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Projeto pós-Kyoto

CB, Mundo, p. 26
13 de Nov de 2007

Projeto pós-Kyoto
Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, visita Brasília de olho na estratégia que substituirá o atual pacto de combate ao efeito estufa. Diplomata quer transformar o tema em prioridade de seu mandato

Samy Adghirni e Claudio Dantas Sequeira
Da equipe do Correio

O sul-coreano Ban Ki-moon quer entrar para a história como o primeiro secretário-geral das Nações Unidas a conseguir pôr a questão ambiental no topo da agenda mundial. Em sua viagem de três dias ao Brasil, Ban abandonou o estilo discreto que marcou seu primeiro ano à frente da ONU e fez um apelo público, tanto às grandes potências mundiais como aos países em desenvolvimento. Na lógica do diplomata, o compromisso de todos só será possível com a elaboração de um novo pacto entre as nações, depois do sepultamento do Protocolo de Kyoto.

O tema estará sobre a mesa da Conferência sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá entre os dias 3 e 14 de dezembro na Indonésia. A passagem de Ban pela América do Sul tem caráter preparatório. "Os chefes de Estado tentarão chegar a uma nova legislação sobre o clima, e a estrada para Bali passa pelo Brasil", disse o secretário-geral, de acordo com o chanceler Celso Amorim. A conferência pretende estabelecer as bases de um novo acordo internacional de combate ao efeito estufa. Kyoto vigora até 2012, mas o novo acordo deve permitir que cada país contribua como puder.

"Não se pode exigir a mesma coisa de todo mundo, países desenvolvidos e nações em desenvolvimento têm realidades muito distintas e precisamos levar isso em consideração", declarou ao Correio um colaborador do secretário-geral. Antes de Brasília, Ban visitou uma usina de etanol em Jaboticabal (SP), no domingo. O secretário-geral confidenciou a assessores que ficou "muito impressionado" com os esforços do governo e de empresas brasileiras para combater o aquecimento global com o desenvolvimento de energia limpa.

Apesar dos elogios, Ban cobrou do governo Lula e do setor produtivo a "responsabilidade de fazer um balanço entre os custos sociais e os benefícios da produção dos biocombustíveis". Dessa forma, tentou dirimir as críticas internas por ter negligenciado as advertências do suíço Jean Ziegler, relator especial da ONU para o direito à alimentação. Ziegler chamou de "crime contra a humanidade" a exploração da terra para a produção de biocombustíveis.

Bandeira
O secretário-geral fez da questão ambiental sua bandeira. "Ele ficou muito impressionado com o que viu na Antártida - geleiras que derretem, grama que nasce onde antes era inconcebível. Está convencido de que estamos caminhando rumo a uma calamidade global e que é preciso fazer algo com a máxima urgência", emendou um funcionário da ONU.

A obsessão de Ban pode ser explicada pela pouca margem de manobra em outros temas relevantes, como o terrorismo e a reforma da ONU. A idéia é esperar o término dos mandatos de George W. Bush, nos EUA, e do presidente russo, Vladimir Putin, para recomeçar o debate. "Com os líderes de agora não adianta conversar, então é preciso empurrar esses temas para um melhor momento, uma nova realidade política", avalia o historiador José Flávio Sombra Saraiva, professor de Relações Internacionais da UnB.

O Brasil deve aproveitar a onda de combate ao aquecimento para se capitalizar politicamente. "Ban Ki-moon entendeu que o Brasil é o ator principal com relação à mudança climática. Como membro do G-77 + China, o país é um cabo-de-guerra contra o G-8 em matéria de questões ambientais, e nada poderá ser resolvido sem sua participação efetiva", afirmou o deputado Rocha Loures (PMDB-PR), líder do grupo de trabalho sobre clima na Câmara dos Deputados. "O secretário-geral quer que o Brasil seja um protagonista da Conferência de Bali e assuma o compromisso de se tornar a maior potência ambiental do planeta."

Os problemas de cada um
Confira quais foram os principais desafios dos últimos três secretários-gerais das Nações Unidas

Javier Pérez de Cuéllar (Peru)
Diplomata e ex-candidato à Presidência, ocupou o posto de janeiro de 1982 a dezembro de 1991. Ficou famoso pela atuação das forças de manutenção da paz durante seus mandatos. Por isso, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1988. Negociou o fim do conflito entre Reino Unido e Argentina pelas Ilhas Malvinas (1982) e da Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Quando ainda era secretário-geral, o Conselho de Segurança autorizou o uso da força para expulsar os iraquianos do Kuweit, em 1990.

Butros Butros-Ghali (Egito)
Ocupou o posto de janeiro de 1992 a dezembro de 1996, sendo o único secretário-geral que não obteve dois mandatos. Dois conflitos mancharam sua permanência à frente da ONU: a ofensiva sérvia na Bósnia e o massacre em Ruanda. Entrou em choque com a posição dos EUA sobre esses episódios e não obteve o aval de Washington para se reeleger. O período ficou marcado pelo aumento na quantidade de guerras no planeta.

Kofi Annan (Gana)
Foi secretário-geral de 1997 a 2006. Teve como grande feito a inclusão de nações em desenvolvimento no debate global sobre temas polêmicos, como a desigualdade social. Como africano, ressaltou os problemas enfrentados pelo continente. Também será lembrado por não ter conseguido impedir o ataque dos Estados Unidos ao Iraque e pela tentativa de tornar a ONU mais democrática, por meio de uma reforma.

CB, 13/11/2007, Mundo, p. 26

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