sete Povos, no Brasil; Loreto, Santa Ana, Santa María de la Mayor e San Ignacio Miní, na Argentina; e Trinidad e Jesus, n o Paraguai.
Revolução na arquitetura
Os povoados das Missões eram revolucionários nos campos do urbanismo, arquitetura e artes - e todos seguiam o mesmo estilo. A praça era o centro, o local das procissões, desfiles militares, jogos e cerimônias religiosas. A igreja era o prédio mais importante e nas suas proximidades se localizavam os prédios comunais - a residência dos padres, o colégio e as oficinas de um lado, e o cemitério e o cotiguaçú (onde viviam as viúvas e os órfãos) do outro. Ao redor da praças, distribuíam-se as casas dos índios e o cabildo, ou conselho. Uma rua principal chegava na praça, defronte à igreja. Atrás da igreja, existia o sítio dos padres, com horta, jardim e pomar. As fontes, olarias e curtumes ficavam na periferia dos povoados. Nos povoados existiam ainda açudes, capelas, estâncias e ervais. As construções eram feitas de pedra ou de tijolos de terra e as coberturas de telhas de barro. A pedra itacuru, que foi utilizada na construção de muitos dos prédios, fornecia também a matéria prima para a fabricação de ferro em alguns povoados. Uma rede de estradas interligava todo o território missioneiro. Os portos nos principais rios facilitavam a comunicação com Buenos Aires. Esta civilização espetacular, na definição de historiadores, também possibilitou o desenvolvimento das artes. O estilo barroco, por exemplo, influenciou a arquitetura e o urbanismo, a escultura e a pintura, o teatro e a música. Os padres traziam seus conhecimentos artísticos europeus e, junto com os índios, criaram obras que passaram para a história como arte missioneira, com estilo próprio - o barroco missioneiro. As igrejas eram decoradas com esculturas e talhas de madeira policromada e telas pintadas a óleo. Nas paredes externas, trabalhos em arenito geralmente representavam motivos religiosos ou elementos da flora e fauna nativas. As missas tinham acompanhamento de corais e, em frente às igrejas, era apresentado o teatro sacro. A música era executada por orquestras de índios que reproduziam instrumentos musicais europeus e americanos.Sete Povos
O fim trágico da experiência jesuítica não apagou as Missões da história. Estudiosos consideram possível que muitos socialistas utópicos europeus do século 19 tenham criado seu ideário a partir da inspiração de relatos de viajantes a respeito de povoados onde as pessoas trabalhavam cerca de cinco horas por dia, desenvolviam as artes, o artesanato e a fé cristão num ambiente de real fraternidade, liberdade e igualdade.
No Brasil, o principal ponto de apoio na visita às Missões é a cidade de Santo Ângelo, a 460km da capital gaúcha, Porto Alegre. A cidade nasceu no mesmo local do povoado missioneiro de Santo Ângelo Custódio, fundado em 1706. As principais atrações de todas as Missões brasileiras, porém, estão em São Miguel Arcanjo - hoje município de São Miguel das Missões.
De estilo barroco, a igreja tem toda a estrutura em pedra arenito. É diferente da maioria das igrejas missioneiras, que possuíam uma estrutura de madeira para sustentar a cobertura. Além da igreja, podem ser visitados ali os remanescentes de outros prédios do povoado, com destaque para a fonte, utilizada para o abastecimento de água e a lavagem de roupas, construída em arenito, canalizando as águas de uma vertente. No local os turistas também tem acesso ao Museu das Missões, criado pelo governo federal em 1940, obra do famoso arquiteto Lúcio Costa, que utilizou como referências a arquitetura espanhola e as casas dos índios. Há no museu cem estátuas em madeira policromada, sinos e peças em arenito.
CB, 17/05/2006, Turismo, p. 8
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