Valor Econômico, Opinião, p. A10
29 de Set de 2015
Propostas à CoP 21 mantêm o planeta na zona de risco
Há mais iniciativas e esforços, com maiores chances de sucesso, para deter o aquecimento global do que às vésperas das anteriores conferências do clima da Organização das Nações Unidas. Vários obstáculos que entravaram as discussões estão caindo por terra, como a falta de compromissos financeiros de nações desenvolvidas para auxiliar os países pobres a combaterem e se adaptarem aos efeitos das mudanças climáticas. Mas, apesar de tudo, será preciso fazer bem mais se o objetivo for limitar o aumento da temperatura ao terreno ainda seguro dos 2 graus centígrados. Com a apresentação das propostas nacionais de um pouco mais de 60 países - entre eles, os maiores poluidores estão nela, como China, EUA, União Europeia e Rússia - o arsenal prometido de medidas é capaz de reduzir o aquecimento a 2,5 graus centígrados, nível perigoso e indesejável.
Diplomatas envolvidos nas negociações acreditam até que se está próximo a um "acordo vinculante", isto é, obrigatório, na 21ª Conferência do Clima em Paris (Financial Times, 16 de setembro). Um dos motivos para o otimismo é o de que boa parte das propostas já divulgadas como metas voluntárias não são promessas, mas objetivos que de alguma forma já estão sendo perseguidos, muitas vezes com base em leis já aprovadas.
Uma costura mais eficiente com a dezena dos maiores emissores (que inclui Índia, Japão, Coreia do Sul, Canadá e Indonésia) poderia forjar compromissos mais audazes, à altura dos desafios.
Uma das barreiras no caminho das negociações anteriores está sendo empurrada de lado aos poucos. Na questão do financiamento às nações mais pobres para adaptação e mitigação dos efeitos do aquecimento, esses países estariam abrindo mão de exigir compensação direta dos países ricos por desastres ambientais.
Os países ricos por seu lado, e a China, que agora assume responsabilidades globais, anunciaram que mais dinheiro está a caminho. O Reino Unido divulgou que colocará US$ 9,1 bilhões para o Fundo Verde com essa finalidade nos próximos 5 anos. EUA e China se comprometeram cada um com US$ 3,12 bilhões anuais. A União Europeia prometeu aportar mais recursos ao Fundo, cuja meta de receitas anuais continua ainda distante da estabelecida em Copenhague, de US$ 100 bilhões anuais em 2020.
A presidente Dilma Rousseff apresentou anteontem, em Nova York, os objetivos ambientais do Brasil. O país dá um exemplo ao se comprometer a reduzir absolutamente as emissões de gases do efeito estufa, e não a um corte a partir de estimativas sobre volumes de emissões caso medidas de contenção não tivessem sido tomadas. O Brasil pretende diminuir as emissões em 37% até 2025, a partir de 2005, e 43% até 2030. Os números podem impressionar, embora sejam mais modestos sobre outros parâmetros.
2005 no Brasil foi um dos picos do desmatamento, que depois encolheu 80%. Se nesse ano base o Brasil emitiu 2,09 bilhões de toneladas de CO2 equivalentes, em 2012 elas já haviam caído para 1,29 bilhão e a meta brasileira agora é chegar a 2025 com 1,21 bilhões - redução pequena em relação ao nível já alcançado (Valor, ontem).
O Brasil faz sua parte, mas poderia realizar mais. Quanto à trajetória de inclusão de fontes renováveis de energia em sua matriz, a intenção é que, incluindo a energia hídrica, a intenção é que forneçam 45% do total da matriz energética. Hoje elas já somam 42,5%. Há um desafio para conseguir com que as energia complementares à hidrelétrica, como solar, eólica e de biomassa, cheguem a 23% da matriz, ante 9% hoje.
A matriz energética tem se "sujado" ultimamente com o uso intensivo das usinas termelétricas, que deixaram de ter papel complementar para se tornarem perenes. Além disso, o alvo de 10% de economia com eficiência energética em 2030 é conservador e já existe há um bom tempo, assim como o do desmatamento ilegal zero na Amazônia. A eles foram acoplados a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e a meta de 5 milhões de ha. de integração entre lavoura, pecuária e reflorestamento.
Parte da menor ousadia pode ter sido motivada pela intenção de "poupar" esforços porque reduções maiores nas emissões serão exigidas mais à frente, já que o somatório das propostas à mesa é inferior às necessidades. Mais provável, porém, é que o Brasil, que mal começou a explorar o mar de petróleo do présal, reserva por bom tempo um lugar de destaque para a energia fóssil.
Valor Econômico, 29/09/2015, Opinião, p. A10
http://www.valor.com.br/opiniao/4246622/propostas-cop-21-mantem-o-plane…
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