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Racionalizar uso da energia entra no radar do governo

Valor Econômico, Opinião, p. A12
02 de abr de 2014

Racionalizar uso da energia entra no radar do governo

O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, admitiu, pela primeira vez, lançar uma campanha para estimular o brasileiro a economizar energia elétrica. Em entrevista ao "The Wall Street Journal" publicada pelo Valor (28/3), Lobão afirmou que poderá pedir a redução voluntária do consumo de energia para permitir a recuperação dos reservatórios das hidrelétricas do país e evitar interrupções de fornecimento durante a Copa do Mundo, se as chuvas não aumentarem neste mês ou maio.
Já passou da hora de o governo incentivar o brasileiro a economizar energia elétrica. Uma campanha de racionalização do consumo ajudaria a poupar os reservatórios das hidrelétricas e a reduzir o recurso à dispendiosa energia térmica, que vem provocando estragos nas contas públicas.
Na prática, a economia de energia elétrica tem sido até desestimulada depois que o governo anunciou o corte nas tarifas. O pacote de energia anunciado há dois anos pela Medida Provisória (MP) 579 mudou as regras de concessão de geração e transmissão da energia e reduziu alguns encargos para promover a redução das tarifas de 20%. Os preços mais baixos estimularam o consumo.
Em fevereiro, por exemplo, com o calor excepcional, o consumo de eletricidade saltou 8,6% em comparação com o mesmo mês de 2013 e atingiu o nível mais alto em dez anos. O aumento foi de 14,6% nas residências e comércio, de acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Na indústria, o crescimento foi de 1,4%. No bimestre, o consumo avançou 6,8% ante igual período de 2013. Os especialistas notaram também uma mudança no perfil de consumo que passou a atingir picos no início da tarde e não mais no começo da noite. As regiões mais afetadas foram o Sul e o Sudeste, com consumo expressivo em quase todos os Estados.
Por outro lado, continuam escassas as chuvas que abastecem os reservatórios das usinas hidrelétricas, fonte de cerca de 70% da energia consumida no país. Praticamente uma semana antes do ministro Lobão cogitar a racionalização do consumo, o secretário executivo do Ministério, Márcio Zimmermann, já havia falado em sinal amarelo aceso para o setor de energia por causa das chuvas fracas de janeiro e fevereiro.
No fim de março, os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste estavam com 36,27% da capacidade média histórica. A expectativa inicial do Operador Nacional do Sistema (ONS) era de que o mês terminasse com os reservatórios com 41% da capacidade total. Em 2001, quando houve o racionamento, o percentual era de 34,5%, e o o país não podia contar com o parque de termelétricas disponível hoje.
Os reservatórios baixos mais a previsão do ONS de que as chuvas de abril serão equivalentes a 83% da média histórica levaram o Citibank a elevar o risco de racionamento neste ano de 71% para 94%. Segundo análise da instituição, o racionamento só será evitado se as chuvas de maio a dezembro forem de 108% da média histórica, considerado pouco provável. Em março, praticamente fim da estação chuvosa, as precipitações foram equivalentes a pouco mais de 60% da média histórica.
Ainda vai demorar a solução parcial do aperto na oferta, que é a entrada em operação plena dos grandiosos projetos na região Norte, onde os reservatórios terminaram março a 83,7% da capacidade total. Belo Monte, instalada no rio Xingu (PA), que deveria colocar a primeira das 24 turbinas em funcionamento em fevereiro de 2015 e estar totalmente em operação até 2018, sofreu novo revés com a polêmica em torno das obras de saneamento em Altamira e outros municípios afetados pela construção (Valor, 1/4).
Há atrasos também nas usinas do rio Madeira (RO), Santo Antonio e Jirau, que devem estar com todas as turbinas funcionando no fim de 2015, com atraso de oito meses. Estão atrasadas 22 das 25 hidrelétricas e 22 das 35 termelétricas em construção. Quanto mais tempo adiar a decisão de encorajar a redução do consumo de energia, mais drásticas deverão ser as medidas paliativas necessárias, seja em despesas com o uso das térmicas ou até em abrangência de um eventual racionamento.
O governo brinca com fogo, s o governo vem postergando a medida, provavelmente para se afastar o máximo possível de qualquer comparação com o racionamento feito durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, que tanto combateu quando estava na oposição.

Valor Econômico, 02/04/2014, Opinião, p. A12

http://www.valor.com.br/opiniao/3502934/racionalizar-uso-da-energia-ent…

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