Veja, Rio+20, p. 108-152
20 de Jun de 2012
Quem vai pagar a conta?
As autoridades na Conferencia sobre Desenvolvimento Sustentável talvez não consigam decidir em uma semana quem financiará uma economia mais limpa - mas a boa-nova é que a pressão da sociedade pelo consumo responsável é um caminho sem volta
Gabriele Jimenez e Juliana Arini
Bandeiras internacionais hasteadas, tendas armadas em parques públicos, exposições por toda a cidade, comitivas estrangeiras emperrando o trânsito - assim é, neste momento, o Rio de Janeiro, engalanado e congestionado pelo início da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.
Os números são portentosos: 50000 visitantes, delegações de 190 países, ONGs de todo tipo e indígenas do Brasil e de fora que fazem a festa de fotógrafos em busca de imagens exóticas. Eles estão na cidade para discutir como conciliar desenvolvimento, qualidade de vida e preservação do ambiente. Na sexta-feira 15, grupos de diplomatas, cada qual com seus adendos e suas propostas debaixo do braço, entravam e saíam de salas fechadas no Riocentro. a sede da conferência na Barra da Tijuca, tentando enxugar caudalosas 81 páginas e dar um semblante de acordo ao documento final que a reunião de chefes de estado e de governo, entre os próximos dias 20 e 22, deve ratificar. As chances de acordo sobre medidas concretas são remotíssimas. O mais provável é que concordem em continuar discutindo - o que, num palco de tantas e tamanhas divergências (veja o quadro na pág. 110), já c muito bom.
Resumidamente, a Rio+20, como todas as reuniões de peso sobre meio ambiente antes dela (a Eco 92, por exemplo), contra põe dois blocos - países ricos de um lado, emergentes e pobres do outro - com visões opostas sobre as duas questões básicas do desenvolvimento sustentável: 1) como adaptar o modelo econômico para acomodar os princípios da sustentabilidade; e mais sensível ainda, 2) quem vai pagar a bilionária conta da mudança. O embaixador-chefe do Brasil nas negociações, Luiz Alberto Figueiredo, lançou oficialmente a proposta do G77, o grupo dos pobres e emergentes, de criar um fundo de 30 bilhões de dólares por ano, a partir de 2013, financiado pelos países desenvolvidos (porque foram eles os grandes poluidores do planeta). É mais contundente que a vaguíssima recomendação de investir 100 bilhões de dólares por ano, vindos não se sabe bem de onde, citada para se "ter em mente" no documento final da conferência de Copenhague, em 2009.
Nesse debate. surge a ideia da "economia verde". um conceito difícil de engolir tanto para os mais radicais defensores da economia quanto para os ideólogos do verde. Para as empresas, a obrigação de considerar, além da saúde financeira, seu impacto social e ambiental é uma camisa de força que pode enfraquecê las embora elas saibam ser esse um caminho inescapável. Para os ambientalistas, submeter a sustentabilidade à necessidade de lucro das empresas é mercantilizar uma questão de sobrevivência do planeta. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), economia verde é aquela que "resulta na melhoria do bem estar da humanidade e na igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ao meio ambiente".
O programa aponta dez temas chave a ser enfrentados para que se faça a transição para o desenvolvimento sustentável. Calcula se que essa transição custaria. anualmente. 2% de toda a riqueza produzida no mundo. E não bastaria. "E preciso elevar a produtividade a novos patamares. de modo a gerar mais riqueza depredando menos o ambiente", diz o economista americano e prêmio Nobel Thomas Heller. "Só assim é possível olhar para a economia e o verde simultaneamente." Três propostas encaminhadas nas reuniões preparatórias que ocorreram ao longo dos últimos dois anos na sede da ONU, em Nova York. podem ser a tábua de salvação para que a Rio+20 não naufrague em discursos vazios. São sugestões novas, com alguma chance de, mais para a frente, se viabilizarem. Uma é a criação das Metas do Desenvolvimento Sustentável (MDS). um conjunto de objetivos e prazos para a transição rumo à economia verde. Outra, a consolidação de uma nova metodologia o indicador de riqueza inclusiva (IRI). que considera dados como investimento em educação e bem estar e o nível de sustentabilidade na produção para medir o progresso, em substituição ao produto interno bruto (PIB). A terceira proposta é criar um órgão regulador mais forte, uma agência desvinculada da ONU. O Brasil defende o fortalecimento da própria ONU, e não a criação de uma instância alternativa. "Quando falamos em destruição do planeta, usamos o termo errado. O planeta encontrará meios de se recuperar, a longo prazo, como sempre fez. O problema está no futuro que nós, humanos, teremos se não agirmos logo", diz o economista Sérgio Besserman, chefe da comissão carioca na RIo+20. Felizmente para a saúde planetária, outros protagonistas vêm fazendo o dever de casa. No mundo todo. empresas se preocupam em entregar produtos menos agressivos ao ambiente. forçadas por consumidores conscientes e exigentes. Temas do cotidiano que tinham sido subtraídos das grandes plenárias como a imundície dos rios que atravessam as metrópoles, a sujeira nos oceanos, a pesca predatória e o descalabro com o lixo urbano não sumiram de vez das discussões porque a sociedade se movimenta. Exige cada vez mais e, por exigir. atrai também o poder público. O despertar desse ciclo virtuoso talvez tenha sido o grande mérito da Eco 92. que de concreto. num plano mais global, apenas ratificou o acordo de redução dos gases que provocavam o problema do buraco na camada de ozônio, hoje definitivamente resolvido. Agora, da Rio+20, com os grupos políticos antagónicos muito bem definidos, dificilmente despontarão grandes avanços. Mas de discussão em discussão, de esclarecimento em esclarecimento, de pressão em pressão. a sustentabilidade caminha para se impor, indelevelmente, nas decisões sobre o futuro do planeta. Há limite para a miopia nessa área. Temos de debater como gente grande. Precisamos acabar com o achismo ambiental", alertava na semana passada a ministra do Meio Ambiente. Izabella Teixeira, em seminário no Rio. É justamente para combater o achismo que VEJA publica a série de reportagens e artigos das próximas páginas.
Veja, 20/06/2012, Rio+20, p. 108-152
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