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Promessa do governo poe fim a greve de fome de bispo

JB, Pais, p.A2
07 de Out de 2005

Promessa do governo põe fim à greve de fome de bispo
Jaques Wagner leva carta de Lula a religioso e se compromete a adiar obras
Depois de 11dias de greve de fome, o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 59 anos, anunciou ontem, em Cabrobó, o fim da sua greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco. O ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner foi encarregado de levar uma carta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para fechar um acordo com o religioso e convidá-lo para visitar Lula no Palácio do Planalto. O governo se comprometeu a retomar as discussões sobre o projeto no país e suspender o início das obras nesse período. Independente da promessa, a própria Justiça da Bahia proibiu o licenciamento ambiental para a obra o que, na prática, paralisa o projeto.
Cappio avisou que, caso as negociações não avancem, vai voltar a fazer greve de fome.
O interlocutor do governo negou o acordo, mas o religioso, reagiu, dizendo que Wagner havia mentido:
- Ele não está falando a verdade. Não quero tomar nenhuma decisão precipitada, mas não foi isso que nós conversamos durante cinco horas - acrescentou.
Segundo Cappio, o ministro garantiu que o governo não iniciaria obras e que não haveria tempo determinado para o fim das discussões sobre a transposição do rio.
A reunião entre Wagner e o bispo começou às 12h15, na capela onde o religioso cumpria o jejum, e só terminou às 17h30.
O religioso também recebeu a visita do núncio apostólico Lorenzo Baldisseri, representante do Vaticano no Brasil, que lhe entregou uma carta enviada pelo papa Bento 16.
Já na carta enviada pelo presidente Lula ao bispo, o governo federal oferece o ''prolongamento do debate'' sobre o processo de transposição, a intensificação das obras de revitalização do rio e um convite para Cappio ser recebido no Palácio do Planalto ''com o objetivo de dialogar sobre esse tema''.
O fim da greve de fome foi anunciado para as cerca de 200 pessoas aguardavam o resultado do encontro do lado de fora da capela. Alguns fiéis rezavam e cantavam hinos religiosos. Índios das tribos trucá e tumbalalá, vestidos com trajes típicos, dançavam próximos à capela.
A chegada do ministro foi tumultuada. Os índios cercaram Wagner e dançaram ao seu redor. Imóvel, ele não sabia o que fazer.
A portas fechadas, Wagner leu a carta com a proposta do governo de ampliar os debates sobre a transposição. Em seguida, disse que o governo se esforçaria para que o Congresso aprovasse a proposta de emenda constitucional que prevê investimento, nos próximos 20 anos, de R$ 300 milhões por ano na revitalização e saneamento do rio São Francisco.
O ministro deixou a capela e aguardou duas horas na casa de um pequeno agricultor. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para saber como andavam as negociações. Wagner explicou o impasse e, chamado por Cappio, retornou à capela.
Durante a segunda parte da reunião, o presidente voltou a ligar para o ministro e, por telefone, aparou o que pareciam ser as últimas arestas do acordo.
Após anunciar o fim da greve de fome, o bispo pediu que as mobilizações em favor da revitalização do rio São Francisco continuassem:
-Não estamos terminando, estamos começando - afirmou. Apesar de ter chegado a um acordo, o bispo foi criticado pelo secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Odilo Scherer, que considerou a atitude eticamente inaceitável:
- Sinceramente, espero que essa moda não pegue.
Cappio foi levado ao hospital municipal de Cabrobó, para passar por exames médicos e receber soro, antes de se alimentar. Ele estava quatro quilos mais magro.

Ciro aparece após acordo sobre obra
No dia em que o governo decidiu continuar as discussões sobre a transposição do Rio São Francisco, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes , apareceu em público pela primeira vez após o início da greve de fome do frei Luiz Flávio Cappio. Ciro esteve em reunido com a bancada do PT na Câmara para explicar o projeto.
Também ontem, a 14ª Vara Federal na Bahia suspendeu a licença-prévia concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o projeto de integração do Rio São Francisco às bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional. Com a decisão da juíza, Cynthia de Araújo Lima Lopes, o Ibama não pode conceder a licença de instalação, que autorizaria o início das obras.
A discussão sobre as obras causou uma baixa na base de apoio à transposição. O governador de Alagoas, Ronaldo Lessa (PDT), que até o início desta semana era favorável à obra, disse que cansou de esperar por recursos federais para obras de desenvolvimento e para a revitalização do São Francisco.
Lessa agora condiciona seu apoio à liberação de dinheiro para a construção do Canal do Sertão Alagoano, obra que, de forma semelhante ao projeto de transposição, retira água de um braço do rio São Francisco para abastecer projetos de irrigação e consumo humano ao longo do sertão e agreste do Estado.
- Sempre disse ao Ciro, ao presidente Lula e à ministra Dilma (Rousseff, da Casa Civil) que podiam contar comigo como um colaborador. Todos os governadores eram contra, menos eu. Cansei'', disse Lessa.
O governador cobra do governo federal compensação aos Estados que não serão beneficiados diretamente pela transposição do São Francisco, mas que ''doarão'' água para abastecer os canais.
A captação de água para os dois canais previstos no projeto de transposição estão localizados antes de o rio chegar aos Estados de Alagoas e Sergipe. Teoricamente, os dois Estados receberão um rio com uma vazão menor quando a obra estiver em operação.
Segundo o governador de Alagoas, dos R$ 100 milhões orçados para a obra em 2005, apenas R$ 8 milhões foram liberados até agora pelo governo federal.

JB, 07/10/2005, p. A2

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