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Quem sofrerá mais com a mudança climática

Valor Econômico, Opinião, p. A13
Autor: GATES, Bill
03 de Set de 2015

Quem sofrerá mais com a mudança climática
Mesmo se o mundo descobrir uma fonte barata e limpa de energia na semana que vem, levará tempo para que ele abandone seus hábitos movidos a combustível fóssil. É por isso que é decisivo que o mundo invista em esforços que ajudem os mais pobres a se adaptar

Alguns anos atrás, Melinda e eu visitamos um grupo de lavradores de arroz em Bihar, índia, uma das regiões de maior incidência de enchentes do país. Todos eles eram extremamente pobres e dependiam do arroz que cultivavam para alimentar e sustentar suas famílias. Quando as chuvas de monção chegavam, a cada ano, os rios se avolumavam, ameaçando inundar suas propriedades e destruir suas safras. Apesar disso, estavam dispostos a apostar tudo na possibilidade de suas propriedades serem poupadas. Era uma aposta que, muitas vezes, perdiam.
Quando perdiam suas lavouras, fugiam para as cidades em busca de biscates para alimentar suas famílias. No ano seguinte, no entanto, voltavam a suas terras - frequentemente ainda mais pobres do que quando as deixaram prontos para plantar novamente.
Nossa visita foi um poderoso lembrete de que, para os agricultores mais pobres do mundo, a vida é um número de equilibrismo na corda bamba - sem rede de segurança. Eles não têm acesso a sementes melhoradas, fertilizantes, sistemas de irrigação e outras tecnologias úteis como os agricultores de países ricos têm - e nenhum seguro sobre a colheita, para se protegerem contra perdas. Um só golpe de azar - uma seca, uma enchente ou uma doença - é o suficiente para que eles mergulhem mais profundamente na pobreza e na fome.
Atualmente, a mudança climática deverá acrescentar uma nova camada de risco a suas vidas. O aumento das temperaturas das próximas décadas trará grandes turbulências à agricultura, especialmente nas zonas tropicais. As plantações não vão crescer devido à escassez de chuvas ou ao excesso de chuvas. As pragas vão se desenvolver em meio ao clima mais quente e destruir as lavouras.
Os agricultores de países mais ricos também experimentarão mudanças. Mas eles possuem os instrumentos e o respaldo para administrar esses riscos. Os agricultores mais pobres do mundo saem a cada dia para o trabalho, na sua maior parte, de mãos vazias. É por isso que, dentre todas as pessoas que sofrerão com a mudança climática, são eles os que tenderão a sofrer mais.
Os agricultores pobres vão sentir o impacto dessas mudanças numa época em que o mundo precisará de sua ajuda para alimentar uma população crescente. Até 2050, prevê-se que a demanda mundial por alimentos aumente 60%. A queda das safras levará ao limite o sistema mundial de alimentos, aumentando a fome e corroendo o incrível progresso no combate à pobreza alcançado pelo mundo durante o último meio século.
Estou otimista de que possamos evitar os piores impactos da mudança climática e de que possamos, ao mesmo tempo, alimentar o mundo - se agirmos agora. Há uma necessidade urgente de que os governos invistam em inovações recentes na área de energia limpa que reduzam drasticamente as emissões de gases-estufa e detenham o aumento das temperaturas.
Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que já é tarde demais para conter todos os impactos da elevação das temperaturas. Mesmo se o mundo descobrir uma fonte barata e limpa de energia na semana que vem, levará tempo para que ele abandone seus hábitos movidos a combustível fóssil e migre para um futuro livre de carbono.
É por isso que é decisivo que o mundo invista em esforços que ajudem os mais pobres a se adaptar.
Muitos dos instrumentos de que precisarão são bastante básicos - coisas que eles precisam, de qualquer maneira, para cultivar mais alimentos e auferir mais renda: acesso ao financiamento, a melhores sementes, fertilizantes, treinamento e mercados onde possam vender o que cultivam.
Outros instrumentos são novos e criados de acordo com as exigências de um clima em mutação. A Fundação Gates e seus parceiros trabalharam juntos no desenvolvimento de novas variedades de sementes de plantas que crescem mesmo durante tempos de seca ou de inundação. Os rizicultores que conheci em Bihar, por exemplo, plantam atualmente uma nova variedade de arroz tolerante às enchentes - apelidada de arroz "scuba" capaz de sobreviver duas semanas embaixo d'água. Eles já estão preparados para a possibilidade de que mudanças do padrão climático submetam sua região a mais inundações.
Estão sendo desenvolvidas outras variedades de arroz capazes de resistir à seca, ao calor, ao frio e a problemas de solo, como a alta contaminação por sal.
Todos esses esforços têm o poder de transformar vidas. É muito comum ver esses agricultores dobrarem ou triplicarem sua colheita e sua renda ao terem acesso aos avanços que os produtores rurais do mundo desenvolvido consideram uma coisa natural. Essa nova prosperidade lhes permite melhorar suas dietas, investir em suas terras e enviar seus filhos à escola. Ela também afasta a vida deles do fio da navalha, dando-lhes uma sensação de segurança mesmo quando têm uma má colheita.
Haverá também ameaças derivadas da mudança climática que não podemos prever. Para estar preparado, o mundo precisa acelerar a pesquisa de sementes e de instrumentos de apoio aos pequenos agricultores. Uma das inovações mais empolgantes para ajudar produtores rurais é a tecnologia de utilização de satélite. Na África, os pesquisadores estão usando imagens de satélite para criar mapas de solo detalhados, capazes de informar os agricultores sobre as variedades que vão vingar em suas terras.
Mesmo assim, uma semente melhor ou uma nova tecnologia não consegue transformar a vida das famílias camponesas enquanto não estiver em suas mãos. Uma série de organizações, como o grupo sem fins lucrativos chamado OneAcreFund, está encontrando maneiras de garantir que os agricultores se beneficiem dessas soluções.
A OneAcreFund opera em estreita colaboração com mais de 200 mil camponeses africanos, fornecendo acesso a financiamento, ferramentas e treinamento. Até 2020 a instituição pretende alcançar 1 milhão de produtores rurais.
Na "Carta Anual" deste ano, Mélinda e eu fizemos a aposta de que a África conseguirá se alimentar sozinha nos próximos 15 anos. Mesmo com os riscos da mudança climática, essa é uma aposta que eu sustento.
Sim, a vida dos camponeses pobres é dura. É um quebra-cabeças com tantas peças para encaixar - desde plantar as sementes certas e usar o fertilizante correto até conseguir treinamento e ter um lugar para vender sua produção. Se apenas uma peça dessas estiver fora de lugar, a vida deles pode desmoronar.
Sei que o mundo tem o necessário para ajudar a pôr essas peças no lugar tanto no que se refere aos desafios que esses agricultores enfrentam hoje quanto aos que enfrentarão amanhã. E, o que é mais importante, sei que eles também têm. (Tradução de Rachel WarszawskL)

Bill Gates é copresidente do conselho de administração da Fundação Bill & Melinda Gates

Valor Econômico, 03/09/2015, Opinião, p. A13

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