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A qualidade da água

OESP, Notas e Informacões, p. A3
26 de Abr de 2004

A qualidade da água

A crise do abastecimento de água na Grande São Paulo e em algumas das mais densamente povoadas regiões do Estado não é provocada apenas pela escassez de chuvas registrada nos últimos anos e pelo elevado consumo, mas também pela qualidade da água nos rios e reservatórios. O Relatório de Qualidade das Águas Interiores do Estado de São Paulo, divulgado na terça-feira pela Cetesb, revela considerável queda nos índices de pureza das fontes de água bruta entre 2002 e 2003. No ano passado, 32% das fontes do território paulista foram classificadas como ruins ou péssimas para o abastecimento. Um ano antes, esse porcentual era de 27%.
A situação que mais chama a atenção é a da Bacia dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí que, além de atender a 4 milhões de habitantes da região de Campinas, também fornece 50% da água consumida na região metropolitana de São Paulo: 64% da água encontrada em rios e represas dessa bacia foi classificada como ruim ou péssima para o abastecimento, um crescimento de 19 pontos porcentuais em relação a 2002.
A degradação da água ocorreu em 10 das 22 bacias hidrográficas do Estado.
Apenas 4 apresentaram melhora nos índices e, mesmo assim, quase insignificantes, como é o caso da Bacia do Alto Tietê, onde 37% dos rios e reservatórios foram classificados como bons ou ótimos (em 2002, a condição atingia 35% dos mananciais).
A falta de tratamento de esgoto torna ainda mais grave a crise no abastecimento. Na Grande São Paulo, há a maior taxa de tratamento de água de esgoto do Estado - apenas 39% do volume total. Para piorar, em 2003, o índice pluviométrico foi o mais baixo dos últimos 66 anos, o que reduziu muito a capacidade de autodepuração da água em seus cursos.
Esse é o resultado da inércia do governo diante da ocupação desenfreada de áreas de preservação de mananciais e da sua teimosia em não incluir o tratamento de água como questão de saúde pública no Orçamento. "Precisamos acabar com a história de que tratar esgoto é caro e passar a pensar que investir em saúde depois é que fica caro", lembrou, em entrevista ao Estado, o professor de Recursos Hídricos e Meio Ambiente Aldo Rebouças, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.
A destruição da vegetação nas redondezas dos mananciais e a multiplicação dos loteamentos clandestinos sem a mínima infra-estrutura na Grande São Paulo foram as bases de um modelo de ocupação urbana completamente devastador que, esperava-se, deveria servir de alerta para as cidades do interior. No entanto, em 10 das 22 bacias hidrográficas o problema se repete e tem transformado os rios em canais de esgoto.
Os investimentos para tornar a água própria para o consumo serão, a cada ano, mais altos. E os mananciais utilizáveis, cada vez mais raros.
Acabar com as práticas agrícolas inadequadas, racionalizar o consumo da água, investir em tratamento de esgoto, impedir a expansão das áreas invadidas nas regiões de preservação, fiscalizar e punir com rigidez as indústrias poluidoras são ações urgentes a serem tomadas pelas prefeituras e pelo Estado. Esperar que São Pedro resolva o problema da escassez de água, como fez o governo estadual nos últimos meses, não é solução - é conformismo.

OESP, 26/04/2004, Notas e Informacões, A3

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