Veja, Cultura, p. 130-132
06 de Out de 2004
Quem precisa de heróis?
Chico Mendes agora faz parte do panteão nacional. Mas, afinal, o que quer dizer isso?
João Gabriel de Lima
O líder sindical Chico Mendes foi alçado ao panteão dos heróis nacionais. A notícia deixou o país surpreso. Não tanto pela glorificação do ecologista, mas pelo fato de existir um Panteão da Pátria, desconhecido da maior parte dos brasileiros. A idéia data de 1985 e seu autor é José Aparecido de Oliveira, então governador do Distrito Federal. Quatro anos depois, o presidente José Sarney oficializou o panteão. O projeto inicial previa a criação de um livro de aço, estampando na folha de rosto a frase "Aos heróis do Brasil, a pátria reconhecida". Nele seriam gravados os nomes dos grandes vultos brasileiros. A inspiração original é o panteão de Paris, criado em 1791, dois anos depois da Revolução Francesa - e que ostenta em seu frontão a inscrição que inspirou Sarney: "Aos grandes homens, a pátria reconhecida". A semelhança termina por aí. O panteão de Paris é o túmulo de filósofos como Voltaire, escritores como Émile Zola e André Malraux e cientistas como Marie e Pierre Curie. Até hoje é um dos monumentos mais visitados da capital francesa. Já o edifício em forma de pomba projetado por Oscar Niemeyer, construído para servir de sede ao panteão, foi durante muito tempo um mero adereço na Praça dos Três Poderes. A entronização de Chico Mendes serviu para lembrar aos brasileiros que ele existe. Acendeu também uma polêmica: afinal, o que faz de alguém um herói nacional?
"Corremos o risco de ter um panteão de Brancaleone, que funcione da mesma forma que uma câmara de vereadores quando distribui chaves da cidade", diz Jarbas Marques, diretor do Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal e responsável pelo panteão. Jarbas critica o fato de não existirem pré-requisitos claros para definir um herói nacional. De 1989 até hoje o Congresso vem se eximindo de sua atribuição de criar critérios. Assim, o panteão funciona mais ou menos como um clube, no qual os novos sócios entram por indicação e ali permanecem se não receberem bola preta. Atualmente, qualquer parlamentar ou integrante do Executivo pode apresentar um novo herói para o panteão. Aprovado pelo Congresso, ele vai parar no livro de aço. O Brasil tem hoje oito heróis nacionais (veja quadro), e alguns deles chegaram lá ajudados por parlamentares simpáticos a eles. Zumbi dos Palmares foi apadrinhado em 1996 pela então senadora Benedita da Silva. O petista Tião Viana, do Acre, inscreveu no panteão o nome do herói regional, Plácido de Castro, que libertou o Estado do jugo boliviano. Quando era senadora também pelo Acre, a hoje ministra Marina Silva propôs o nome de Chico Mendes - aprovado em 23 de setembro. A palavra "panteão" remete à Roma antiga. Mais especificamente a um templo construído no ano 27 a.C. para cultuar "vários deuses" - é exatamente essa a acepção da palavra em sua origem grega. Quando os revolucionários franceses adotaram o vocábulo para designar o túmulo de seus heróis, não o fizeram por acaso. Ali estariam enterrados os guardiães da nova França, da mesma maneira que os deuses pagãos velavam pela Roma antiga. Desde os tempos de Gilgamesh, herói asiático, os vultos dos países se revestem da aura épica de deuses.
Aferrados ao sentido estrito do termo, os administradores do panteão brasileiro acham que Chico Mendes não estaria à altura da honra que recebeu. "Foi um ato de malícia política, pois o líder sindical, simpático aos caciques do PT, passou na frente de nomes como Marechal Rondon, Oswaldo Cruz e Santos Dumont", critica Jarbas Marques. Ele diz que, se não tivesse sido aprovado a toque de caixa, o nome do seringueiro se tornaria inviável em pouco tempo. Tramita no Congresso um projeto de lei de autoria da deputada Raquel Teixeira que finalmente estabelece critérios para a sagração de um herói nacional. Um pré-requisito básico do projeto, relatado pelo deputado Severiano Alves, é a observância de pelo menos cinqüenta anos entre a morte do herói e sua inscrição no livro de aço. Isso evitaria uma inflação de vultos históricos oportunistas, entronizados no calor da comoção pela morte recente. Por esse critério, Chico Mendes estaria fora. Atualmente há dezoito heróis na fila. O único a receber parecer desfavorável até agora foi Villa-Lobos. Nada particular contra o músico, de acordo com o relator de seu processo de sagração, o deputado federal Paulo Lima. Segundo o parecer de Lima, o problema está na própria idéia de criar heróis, numa época em que muitos historiadores dão a eles importância secundária, entendendo a marcha da história como um processo de "construção coletiva".
Essa tese de cunho marxista está em decadência. Hoje se sabe que, ao contrário do que sugeria o dramaturgo alemão Bertolt Brecht ("Infeliz o país que precisa de heróis"), os indivíduos fazem, sim, diferença dentro da história. Sabe-se também que os heróis têm seu espaço na cultura de um país, como inspiradores. Os Estados Unidos não seriam os mesmos sem as idéias libertárias de Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Criar uma lista de heróis mediante leis não é, no entanto, a forma mais usual de homenageá-los. "Nem a França, que inventou o panteão, criou tal burocracia", diz o historiador Evaldo Cabral de Mello. "Quem decide quem são os heróis são os que escrevem a história, e estes não se preocupam em fazer listas, como um colunista social que escolhe os dez mais elegantes." Na maior parte dos países, o julgamento do tempo premia de forma diferenciada os que mais se destacam. Na França, Napoleão Bonaparte mereceu um mausoléu majestoso. Nos Estados Unidos, grandes presidentes como Abraham Lincoln fazem jus a memoriais.
Criar heróis sempre foi uma obsessão brasileira. Na historiografia do século XIX havia uma resistência ao nome de dom Pedro I por este não ser brasileiro nativo, motivo pelo qual se emulou a figura de Tiradentes. Na ausência de heróis de guerra, o Duque de Caxias ganhou seu espaço, embora tenha sido apenas um soldado competente. Provavelmente o precursor do hábito de listar heróis nacionais é o conde Affonso Celso, autor, em 1900, do livro Por que Me Ufano de Meu País. Como os deputados de Brasília, o conde não tinha pré-requisitos claros. Encabeçou seu rol com o imperador dom Pedro II, provocação monarquista em tempos republicanos. O afã de criar heróis sem critérios definidos mostra que o Brasil ainda é tributário de Affonso Celso. Mais do que um ato de patriotismo, a iniciativa pode degringolar no termo popularizado pelo conde: ufanismo puro e simples. Nada mais longe do sentido original de um panteão, criado para cultuar deuses - e que não faria mal nenhum lembrar.
O clube dos oito
O panteão dos heróis nacionais teve apenas dois ocupantes entre 1989 e 1996. Hoje há uma febre de entronização de novos vultos
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792)
Onde nasceu: Minas Gerais
Data da entronização: 11 de dezembro de 1989
Principal feito: foi um dos líderes da Inconfidência Mineira, movimento ocorrido em Vila Rica que visava à independência do país. Morreu enforcado pela coroa portuguesa
Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892)
Onde nasceu: Alagoas
Data da entronização: 11 de dezembro de 1989
Principal feito: liderou o movimento militar que derrubou o Império e se tornou o primeiro presidente republicano do Brasil
Zumbi dos Palmares (1655-1695)
Onde nasceu: Alagoas
Data da entronização: 20 de novembro de 1996
Principal feito: liderou a rebelião dos escra-vos que se entrincheiravam no Quilombo dos Palmares. Discute-se se o nome Zumbi se refere a uma única pessoa ou a várias
Dom Pedro I (1798-1834)
Onde nasceu: Portugal
Data da entronização: 30 de agosto de 1999
Principal feito: proclamou a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1922
José Plácido de Castro (1873-1908)
Onde nasceu: Rio Grande do Sul
Data da entronização: 2 de maio de 2002
Principal feito: liderou a chamada Revolução Acreana, a luta que tornou o Acre independente da Bolívia
Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803-1880)
Onde nasceu: Rio de Janeiro
Data da entronização: 28 de janeiro de 2003
Principal feito: liderou a vitória do Brasil na Guerra do Paraguai. Antes disso, havia sufocado rebeliões como a Balaiada, no Maranhão, e a Revolução Farroupilha, no Sul. É o patrono do Exército brasileiro
Joaquim Marques Lisboa, o Marques de Tamandaré (1807-1897)
Onde nasceu: Rio Grande do Sul
Data da entronização: 5 de dezembro de 2003
Principal feito: exerceu vários cargos na Marinha Brasileira, motivo pelo qual é considerado o patrono dessa força armada. Foi herói na Guerra do Paraguai
Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes (1944-1988)
Onde nasceu: Acre
Data da entronização: 23 de setembro de 2004
Principal feito: militou contra o desmatamento da Floresta Amazônica e denunciou devastações ecológicas a organismos internacionais. Foi assassinado em dezembro de 1988
Veja, 06/10/2004, Cultura, p. 130-132
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