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24 de Mar de 2010
Coordenado pelo Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Projeto Golfinho Rotador comemora nesta sexta-feira (26) 20 anos de criação. Para marcar a data, será inaugurada a sede do Centro Golfinho Rotador, na ilha de Fernando de Noronha, em Pernambuco. Além disso, haverá lançamento de livro e exposição fotográfica "Os Golfinhos de Noronha" e show musical com o Grupo Maracatu Noronha e Ju de Medeiros e banda. O projeto, que tem o patrocínio da Petrobras, vem dando muitos resultados.
O evento, que começa às 17h, tem o objetivo de destacar os resultados do Projeto Golfinho Rotador e reforçar a imagem do ICMBio como instituição comprometida com a questão ambiental e com a biodiversidade marinha. Entre as presenças confirmadas, estão as do presidente do ICMBio, Rômulo Mello, e do diretor de Unidades de Conservação de Proteção Integral do Instituto, Ricardo Soavinski.
Criado em 1990, o Golfinho Rotador, segundo o coordenador do projeto, o analista ambiental do ICMBio José Martins, tem a missão de desenvolver ações de pesquisa, educação ambiental e envolvimento comunitário em prol da conservação dos golfinhos-rotadores, de Fernando de Noronha e da biodiversidade marinha. Nesses 20 anos, apresentou vários resultados positivos para os rotadores, para a população noronhense, para os visitantes e para a comunidade científica.
RESULTADOS - Segundo Martins, há os resultados econômicos, com divulgação e estímulo ao turismo de observação de golfinhos em Noronha; os estruturais, com o aumento do grau de informação sobre golfinhos por parte dos condutores de visitantes; os educativos, com o aumento da consciência dos ilhéus e visitantes quanto à necessidade de se preservar os animais; e os conservacionistas, com a fiscalização e criação de normas de preservação dos cetáceos e do próprio ecossistema da ilha, como a Portaria do Ibama no 05/1995, que define regras para evitar o molestamento dos golfinhos-rotadores em Fernando de Noronha.
Além desses, prossegue o analista, há os resultados científicos, com a descrição para a espécie Stenella longirostris dos comportamentos de descanso, reprodução, guarda e amamentação em ambiente natural, a definição de parâmetros ambientais com a presença de golfinhos na Baía; a quantificação e qualificação da taxa de ocupação da Baía dos Golfinhos pelos rotadores ao longo desses 20 anos, correlacionando esta taxa com parâmetros ambientais e com as perturbações do turismo náutico.
"A probabilidade de se encontrar golfinhos em Fernando de Noronha é a mesma desde 1990. Isso demonstra que os esforços de conservação do Ibama, do ICMBio e do Projeto Golfinho Rotador têm dado certo, apesar de já começarmos a ver algumas alterações quanto ao tempo de permanência dos rotadores na Baía dos Golfinhos, que é o lugar de descanso deles", diz o analista ambiental.
HISTÓRIA - A alta frequência de golfinhos-rotadores, a falta de conhecimento sobre estes animais, a eminência do crescimento desordenado do turismo náutico em Fernando de Noronha levaram a criação do Projeto Golfinho Rotador em 26 de março de 1990.
Em função de fatores como disponibilidade de recursos financeiros, de equipamentos, de espaço para alojamento e de equipe, o Projeto Golfinho Rotador foi incorporando aos poucos novas etapas metodológicas.
"Atualmente já conseguimos atingir o mínimo necessário do que consideramos para ser um programa de conservação da natureza, desenvolvendo atividades de pesquisa científica, orientação à visitação, criação de legislação específica, fiscalização ao cumprimento da legislação, educação ambiental e envolvimento comunitário", afirma José Martins.
AÇÕES - O Projeto Golfinho Rotador executa suas ações por meio de três programas: pesquisa, educação ambiental e envolvimento comunitário.
O Programa de Pesquisa do Projeto Golfinho Rotador consiste no estudo da história natural dos golfinhos-rotadores por meio de setes subprogramas: ocupação e distribuição de cetáceos, ecologia comportamental, catalogação dos golfinhos, caracterização genética, interação do turismo com os golfinhos, comportamento trófico e Rede de Encalhes de Mamíferos Aquáticos.
O Programa de Educação Ambiental objetiva mitigar os problemas socioambientais de Fernando de Noronha por meio do estímulo da participação dos ilhéus e turistas no uso responsável dos recursos naturais e na execução consciente das atividades turísticas. Este programa tem como foco a temática marinha e as inter-relações ecológicas deste ecossistema com o cotidiano da população local e dos visitantes.
O Programa de Envolvimento Comunitário almeja estimular o desenvolvimento sustentável de Fernando de Noronha, promovendo capacitação profissional, consolidando representatividade em conselhos locais e apoiando iniciativas culturais e esportivas. "Assim, executamos três subprogramas: Capacitação Profissional, Gestão Participativa de Fernando de Noronha e Apoio Esportivo e Cultural", acrescenta o coordenador José Martins.
ROTADORES DE NORONHA - Os golfinhos-rotadores de Noronha, que tem o nome científico de Stenella longirostris, vivem na Cadeia de Montanhas Submarina de Fernando de Noronha, uma área de forma retangular com tamanho aproximado de 500 km por 200 km. Dos 3.906 dias de observação entre janeiro de 1991 e dezembro de 2009, os rotadores entraram na Baía dos Golfinhos em 95% dias.
Nos 3.467 dias em que foi possível contar os golfinhos entrando na enseada, a frequência máxima diária oscilou entre 2 e 2.046 indivíduos, com média diária de 363,33 golfinhos por dia. Já nos 3.193 dias em que foi possível definir o tempo de permanência dos golfinhos na enseada, os valores variaram de 1 minuto até 12 horas e 45 minutos, com média de 5 horas e 44 minutos e desvio padrão de 3 horas e 35 minutos. Os rotadores só foram observados dentro da Baía dos Golfinhos durante o dia.
"Observa-se uma clara diminuição do tempo de permanência dos rotadores na Baía dos Golfinhos ao longo dos anos de estudo, principalmente a partir de 2003. Diminuição essa com correlação negativa com o tráfego de embarcações de turismo defronte à enseada", diz o coordenador do projeto, José Martins.
A Baía de Santo Antônio/Entre Ilhas é o segundo local de Fernando de Noronha preferido pelos rotadores para descansar desde o início dos nossos trabalhos em 1990, mas a prioridade por esta área está aumentando, enquanto diminui pela Baía dos Golfinhos. Em 2009 o tempo de permanência dos golfinhos em ambas as áreas foi estatisticamente igual.
Entre os anos de 1991 e 2005, os golfinhos-rotadores ocupavam a Baía de Santo Antônio/Entre Ilhas em 30% dos dias do ano, quando em média 100 golfinhos permaneciam 1 hora e 30 minutos por dia. Em 2006 e 2007, os rotadores já ocuparam a Baia de Santo Antônio/Entre Ilhas em 50% dos dias do ano, com 150 rotadores em média, permanecendo 2 horas e 30 minutos por dia. Em 2008 e 2009, os rotadores estiveram na área em 90% dos dias, com média diária de 200 golfinhos permanecendo 4 horas.
Nas duas áreas de maior concentração e frequência de Stenella longirostris no Arquipélago de Fernando de Noronha, a Baía dos Golfinhos e Entre Ilhas, notou-se que os rotadores desenvolvem comportamentos vitais para seu ciclo biológico, com exceção de alimentação. Eles foram vistos descansando, em atividades sexuais, cuidando dos filhotes, de guarda às ameaças, se comunicando, sendo infectados por agentes patogênicos e interagindo com outras espécies animais. O comportamento de alimentação dos rotadores, que nunca foi observado na Baía dos Golfinhos ou na Entre Ilhas, normalmente ocorre no Mar de Fora. A seguir vou apresentar uma visão geral dos comportamentos dos rotadores de Noronha.
A estratégia sexual dos rotadores de Noronha resulta em uma estrutura social muito fluída, na qual inexiste a figura paterna, os laços familiares são derivações da relação mãe-filho e irmã-irmã. Segundo esses laços, os golfinhos agrupam-se em unidades familiares, sobre as quais se associam os machos adultos, que flutuam entre as diferentes células familiares.
O sistema de comunicação aéreo é composto por diversos padrões de saltos e batidas com partes do corpo na superfície do mar, as quais produzem turbulências características quando o golfinho reentra na água. É muito evidente flutuação horária do grau de agitação dos rotadores na Baía dos Golfinhos ao longo do dia, em função do número de golfinhos na baía, hora de chegada dos animais e número de grupos que chegam.
"Observamos em Fernando de Noronha que alguns comportamentos específicos são executados preferencialmente por machos adultos, o que, para animais que tem estrutura social complexa como os rotadores, são definidos como atividades de proteção realizadas pelos indivíduos que estão "de guarda" protegendo o grupo de ameaças, enquanto que os demais indivíduos podem se dedicar a outras atividades, como descanso, reprodução e cuidado parental", diz Martins.
Esses comportamentos classificados pelos pesquisadores do projeto como "de guarda" são enfrentar tubarões, acompanhar embarcações, cercar mergulhadores e executar atividades aéreas. "Os rotadores que estão "de guarda" são os líderes do momento, que, quando deixam de estar "de guarda" executam outro comportamento, como descanso, deixando a liderança para outro rotador, que assumirá a guarda. Sendo por isto, a liderança temporária e compartilhada", conclui Martins.
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