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Racionalização no consumo de água

GM, Opinião, p. A3
22 de Abr de 2004

Racionalização no consumo de água

Para economizar são necessários programas consistentes e duradouros. Em março último, quando se comemorou o Dia Internacional da Água aconteceu em São Paulo um seminário que abordou o tema racionalização do consumo de água com a troca de bacias sanitárias. No evento, o especialista americano William Hoffman apresentou os resultados de programas adotados em Austin, no Texas, e em Nova York, entre outras cidades. Essas cidades implantaram, desde o início dos anos 1990, programas visando incentivar a redução e a racionalização do consumo de água potável, que alcançaram importantes percentuais: entre 40% e 60% de economia.
No seminário, o engenheiro Paulo Massato, diretor de operações da Sabesp, disse, com louvável franqueza, que a empresa "não avança mais em programas de incentivo à redução do consumo de água porque o negócio da Sabesp, em síntese, é a venda da água".
Os programas americanos eram de concepção global, com implantação por etapas. Na primeira delas foram criados programas de adesão voluntária de redução do consumo. Na seqüência, ofereciam-se estímulos pecuniários aos cidadãos para trocar, por exemplo, bacias sanitárias desperdiçadoras por outras, mais econômicas. Finalmente, a legislação impunha a adesão ao programa, com multas para quem não aderisse.
Aqui, além de campanhas esporádicas e iniciativas isoladas em prédios públicos, nada foi feito de mais consistente para racionalizar o consumo de água, que poderia evitar enormes gastos com a busca de água a grande distância da capital - estima-se em até 300 km a distância para buscar novos reservatórios com custos proibitivos.
Um programa que vise ao uso racional da água é certamente mais duradouro do que campanhas publicitárias ou programas eventuais, que "vão embora com a primeira chuva de verão". Ao estimular a troca de bacias sanitárias antigas, muito desperdiçadoras - consomem entre 12 litros e 18 litros por acionamento - pelas economizadoras, que gastam 6 litros por acionamento, ao lado de troca de torneiras comuns por outras equipadas com arejadores de vazão constante e os limitadores de vazão em chuveiros, os resultados são melhores e permanentes.
Nova York conseguiu, entre 1994 e 1996, instalar mais de um milhão de bacias sanitárias economizadoras, com um programa que atingiu todas as camadas da população. A Prefeitura de Nova York reembolsava as despesas dos moradores e empresários com a troca de bacias. Participaram donos ou locadores de imóveis residenciais, edifícios comerciais e hotéis.A cidade compensou as despesas da troca de bacias com US$ 240 para a primeira bacia trocada e US$ 150 para a segunda. O sucesso da iniciativa permitiu poupar 60 milhões de galões/dia, o equivalente a 216 milhões de litros de água. Segundo Hoffman, o investimento se paga em cerca de quatro meses.
É importante lembrar que apenas a troca de bacias e torneiras pode não resolver o problema. O ideal é que essa troca seja feita por especialistas para evitar que, por falta de regulagem adequada, as pessoas acabem gastando mais água do que antes, por "acharem" que a quantidade de água liberada por bacias e torneiras não é suficiente para a higienização.
Há no Brasil tecnologia para essa regulagem - a indústria de produtos cerâmicos e de metais sanitários já desenvolveu linhas e tecnologias economizadoras. Falta apenas a firme intenção do governo estadual na implementação de programas desse tipo, que supere os eventuais interesses comerciais de concessionárias e preserve um bem natural que será cada vez mais escasso neste século 21.

GM, 22/04/2004, Opinião, p. A3

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