VOLTAR

Racionamento ou dever de casa?

CB, Opinião, p. 17
Autor: SMERALDI, Roberto
20 de Jan de 2008

Racionamento ou dever de casa?

Roberto Smeraldi
Jornalista, é diretor da Oscip Amigos da Terra - Amazônia Brasileira

Jim Rogers não é um ambientalista, mas o presidente da Duke Energy, uma das principais empresas de eletricidade dos EUA, atuando também em seis países da América Latina, entre os quais o Brasil. Ele costuma dizer que "a usina mais barata e eficiente é a que não vamos precisar construir", assim sintetizando o pensamento de uma empresa que propôs formalmente abandonar, nos EUA, a remuneração das concessionárias "por megawatt gerado", adotando pagamento "por megawatt poupado".
Conforme amplamente previsto, inclusive na página de opinião deste jornal, voltou o debate sobre apagão e possíveis racionamentos de energia. Não se trata de uma surpresa, apesar de que parece haver tendências opostas no governo: por um lado, quem busca dramatizar o alerta, como forma de pressão para realizar obras de geração a toque de caixa; por outro, quem procura minimizar o risco, preocupado com a repercussão na opinião pública e confiando que a concretização da crise possa ser empurrada mais para frente.
Infelizmente, a perspectiva do racionamento é inevitável a médio prazo em decorrência de uma política energética de avestruz que teima em não enfrentar a questão estrutural, ou seja, a ineficiência relativa em toda a cadeia, incluindo a geração, o transporte e o consumo, sendo este último o segmento que concentra a maior parcela do fenômeno. A situação parece a de uma casa na qual há uma piscina com vazamento, a torneira da cozinha não fecha e se lava o quintal com esguicho. Para resolver o problema, o dono acha que a solução é fazer uma obra para alargar os canos que trazem água. E, como isso vai levar tempo - inclusive porque tem de quebrar o chão e a calçada - ele proíbe todo mundo de tomar água no jantar.
Em final de 2006, com reservatórios cheios, podia ser iniciado um rodízio de repotenciamento das usinas existentes com novas turbinas. Ao mesmo tempo, o BNDES poderia ter promovido financiamentos especiais para reduzir as perdas na transmissão (com um cronograma progressivo a ser completado em cinco anos) e para um programa permanente de ganhos drásticos em eficiência, tanto no consumo industrial quanto doméstico, com tarifas que incentivem as empresas que atingem determinados padrões ou fazem os clientes atingi-los. Também poder-se ia ter procurado injetar na rede a energia elétrica oriunda do bagaço da cana.
Bem, tais ações teriam sido suficientes para prevenir quaisquer discussões sobre apagão, com um saldo positivo nos próximos oito anos - entre poupança e geração - na faixa de aproximadamente um quinto do nosso consumo - algo que nem o mais ambicioso dos lobistas de obras poderia cogitar entregar.
Passou o tempo em que eficiência energética significava distribuir cartilhas com dezenas de tarefinhas diárias ao consumidor final. Hoje, medidores inteligentes e interativos podem permitir ao usuário ter controle on-line de seus fluxos de consumo, e isso inclusive pode ser feito pela própria empresa fornecedora, que passa a ter uma função de assessoria do consumidor e ganhar com as soluções que ele passa a adotar.
Não há outro potencial de geração de emprego tão grande, na indústria, como o da renovação tecnológica finalizada à eficiência energética. Para tanto, é preciso deixar de incentivar o que se deveria punir e vice-versa. Os investimentos atualmente previstos no PAC, com o objetivo de segurar mais um pouco o atual modelo, caracterizado pelo desperdício, seriam suficientes para realizar no Brasil uma revolução da eficiência energética.
Isso colocaria o país numa posição privilegiada para nova fase de desenvolvimento industrial. Por exemplo, exportaríamos provavelmente menos energia subsidiada sob forma de alumínio barato, sem gerar emprego no Brasil, enquanto passaríamos a atrair capital para investimento, a partir dos incentivos para a renovação do nosso parque industrial e da mudança na construção civil.
A nova rodada de debate sobre o racionamento é a conseqüência da década perdida na promoção da eficiência. Cada vez que se vinculam a capacidade de endividamento do setor e os incentivos públicos a faraônicas obras de geração - como está ocorrendo nestes meses - está se adiando a hora do conserto e da arrumação da casa, com efeitos perniciosos, em cadeia, na nossa economia.

CB, 20/01/2008, Opinião, p. 17

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.