OESP, Economia, p. B7
Autor: TAMER, Alberto
10 de Jan de 2008
Racionamento ameaça o Brasil
Alberto Tamer
E o que todos esperavam, e o governo tranqüilamente negava, está aí, o racionamento de energia bate à porta. (Ah! Se fosse só a moça da Avon...) Pela primeira vez alguém responsável, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, desafiou Brasília e afirmou textualmente ao Estado que "não é impossível que o Brasil passe por um novo racionamento de energia ainda em 2008". Ele atenua ("é possível, não provável"), mas afirma que já é hora de fazer um plano de contingenciamento para um eventual apagão.
Todo mundo está correndo agora atrás das usinas térmicas, mas não temos nem gás, que vem da Bolívia, nem carvão, que vem da China. E, mesmo que tivéssemos, não dispomos de usinas em número suficiente para nos socorrer numa emergência mais grave.
Nosso presidente, mal informado pelos assessores, chegou a afirmar no dia 7 de novembro que não temos crise de energia.
"É preciso acreditar que no Brasil não tem crise energética. Este país tem energia até o ano 2012, tem aí o leilão do Madeira, vamos descobrir gás." E acrescentou: "É preciso acreditar nisso!"
Todo mundo quer acreditar, mas a realidade dos fatos não deixa. Nosso presidente precisa chamar seus assessores e exigir medidas urgentes. Não descobrimos gás e a Bolívia agora confessa que também não tem todo gás que nos prometeu.
E AS USINAS EM CONSTRUÇÃO?
Temos usinas em obras, usinas com um potencial de 2.700 megawatts (MW), mas nenhuma vai entrar em operação este ano. E, mesmo que todas entrassem, adiantaria pouco, pois precisamos instalar de 4 mil a 5 mil MW "cada ano", se quisermos manter a ousadia de crescer 5%.
MAS E O MADEIRA?
Os seus portentosos 6.450 MW estão como o petróleo de Tupi - vão chegar atrasados, só em 2012 ou 2014, e isso se não houver ações judiciais movidas por associações de ambientalistas. Uma boa parte daqueles 2.700 MW está às voltas com a Justiça.
É GRAVE E JÁ SABÍAMOS
A situação se agrava e não é hora de ficar dizendo "viu, nós não dissemos?". Mas é hora de lembrar os alertas de técnicos expressos nesta coluna durante todo o segundo semestre do ano passado.
"Racionamento, só se quisermos", dizia a coluna em 7 de junho, por exemplo. Os técnicos alertavam para a urgência do bagaço de cana, já usado com sucesso nas usinas. Só aí, afirmam eles, há duas Itaipus! E tudo isso sem o governo gastar um único real para usar um combustível que já tem.
Mesmo que chova muito este ano, temos de confiar na natureza por mais pelo menos seis anos, quando devem chegar os primeiros geradores do Madeira. Será um terrível pesadelo para a indústria nacional, principalmente. E empresas que pretendem investir aqui poderão rever seus planos.
É MUITA HIDRELÉTRICA...
O mais estranho é que o repórter do Estado Nicola Pamplona, da sucursal do Rio, divulgou na terça-feira estudo da empresa de assessoria internacional Frost&Sulivan afirmando que nosso principal risco vem da "excessiva dependência de hidrelétrica", de 91% em 2005.
Creio que eles viram só uma parte da história. Seria risco enorme se não fôssemos um país continental. Mas somos.
Se tivéssemos construído em tempo grandes usinas hidrelétricas na Amazônia e instalado linhas de transmissão os sistemas do Norte estariam interligados com os do Centro-Oeste e do Sudeste e também do Nordeste.
Isso foi feito com o linhão de Itaipu, que, juntamente com Tucuruí, na região Norte, está salvando o Brasil há mais de uma década.
TEMOS MAIS 160 MIL MW!
Não há, portanto, essa história de dependência demais da energia hidrelétrica. Ela é a salvação do Brasil! Temos ainda na Amazônia para aproveitar nada menos que 160 mil MW, quase duas vezes tudo o que está instalado no País. Aí, sim, o presidente Lula está com razão: este país tem energia não para até 2012, mas 2030 ou mais, pois os estudos mais sérios na Amazônia estão apenas começando. Os técnicos da Frost&Sulivan não conhecem bem essa maravilha inexplorada.
E o problema da conservação ambiental?
Também aqui somos bem-aventurados. Os rios da Amazônia são largos e possantes, mas correm em terras planas, que não exigem grandes barragem e enormes reservatórios para serem explorados.
USINAS TÉRMICAS TAMBÉM
É evidente que todo sistema hidrelétrico precisa de uma complementação térmica. Mas esta não serve para grande geração contínua, pois o custo é elevado.
Temos de enfrentar o desafio de não dispormos nem de gás nem de carvão e só de óleo e urânio.
Aí, sim, poderemos enfrentar a realidade e acreditar que vamos manter este país crescendo até mais de 5%. Mas, sem energia firme, não dá.
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OESP, 10/01/2008, Economia, p. B7
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