OESP, Geral, p.A9
23 de Mar de 2004
Racionamento atinge 25% dos municípios No Nordeste, maioria tem de economizar o ano todo, mas medida é necessária em outras regiões
RIO - Embora a oferta de água per capita tenha aumentado nos anos 90, quase um quarto dos municípios brasileiros não consegue se livrar do racionamento.
Em 2000, 1.267 cidades do total de 5.507 tiveram de controlar o consumo.
Grande parte (41,7%) é obrigada a economizar água o ano todo, nos períodos de seca, e fica no Nordeste. No Sul e no Sudeste, o racionamento é realizado principalmente em cidades turísticas, superlotadas no verão.
Na Grande São Paulo, porém, há um paradoxo: o excesso de enchentes simultâneo ao risco de rodízio. Para o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, isso mostra a necessidade de proteger os mananciais e planejar o crescimento, além de "fortalecer as políticas de gestão integrada, deixando órgãos como a Sabesp e as autarquias municipais cumprir seus planos de forma integrada". Segundo ele, é preciso ainda fortalecer a gestão por bacia. "Isso, na região metropolitana, onde já temos um déficit, passa a ser uma corrida contra o tempo para reverter os prejuízos."
Enchentes - A relação direta entre inundações, enchentes, deslizamentos, assoreamento e limpeza urbana está traduzida em números no Atlas do Saneamento. Entre 1998 e 2000, 1.235 municípios sofreram com pelo menos um caso de inundação ou enchente e 60% deles declararam ter problemas de acúmulo de terra e lixo em rios, lagos e lagoas. No período, 1.297 cidades tiveram problemas de deslizamento de terras e desmoronamentos.
Em 2000, São Paulo foi o Estado com mais municípios atingidos por cheias:
262. Na Grande São Paulo, 23 das 39 cidades tiveram deslizamentos e desmoronamentos.
O serviço de coleta de lixo atinge 99% das cidades brasileiras, mas apenas 8% têm coleta seletiva. Já o sistema de drenagem de chuvas estava presente em 78,6% das cidades, em 2000.
Os técnicos do IBGE mostram, porém, que a principal agravante de inundações é a obstrução de bueiros e galerias - citada por 51% das cidades -, o que revela a má qualidade da limpeza urbana em muitas áreas. Ter coleta de lixo não significa que o serviço é uniforme nem indica um destino adequado para os resíduos. Outras causas foram adensamento populacional e projetos e obras inadequadas de dragagem. O atlas mostra ainda que só 23,4% das cidades têm sistema de dados meteorológicos e pluviométricos regular e, desse total, um terço não o utiliza.
O mecânico Nelson Kardel, de 53 anos, sabe bem o que é conviver com enchentes. Mora há 20 anos ao lado do Córrego Aricanduva, na zona leste de São Paulo. Já sobreviveu a muitas delas. Na entrada da oficina, uma lombada de concreto de 1 metro tenta conter as águas. "Aumento essa lombada há cinco anos, mas a água sempre passa." Vender o terreno? Nem pensar. "Até o índio, lá no Amazonas, sabe que aqui enche de água. As casas não valem nada."
(Luciana Nunes Leal, Moacir Assunção e Luciana Garbin)
OESP, 23/03/2004, p. A9
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