O Globo, Rio, p. 41
28 de Out de 2012
Proteção à vista
Criação de parque impedirá construções no entorno da Lagoa e do Canal de Marapendi
ROGÉRIO DAFLON
daflon@oglobo.com.br
A Reserva de Marapendi, na Barra da Tijuca, consegue ser bonita e degradada ao mesmo tempo. Na lagoa e no canal que levam seu nome, encontra-se uma fauna em que espécies como o jacaré-de-papo-amarelo, a capivara e aves migratórias como o falcão-peregrino, o martim-pescador e a batuíra convivem com águas extremamente poluídas. Mas agora o poder público parece querer limpar a área. O prefeito Eduardo Paes anunciou que transformará toda a reserva em parque, proibindo assim novas construções no entorno da lagoa e do canal.
Parte da lagoa, próximo ao Canal das Taxas, em sua parte leste, já era parque. Agora a parte oeste também será. Para isso, a Câmara dos Vereadores terá de aprovar um projeto de lei, a ser enviado nos próximos dias pela prefeitura.
- Se algum proprietário quiser construir na Reserva de Marapendi, a prefeitura não vai permitir o empreendimento e vai transferir o potencial construtivo para outra área da Barra. Se for o caso de um hotel de três andares, por exemplo, a prefeitura vai adquirir aquele terreno e autorizar esse parâmetro em outro lugar do bairro - explicou Paes.
O trecho da reserva que não pertence ao Parque de Marapendi é atualmente uma área de proteção ambiental.
Independentemente do projeto a ser enviado à Câmara, algumas ações já estão em curso. Agentes do Mosaico Carioca - órgão da Secretaria municipal de Meio Ambiente que abarca todas as unidades de conservação da capital - visitaram 140 endereços, entre prédios, condomínios e casas, exigindo que eles se conectem à rede formal de coleta de esgoto da Cedae já existente ao longo do Canal das Taxas. E boa parte da Favela do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, que ainda despeja seu esgoto no mesmo canal, já se ligou também aos troncos da companhia, de acordo com a própria Cedae.
- A despoluição do Canal das Taxas é fundamental para a limpeza da Lagoa de Marapendi. A receptividade dos donos dos imóveis foi boa, mas daqui a dois meses faremos novas vistorias - disse Celso Junios, secretário-executivo do Mosaico Carioca, acrescentando que todo o Canal das Taxas foi cercado, para proteger animais, que eram constantemente atropelados.
Presidente da Cedae, Wagner Victer disse que os endereços dos imóveis sem conexão com a rede foram encaminhados ao Ministério Público estadual, para que acionem os proprietários.
- É responsabilidade dos donos dos imóveis fazer essa ligação - disse Victer.
Ideia é formar um corredor verde
Segundo o Mosaico Carioca, o cronograma do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para a dragagem do Complexo Lagunar de Jacarepaguá vai priorizar o Canal das Taxas.
- O Canal das Taxas liga a Lagoa de Marapendi ao Parque Chico Mendes. Despoluído e livre do assoreamento, ele se transforma num corredor verde. Esse é o nosso projeto piloto de despoluição das lagoas, numa ação conjunta com outros órgãos do município e do estado - disse Celso Junios.
De barco, repórteres do GLOBO puderam conferir várias saídas de esgotos de condomínios de classe média, ao longo do Canal de Marapendi, que desaguam na lagoa. No canal se veem ainda galerias de águas pluviais que despejam dejetos. Uma pequena comunidade também descarrega seu esgoto naquelas águas. Mas é na Lagoa de Marapendi que pode ser vista a maior poluição, vinda do Canal das Taxas, como prova a mancha observada em voos de helicóptero sobre a região.
Atividade turística não existe, só passeios ecológicos para mostrar tragédia ambiental
Professor da Coppe diz que canais devem ser interligados
Professor de engenharia costeira da Coppe/UFRJ, Paulo Rosman disse que, na Europa ou nos Estados Unidos, uma lagoa como a de Marapendi viraria um grande parque de ecoturismo.
- Um local como esse, com uma beleza incomum, precisa ser desfrutado. Para isso, entre outras coisas, seria fundamental viabilizar a circulação das águas, com a recuperação de profundidade de canais e a sua interligação no extremo oeste da Lagoa de Marapendi. Claro que recuperar ambientalmente as demais lagoas do complexo de Jacarepaguá é fundamental para melhorar a qualidade da água como um todo.
O biólogo Mário Moscatelli, que recupera parte do manguezal do lugar, diz que a Lagoa de Marapendi tem uma grande vantagem sobre as demais do complexo, por não receber também a poluição de rios. Esse problema acontece, por exemplo, nas lagoas da Tijuca e do Camorim, que sofrem com o esgoto e o lixo do Rio das Pedras. Os dejetos são provenientes da favela de mesmo nome, cortada pelo rio.
- Na Flórida, uma lagoa como a de Marapendi, com sua rica fauna, vira parque, e o poder público explora, cobra ingresso para sua manutenção.
O município perde receita ao não fazer o mesmo - disse Moscatelli.
Ricardo Herdy, proprietário de uma empresa de passeios de barco na lagoa, reclama que, do jeito como se encontra hoje o lugar, os turistas sequer aparecem.
- Só organizo passeios escolares para falar de meio ambiente e, infelizmente, da degradação da natureza aqui. É um passeio para mostrar problemas. Uma vergonha,
O Globo, 28/10/2012, Rio, p. 41
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