O Globo, Economia, p.29
04 de Jun de 2004
R$ 60 BI PARA EMPURRAR O PAÍS
BNDES anuncia orçamento 28,5% maior e plano intervencionista para Brasil crescer 7%
Com um orçamento previsto de R$ 60,8 bilhões para o próximo ano que pode transformá-lo na maior instituição de fomento do mundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltará a adotar um modelo mais intervencionista na economia, aplicando um planejamento de longo prazo inspirado na década de 70, de acordo com o vice-presidente, Darc Costa. O objetivo, segundo ele, é fortalecer as empresas nacionais e levar o país a uma taxa de crescimento de 7% ao ano, avanço que não é registrado há mais de duas décadas. O banco anunciou ontem que vai mapear setores-chave da economia e, a partir de 2005, oferecer às empresas projetos específicos para cada segmento, deixando de lado a postura passiva adotada nos anos 90, segundo o vice-presidente. O novo orçamento é 28,5% superior ao de 2004.
O BNDES tem de intervir, planejar e estruturar a economia brasileira. Ajudar para que isso ocorra. Antes ficávamos dependentes de uma postura muito passiva, à espera do mercado. Para fortalecer o empresariado nacional, devemos ajudar a mostrar quais são os caminhos para que os investimentos sejam feitos. Podemos compor fontes de recursos com empresas privadas em projetos que são importantes para a economia brasileira afirmou Darc Costa.
Câmaras setoriais: base de plano trienal
Depois de uma série de reuniões realizadas nos últimos meses, a diretoria do BNDES decidiu criar sete Câmaras Técnicas Setoriais, entre elas de infra-estrutura e de comércio exterior. No fim deste ano, as câmaras vão apresentar ao Conselho de Administração da instituição um levantamento sobre os principais setores da economia brasileira, como siderurgia, energia elétrica e agroindústria. Esse levantamento, por sua vez, será baseado nas informações de 585 funcionários do banco, a maior parte técnicos, que participarão de 43 grupos de trabalho. A partir desse estudo, será elaborado um Plano de Ação para 2005 e o Plano Trienal 2005-2007.
Voltamos à idéia de que planejar o longo prazo é algo importante para países que não estão no centro afirmou Darc Costa. Não tínhamos um planejamento. Perdemos a idéia de planejar desta forma desde a década de 70, mas voltamos a recuperar isso. O banco trabalhava com cenários, mas agora vai trabalhar com metas.
Segundo Darc Costa, as metas setoriais serão criadas de acordo com a média de crescimento da economia. No caso do setor siderúrgico, o vice-presidente citou o exemplo de um estudo desenvolvido pelo banco a pedido da Vale do Rio Doce, que mostra ser possível o país produzir 60 milhões de toneladas de aço, contra 34 milhões atuais. A partir dos estudos das câmaras, será definido o modelo de atuação do BNDES nos setores, que será por meio de empréstimo ou aporte de capital.
O novo plano estratégico do BNDES pode incluir, ainda, uma alteração das atuais políticas operacionais. Segundo Darc Costa, não está descartada a redução do custo dos empréstimos para aqueles setores que necessitarem de condições mais favoráveis para crescer. Projetos em determinadas regiões do país também poderão ser beneficiados. De acordo com Darc Costa, a instituição também está brigando por uma redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP, hoje em 9,75% ao ano) para incentivar o mercado.
Nossa iniciativa está inserida na do governo, que pode ser comparada ao Plano Nacional de Desenvolvimento (PND, política intervencionista adotada no governo Geisel, nos anos 70). Vamos fornecer os subsídios para que isso aconteça explicou Darc Costa.
O planejamento, segundo o executivo, será flexível e conduzido em parceria com o setor privado. Na elaboração das metas serão levados em consideração estudos produzidos pelas próprias empresas, segundo Darc Costa.
Sobre o orçamento previsto de R$ 60 bilhões para 2005, o vice-presidente afirmou que cerca de 70% do total virão dos recursos do FAT e do retorno dos empréstimos. O restante o banco deve captar no mercados interno e externo ou virá por meio de operações com organismos multilaterais.
ECONOMISTAS APÓIAM MAS COBRAM TRANSPARÊNCIA DO BANCO
Belluzo defende papel do Estado e cita Ásia. Já o Iedi diz que BNDES deve ser indutor e não interventor
SÃO PAULO. O novo modelo de gestão anunciado ontem pelo BNDES foi bem recebido por economistas, mas fez os empresários temerem uma posição mais intervencionista do banco. Para o economista Fernando Camargo, da consultoria LCA, faz sentido total o BNDES estabelecer que setores terão prioridade na distribuição dos recursos, em complementariedade com os projetos já definidos pelo Ministério do Desenvolvimento (ao qual a instituição está subordinada).
Cabe ao Estado eleger os setores que terão prioridade? Acho que sim. É a única forma de se trabalhar afirmou o economista.
Camargo, que participou ao lado do economista Luciano Coutinho de um estudo sobre as condições de competitividade dos principais setores da economia brasileira, acrescenta que para evitar conflitos com o setor privado o BNDES deve adotar critérios muito claros:
A questão é transparência, até para que se cubra o cumprimento de metas.
O economista Luiz Gonzaga Belluzo, da Unicamp, classificou a decisão do BNDES como um passo importante para se reconstituir no país a capacidade de coordenação entre os investimentos dos setores público e privado. Belluzo lembrou que esse modelo funcionou bem entre as décadas de 50 e 60, e o fato de ter sido abandonado a partir de meados dos anos 1980 custou ao país 20 anos de estagnação.
Em um país emergente complexo como o Brasil, com a malha industrial grande e desenvolvida, é preciso de um horizonte para o setor privado avançar. E o Estado tem que ter esse papel de coordenação de projetos, que gerem núcleos de inovação e multipliquem as relações entre diferentes setores da economia disse Belluzo, acrescentando que essa coordenação estatal tem sido muito bem sucedida em países asiáticos como o Japão e a Coréia do Sul.
Diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio de Almeida diz que o BNDES não pode confundir a adoção de um papel indutor de investimentos com o de senhor ou interventor:
Não cabe mais ao Estado ser o grande motor da economia. Até porque ele não tem mais as empresas estatais que seriam condutoras desse processo.
Almeida elogiou a iniciativa de aprimorar o funcionamento interno do BNDES, mas teme que isso leve a instituição a recusar projetos que não sejam das áreas listadas como prioridade para o governo.
O lado do BNDES de banco-balcão, que recebe qualquer tipo de projeto, não ser abandonado.
IPEA: MAIS INFLAÇÃO E CRESCIMENTO
Instituto prevê IPCA de 6,5% e avanço do PIB perto de 4% este ano
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reviu suas previsões para o crescimento da economia do país e a inflação deste ano. Segundo boletim divulgado ontem, devido à instabilidade do mercado internacional a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu para 6,5% acima da meta de 5,5% fixada pelo governo. No último boletim, publicado em março, a expectativa era de 5,7%. Já para o Produto Interno Bruto (PIB), o Ipea projetou expansão de 3,5%, com ligeira alta em relação à estimativa anterior, de 3,4%. O diretor de Estudos Macroeconômicos do instituto, Paulo Levy, disse que a previsão é conservadora e pode ser novamente revista nos próximos meses:
Com o desempenho melhor do PIB no primeiro trimestre, a projeção poderia ser ainda maior, mas vieram as incertezas no cenário internacional e seguraram as expectativas comentou o economista. O crescimento pode chegar perto de 4% acrescentou.
Previsão para juros sobe a 15,5%
Para Levy, a economia está dando sinais claros de recuperação. O Ipea elevou a projeção de crescimento da indústria este ano: de 3,9%, no boletim anterior, para 4,4%. Já a previsão para o saldo da balança comercial subiu de US$ 23,1 bilhões para US$ 27,1 bilhões e a de aumento no consumo das famílias, de 3,4% para 3,6% no ano. O diretor afirmou que a decisão do Banco Central de segurar a taxa básica da economia (Selic) em 16% ao ano não abortou a trajetória de crescimento. O instituto elevou, no entanto, a projeção para os juros e projetou uma Selic de 15,5% ao ano no último trimestre de 2004, enquanto a previsão anterior era de 14,4%.
Para Levy, a expectativa agora é em relação à reunião deste mês do banco central dos Estados Unidos, que pode elevar os juros, e aos preços do petróleo. O economista explicou que a previsão de 6,5% para o IPCA levou em conta uma alta de 10% no preço da gasolina este ano.
A alteração nos juros dos Estados Unidos pode causar mudança nos investimentos externos, enquanto a alta do preço do petróleo segura o crescimento econômico mundial, gera instabilidade financeira e deteriora o cenário internacional avaliou.
O fio da Meada
Criado em junho de 1952, pela Lei 1.628, após quase dez anos de debates sobre os problemas e as perspectivas da economia brasileira o BNDES nasceu BNDE só
Incorporou o S de social à sigla três décadas depois em pouco mais de meio século de atuação o banco tornou-se a principal agência de Desenvolvimento do país, fazendo jus
Aos objetivos de sua constituição expandir o setor de infra-estrutura, sobretudo os serviços e transporte e energia elétrica, cuja demanda crescera com o desenvolvimento industrial desde os anos 40.
Do primeiro financiamento para a modernização da Estrada de Ferro Central do Brasil, nas linhas entre Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte à participação ativa no Programa Nacional de Desestatização, com destaque para o leilão da Telebrás, no fim da década de 1990, o banco investiu no apoio a setores da economia, como siderurgia e bens de consumo e teve papel importante no projeto de substituição de importações.
O Globo, 04/06/2004, p. 29
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