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Questão indígena: historiador da USP comenta sobre demarcações

Dourados News - http://www.douradosnews.com.br/leitura.php?id=9132
22 de Abr de 2009

O historiador Carlos Guilherme Mota, autor de dezenas de livros, ensaios e artigos, nos quais revisa e interpreta a história do Brasil e apresenta a nova perspectiva do país como nação foi o entrevistado de segunda-feira (20) do programa Roda Viva da TV Brasil e falou entre outros temas sobre a representação do índio na cultura nacional.

Perguntado sobre as demarcações de áreas reeinvindicadas por populações indígenas de todo o país, Mota, deu seu parecer sobre o assunto e começou citando uma conversa que teve na juventude com o historiador Caio Prado Júnior, um dos mais respeitados historiadores nacionais. "Certa vez perguntei para ele o que ele achava da história do Brasil e ele me respondeu: 'O Brasil é um país muito atrasado'. Perguntei de novo e ele me disse mais uma vez: 'O Brasil é um país muito atrasado'. O que ele queria dizer é que a colonização do Brasil sempre foi um grande negócio", comenta o historiador.

Ele continuou suas palavras com algumas reflexões que teve depois disso. "Eu fiquei pensando na colonização de povoamento versus esta colonização de exploração. Fiquei pensando na montagem desse sistema imperial em que apesar de José Bonifácio ter levantado todos os problemas no ante-projeto da constituinte de 1823, apesar de estar lá toda a programação que vem ainda que vem de Pombal, toda uma visão pombalina, ilustrada, integradora também, que o Cândido Rondon vai aplicar em 1910 no Serviço de Proteção ao Índio, apesar de tudo isso, das lutas de Darcy Ribeiro, dos Irmãos Villas Boas, de tanta gente, não chegamos à um equacionamento da questão, do problema 'entre aspas' do índio. O problema do índio a nós sabemos, são os 'brancos'. É gente 'branca' e má que fala o professor de São Paulo, Lembo [Cláudio], naquele depoimento à jornalista Mônica Bérgamo na Folha", disse o professor.

"Mas há o risco do Brasil perder um pedaço do seu território?", questionou o coordenador do programa, jornalista Heródoto Barbeiro.

O professor respondeu de imediato. "Nenhum! Que é isso? E essa coisa de dizer que as ONG's estão sendo infiltrações, acho que deve ser em grande parte uma forma de (propaganda)...Por que claro que deve haver ONG's, como há ONG's dentro do Estado, dentro do Exército, dentro das universidades... seguras que estão ali movimentando alguma coisa".

"Mas isso não é exemplo de uma ação do agronegócio brasileiro?", perguntou mais uma vez Heródoto.

"Veja bem, na questão do agronegócio, nós temos que pensar que a empresa capitalista não pode ser do capitalismo selvagem. Não pode ser do capitalismo senzaleiro. Não pode ser assim da expropriação de terras sem maiores discussões e aí os poderes da República deveriam funcionar melhor. Onde estão os deputados? Eu digo não um ou dois, mas um bloco que atue, um legislativo que atue, um senado que atue para valer", dizia o historiador, até que Heródoto o interrompeu mais uma vez.

"Mas aí tem a bancada ruralista que é à favor [da não demarcação]", inquiriu o jornalista.

"A bancada ruralista tem muitos interesses à defender. Evidentemente a consciência de classe existe. É uma coisa que não foi inventada no Brasil. É a consciência de classe. Se uma fração da burguesia ilustrada, da burguesia estudiosa, que tem seus filhos antropólogos não consegue diagnosticar com correção o problema, nós ficamos a mercê das bancadas ruralistas", completou Mota.

O entrevistado
Carlos Guilherme Mota é formado em história pela Universidade de São Paulo - USP, onde seguiu carreira acadêmica até se tornar professor titular de história contemporânea. Carlos Guilherme Mota também dá aulas de história da cultura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie.

Participaram da entrevista : Oscar Pilagallo, jornalista e autor do livro "A Aventura do Dinheiro" e da série "A História do Brasil no Século XX", da Publifolha; Claudio Lembo, advogado, ex-governador de São Paulo e secretário de negócios jurídicos da Prefeitura de São Paulo; Robinson Borges, editor do caderno de cultura do jornal Valor Econômico e Mônica Manir, editora do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo.

Para ver os melhores momentos do programa, clique aqui.

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