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Quanto mais quente melhor

Veja, Ambiente, p. 74-75
07 de Jan de 2015

Quanto mais quente melhor
Os moradores da gélida Groenlândia e de outras regiões do Ártico comemoram o aquecimento global, que em altas latitudes beneficia a agricultura, a mineração e a pesca

O viking Eric, o Ruivo, não era dado a sutilezas. Banido da Islândia por assassinato, acabou colonizando, no ano de 982, uma ilha povoada por esquimós do tamanho dos estados do Amazonas e da Bahia juntos. Não foi por ironia que ele deu ao lugar o nome de Gronland ("terra verde", nas línguas escandinavas), mas para se contrapor à origem gélida da palavra Islândia, de onde esperava atrair colonos. Táticas milenares de marketing à parte, a Groenlândia tinha mesmo, naquele tempo, um clima mais convidativo do que hoje, quando 80% de sua área é permanentemente coberta por gelo. A civilização viking estabelecida por Eric na maior ilha do mundo entrou em declínio no século XIV por vários motivos, entre eles o esfriamento do clima por causas naturais. Seiscentos anos depois, o fenômeno inverso, agora provocado pela ação humana, está dando à paisagem da Groenlândia um novo motivo para fazer jus ao nome. A ilha, que no século XVIII se tornou uma colônia da Dinamarca e hoje é uma região autônoma do país nórdico, constitui uma prova de que o aquecimento global não tem apenas efeitos apocalípticos.
O aumento da temperatura ampliou em três semanas por ano o período de cultivo nas terras livres de gelo, e no último verão no Hemisfério Norte, em meados de 2014, as prateleiras dos supermercados em Nuuk, a capital, ficaram repletas de brócolis, morangos e repolhos cultivados nas hortas da ilha, algo inimaginável até recentemente. Com grama verde por mais tempo, o rebanho de ovelhas cresceu de 15 000 para 20 000 cabeças nos últimos vinte anos. Pela primeira vez desde os tempos de Eric, o Ruivo, está-se criando gado bovino para corte e para leite. "As pessoas estão plantando batatas ao ar livre.
Temos bife da Groenlândia, e o último verão foi um dos poucos em que os pescadores encontraram atum", diz Hans Lichtenberg, morador de Nuuk. Os benefícios do aquecimento global tornaram-se um dos assuntos preferidos dos 57000 habitantes da ilha.
Entre as novas oportunidades está a exploração das riquezas do subsolo, facilitada pela retração na cobertura de gelo. O governo local já distribuiu 150 licenças a mineradoras e petrolíferas. Dez anos atrás, havia somente vinte. Calcula-se que um oitavo de todo o petróleo não explorado do mundo e talvez um quarto do gás natural estejam no Ártico, no qual se situa boa parte do território da Groenlândia. Em um futuro próximo, a mineração de carvão, ouro, ferro e diamante pode se transformar na principal atividade econômica, suplantando a pesca. As perspectivas são tão boas que a Dinamarca anda namorando o quintal da antes subestimada colônia e, no mês passado, comunicou às Nações Unidas que se considera dona de 900 000 quilômetros quadrados de mar no Ártico, o que pode gerar atritos com a Rússia do incansável brigão Vladimir Putin, com reivindicações conflitantes. Também no Ártico, o derretimento do gelo abriu uma nova rota para navios entre os oceanos Atlântico e Pacífico. O novo percurso tem um terço da distância dos tradicionais, que passam pelos canais de Suez ou do Panamá. "A rota do Ártico representa uma grande economia para a navegação e uma redução no consumo de combustível", diz o geofísico Michael Bevis, da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos.
O aumento da temperatura da água do mar também foi benéfico para a pesca em altas latitudes. Em 2012, foram pescados pela primeira vez entre a Groenlândia e a Islândia três atuns com cerca de 100 quilos cada um. A espécie é adaptada a águas mais quentes, em torno dos 11 graus. A mudança de comportamento pode ser explicada tanto porque os atuns encontraram temperaturas mais amenas ao norte quanto por ter ocorrido uma migração de outros peixes que lhes servem de alimento, como a anchova. Desde então, os atuns tornaram-se mais freqüentes na região. De junho a agosto de 2014, navios pesqueiros da Groenlândia capturaram 21 unidades. No Mar do Norte, que banha a Noruega e a Dinamarca, os pescadores notaram que as espécies de bacalhau ficaram maiores. "Quando as águas estão mais quentes, o metabolismo do bacalhau se acelera. O peixe consegue comer mais e mais rapidamente e ganha em musculatura", diz o geólogo Peter Gronkjaer, professor de ecologia marinha da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Maiores, as fêmeas botam mais ovos, e os cardumes se multiplicam mais rapidamente. A fartura levou a comissão norueguesa de pescadores a dobrar a cota de pesca para 1 milhão de toneladas. O aquecimento global pode não ser suficiente para provocar um boom econômico na Groenlândia. Mas pode representar o empurrão que faltava para a ilha dispensar a ajuda de 600 milhões de dólares que recebe anualmente da Dinamarca. Com reportagem de Paula Pauli

Veja, 07/01/2015, Ambiente, p. 74-75

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