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Queimadas são as vilãs das emissões do Brasil

O Globo, Ciência e Vida, p. 47
09 de dez de 2004

Queimadas são as vilãs das emissões do Brasil

Bernardo de La Pena e Roberta Jansen

As queimadas na Amazônia e em outras florestas brasileiras respondem por 75% do dióxido de carbono (CO2) lançado pelo país na atmosfera, segundo o Inventário Brasileiro de Emissões de Gases de Efeito Estufa divulgado ontem pelo governo. O Brasil responde por 3% das emissões globais - muito pouco se comparado a grandes poluidores como os Estados Unidos (que contribuem com cerca de 40%) - mas o suficiente para posicionar o país entre os dez maiores emissores de gases poluentes do mundo.
Para se ter uma idéia de como o desmatamento pesa nessa equação, a queima de combustíveis fósseis nos meios de transporte e na indústria respondem, respectivamente, por 9% e 7% das emissões anuais de CO2 do país.
- O desmatamento é extremamente significativo e precisa ser reduzido. Não só para diminuir as emissões, mas também para a proteção ambiental. Estamos destruindo recursos naturais e, o que é pior, sem nem ao menos gerar riquezas significativas - afirmou Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos revisores do inventário.
Segundo o documento, pelo menos 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono, 13,2 milhões de toneladas de metano e 550 mil toneladas de óxido nitroso, os principais causadores do efeito estufa, são lançados na atmosfera por ano. Os números se referem ao período que vai de 1990 a 1994.
Na apresentação do relatório, o governo fez questão de frisar as providências que vem tomando para reduzir o impacto das emissões.
- Considerando a série histórica de dados, que mostra a contribuição de cada país para o aumento da temperatura desde o início do processo de industrialização, o Brasil encontra-se em posição ainda bastante confortável em comparação com os outros países: nossa contribuição histórica situa-se na ordem de 1% das emissões mundias - argumentou o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos.
Os países desenvolvidos são os principais responsáveis pelas emissões de gases poluentes. Só os EUA respondem por 42,6% das emissões e o Reino Unido por outros 10,5%. Por conta disso, o Protocolo de Kioto (o acordo internacional para a redução dos gases-estufa) sustenta que só os países desenvolvidos devem estabelecer cotas de redução. O governo brasileiro teme, entretanto, que, com a divulgação do inventário, o país seja pressionado a também adotar metas - hipótese rejeitada pelo ministro e também por especialistas da área.
- O Brasil não deve assumir metas de redução - sustenta o secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa. - Essa pressão é parte do jogo de interesse dos países que não cumprem suas obrigações e estão tentando transferi-las para outras nações.
Pinguelli lembrou que os países desenvolvidos desmataram muito no passado e, ao longo dos anos, emitiram muito mais gases.
- Mas isso não justifica que o país deixe de combater o desmatamento - frisou.
Mais de 40% da energia do país é renovável
Em nota divulgada ontem, o Greenpeace sustenta que os dados confirmam a "inabilidade histórica do governo no combate ao desmatamento".
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse que o governo está empenhado em reduzir o desmatamento na região amazônica e citou dados que mostram a queda do ritmo do desflorestamento. Segundo ela, o aumento do desmatamento - que foi de 28% em 2002 em relação ao ano anterior - ficou em 2% em 2003 e neste ano, e, pelas expectativas do governo, deve ao menos se estabilizar.
A ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef, destacou que hoje 43,8% da matriz energética brasileira é renovável - bem acima da média global, que é de 14%. Ela informou ainda a importância do programa do governo de incentivo a fontes de energias alternativas, do programa do biodiesel e do uso de álcool pela frota nacional.
- Com uma população tão grande e um consumo de energia tão alto, o país emitiria muito mais que o dobro se não tivesse uma matriz energética limpa (90% da geração de energia é feita por hidrelétricas) - explicou Carlos Nobre.
Segundo o relatório divulgado ontem pelo governo, 68% das 13,2 milhões de toneladas de gás metano lançadas na atmosfera, por ano, vêm da flatulência do gado bovino. Especialistas lembram que a atividade gera riqueza para o país - diferentemente da agricultura praticada em áreas desmatadas da Amazônia - e que cientistas já buscam formas de minimizar tais efeitos.

Inventário é criticado na COP-10

Janaína Figueiredo
Correspondente

Ontem foi um dia difícil para a delegação brasileira que participa da 10 Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, a COP-10. Nos corredores do centro de convenções de La Rural, em Buenos Aires, representantes de importantes ONGs criticaram duramente o Inventário Brasileiro de Emissões de Gases do Efeito Estufa, divulgado ontem pelo governo.
- O inventário mostra que o Brasil está aumentando suas emissões e nós consideramos que, como o país ratificou a convenção, deveria implementar políticas para atenuar o crescimento das emissões. Lamentavelmente vemos que o governo continua atuando como se não existisse a convenção de mudanças climáticas - assegurou o coordenador executivo da Vitae Civilis, Rubens Harry Born.
Segundo ele, o governo não está adotando as medidas necessárias, entre elas, a proteção das florestas brasileiras.
Na tentativa de minimizar o impacto dos dados apresentados pelo país, a delegação brasileira iniciou uma forte ofensiva destinada a flexibilizar as regras para a implementação de projetos de pequena escala de reflorestamento no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto no Protocolo de Kioto, que entrará em vigor em 16 de fevereiro.
De acordo com o sistema, países desenvolvidos podem financiar projetos em países em desenvolvimento e, em troca, obter créditos que podem ser usados para compensar suas emissões.

O Globo, 09/12/2004, Ciência e Vida, p. 47

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