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Quem sofre mais com a morte de cobaias

OESP, Vida, p. A16
Autor: REINACH, Fernando
12 de Jul de 2006

Quem sofre mais com a morte de cobaias

Fernando Reinach

A maioria das pessoas tem dó dos ratos que são sacrificados pelos cientistas. Só na Inglaterra são 2,4 milhões por ano. Recentemente, no Rio, se discutiu a proibição do uso de ratos em experimentos. É irônica essa atitude vinda do ser humano, um animal que se alimenta exclusivamente de outros seres vivos. Cada bocada de alimento ingerido por nós corresponde à morte de um ser vivo, seja ele um alface, um peixe ou outro mamífero. Com o advento da indústria alimentícia deixamos de conviver com a morte; quantos de nós já vimos um boi sendo morto ou já tivemos de sacrificar um frango? Mas a realidade é que nos preocupamos com a morte dos ratos de laboratório e por isso a maneira como os animais são sacrificados tem sido regulamentada em diversos países. O objetivo dessa regulamentação tem sido propiciar aos roedores um tratamento "humano".

Recentemente, um grupo de cientistas se reuniu para avaliar se o método que vem sendo utilizado realmente poupa os animais do sofrimento. A conclusão é que o método causa pouco sofrimento psicológico nas pessoas que sacrificam os animais, mas não obrigatoriamente evita o sofrimento dos roedores.

O método atualmente recomendado consiste em colocar os ratos em um recipiente e aos poucos misturar gás carbônico no ar que eles respiram. Eles calmamente se deitam e, sob efeito soporífero do gás, perdem a consciência e morrem enquanto dormem. Para quem observa, a morte parece pacífica. Em fevereiro deste ano, 34 cientistas se reuniram em uma cidade da Inglaterra para rever tudo o que se conhece sobre esse método e, se necessário, recomendar alterações.

Os resultados foram surpreendentes. Foi demonstrado que os ratos percebem quando a concentração de gás carbônico aumenta e sofrem stress antes de sucumbir ao seu efeito anestésico. Por outro lado, foi descoberto que, quando os animais são colocados diretamente em um ambiente com alta concentração do gás, eles dormem rapidamente e o stress é reduzido, mas o aumento rápido da concentração do gás no organismo pode provocar dores. Depois de muita discussão se chegou à conclusão de que os métodos que provavelmente causam menos sofrimento são a degola em uma guilhotina ou um procedimento no qual o pesquisador desloca o pescoço do animal. Em ambos os casos os animais morrem com um mínimo de sofrimento. O problema é que esses métodos causam sofrimento psicológico nas pessoas que executam os animais, o que traz à baila o valor relativo do sofrimento humano frente ao sofrimento do animal. Uma alternativa seria utilizar primeiro um gás anestésico, semelhante ao usado em hospitais, e depois o gás carbônico. Porém esse método pode pôr em risco a vida das pessoas que sacrificam os animais.

A questão é complexa, muitas vezes o que é ideal para os ratos faz sofrer seus executores. Mas em um ponto todos os presentes concordaram: a maneira como os ratos são mortos nos laboratórios causa menos sofrimento que os métodos usados nas residências. Nas ratoeiras, os animais podem se debater por horas antes de morrer; nas armadilhas feitas com papéis adesivos os ratos ficam presos horas até que sejam encontrados e executados e os venenos utilizados pelas prefeituras causam uma morte lenta e sofrida.

Mais informações em An easy way out?, na Nature, volume 441, página 570, de 2006.

Fernando Reinach
fernando@reinach.com, biólogo

OESP, 12/07/2006, Vida, p. A16

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