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Projeto busca novas espécies de aranhas

OESP, Vida, p. A34
25 de Ago de 2007

Projeto busca novas espécies de aranhas
Programa de US$ 2,6 mi com o Butantã catalogará animais

Herton Escobar

Descobertas de novas espécies costumam ser contadas nos dedos de uma mão - quem sabe duas. No caso da família Oonopidae, serão precisas muitas mãos. Em uma só tacada, os pesquisadores querem aumentar o número de espécies conhecidas desses pequenos aracnídeos de algumas centenas para alguns milhares. Um salto gigantesco para essas minúsculas aranhas, cuja existência passa totalmente despercebida pela maioria dos seres humanos.

"Um gigante nessa família tem de 2 a 3 milímetros. Essas são as mais fáceis de se trabalhar", brinca o especialista Norman Platnick, curador da coleção de aranhas do Museu Americano de História Natural, em Nova York.

Ele esteve nesta semana no Instituto Butantã, em São Paulo, para uma reunião do Inventário Planetário de Biodiversidade das aranhas Oonopidae, um projeto internacional de US$ 2,6 milhões financiado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos. O Butantã é o representante brasileiro em um grupo de dez países, envolvendo 30 pesquisadores.

As "aranhas goblin", como são chamadas em inglês, ocorrem em praticamente todos os ecossistemas florestais do planeta, vivendo tanto no solo quanto na copa das árvores. Por serem tão pequenas, porém, costumam passar despercebidas até mesmo pelos cientistas. Hoje, são conhecidas cerca de 460 espécies, mas a expectativa dos pesquisadores é descrever cerca de 5 mil até o fim do projeto.

"Estamos falando de um grupo de animais que é quase totalmente desconhecido", disse Platnick ao Estado. "Mesmo que um pesquisador dedicasse sua vida toda a essas aranhas, não conseguiria alcançar o conhecimento que esperamos produzir nesse projeto."

VÁRIAS BUSCAS

O projeto, iniciado em 2006, está previsto para durar cinco anos e prevê 12 expedições de coleta em vários tipos de ambiente. A maior parte do trabalho, entretanto, deverá ser feita em cima das coleções já existentes em institutos de pesquisa e museus de história natural.

"As coleções estão abarrotadas de bichos", diz o zoólogo Antonio Brescovit, do Butantã, especialista em aranhas e coordenador do projeto no Brasil. Segundo ele, somente 17 espécies de Oonopidae são conhecidas hoje no País. Somente na coleção do Butantã, porém, é possível que haja entre 150 e 200 novas espécies esperando para serem "descobertas" (estudadas, descritas e catalogadas).

São animais que foram coletados em expedições científicas, mas nunca houve tempo, pesquisadores ou recursos necessários para estudá-los - algo que será proporcionado agora pelo projeto.

"A coleção é como um banco: quando você precisa de dinheiro, vai lá e pega", afirma Brescovit, que fez muitas das coletas de Oonopidae em áreas de mata atlântica e cerrado. "A gente guarda tudo. Se eu não trabalho com esse material hoje, alguém vai trabalhar amanhã." O Butantã não receberá dinheiro pela participação no projeto, mas receberá equipamentos de pesquisa e poderá aumentar significativamente seu intercâmbio internacional na área de aracnologia - algo que, segundo Brescovit, "vale muito mais do que dinheiro".

As Oonopidae não tecem teia e são totalmente inofensivas para o homem. Alimentam-se de ácaros e outros minúsculos organismos. Mas, mesmo sem assustar, podem ser até mais bizarras do que as aranhas maiores, afirma Platnick.

"Todo dia que vou trabalhar vejo algum bicho que ninguém nunca viu", diz o pesquisador. Perguntado sobre a razão para estudar essas pequenas aranhas, respondeu: "A pergunta não é por que fazemos isso, mas por que vivemos em um planeta do qual não sabemos nada a respeito".

Animais minúsculos

460 espécies de aranhas "goblin" são conhecidas no mundo

5 mil espécies devem ser descobertas até o final do projeto, que vai durar 5 anos

3 milímetros é o maior tamanho dessa família

12 expedições de coleta serão realizadas em vários tipos de ambientes

US$ 2,6 mi é o custo do projeto

OESP, 25/08/2007, Vida, p. A34

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