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Programa ABC aumenta receita por área

Valor Econômico, Caderno Especial, p. F5
09 de Out de 2014

Programa ABC aumenta receita por área

De Goiânia

Veterinário por formação, produtor de grãos e pecuarista, Adolfo Petry embarcou em 2011 no Programa para Redução da Emissão de Gases de Efeito-Estufa na Agricultura (Programa ABC), linha de crédito criada em agosto do ano anterior para financiar a adoção de tecnologias e práticas de manejo que contribuam para a reconversão ambiental da agropecuária brasileira, ampliando o potencial do setor para capturar carbono e, como diz o seu título pomposo, poupar emissões, ajudando o país a cumprir metas assumidas internacionalmente nesta área.
O programa foi concebido como parte do Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, mais conhecido simplesmente como Plano ABC. Para tornar a atividade sustentável, num cenário de pressões ambientais crescentes, especialmente numa região crítica como a Amazônia Legal, Petry acredita que o caminho seja aumentar o sequestro de dióxido de carbono (CO2).
O produtor tem endereço fixo em Campo Novo dos Parecis, no oeste de Mato Grosso, mas no início de 2011 decidiu arriscar-se um pouco mais ao norte, investindo na compra de uma propriedade de quase 2 mil hectares na região de Juara, dos quais em torno de mil hectares ocupados por pastagens. "A área estava degradada, com capacidade produtiva extremamente baixa, e não conseguia dar suporte para 700 cabeças", conta o produtor. Na média, a taxa de ocupação do pasto mal se sustentava em 0,7 unidade por hectare.
No ano seguinte, Petry deu entrada à primeira proposta de financiamento no Programa ABC, projeto que previa a recuperação de aproximadamente 300 hectares. Mais dois contratos foram firmados em 2013 e em 2014, cobrindo em torno de 580 a 600 hectares no total, o que significará, ao final deste ano, a recomposição de praticamente metade da área degradada, a um custo estimado em R$ 1 mil a R$ 1,5 mil por hectare.
Os recursos foram contratados a juros de 5% ao ano, com prazo de 12 anos e três de carência. "O programa é maravilhoso, extremamente viável do ponto de vista econômico, pois possibilita, a um juro relativamente baixo, um aumento de produção por unidade de área, reduzindo a pressão para incorporar novas áreas ao processo produtivo", entusiasma-se.
Além disso, continua, o balanço entre emissões e sequestro de carbono equivalente passa a ser muito mais positivo, "o que torna o programa muito interessante do ponto de vista do meio ambiente".
Com metade da área, os pastos já conseguem manter perto de 2 mil animais em regime de recria, o que significa uma ocupação em torno de quatro unidades por hectare ou cinco vezes mais do que a taxa observada antes do investimento. "Com manejo, podemos chegar a 2,5 mil bois por ano no mesmo espaço", afirma. O aumento da produção permitiu multiplicar a receita bruta por seis, em grandes números, saltando de R$ 348 por hectare/ano para R$ 2.088.
A vantagem veio, ainda, sob a forma de uma melhora mais do que proporcional na pegada de carbono da propriedade. Adotando metodologia reconhecida no mundo acadêmico, Petry estima que o volume de CO2 sequestrado de forma líquida, ou seja, descontadas as emissões, aumentou 13 vezes, saindo de 4.270 quilos por hectare ao ano para 55.665 quilos.
O trabalho iniciou-se, na verdade, antes da aquisição da terra, com análises detalhadas do solo, talhão a talhão. Depois da compra, a área de pastos foi gradeada, recebeu calagem para correção do Ph e adubação. Petry trocou o braquiária escolhido pelo antigo proprietário por capins das variedades massai e mombaça, com potencial produtivo mais elevado, mais adequadas às condições climáticas naquela região e, sobretudo, mais resistentes aos ataques de cigarrinha, praga comum por ali.
Até o final da década, as metas do programa deverão contemplar, segundo Caio Rocha, secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa): a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, num investimento estimado em R$ 33 bilhões; a implantação de 4 milhões de hectares com sistemas de integração lavoura, floresta e pecuária (dos quais 2,76 milhões de hectares pela agricultura familiar); a expansão da técnica de plantio direto para mais 8 milhões de hectares; o aumento de 50% na área de florestas cultivadas, com inclusão de mais em 3 milhões de hectares; além da introdução da fixação biológica de nitrogênio em 5,5 milhões de hectares, reduzindo ou eliminando o uso de fertilizantes nitrogenados, e o tratamento de 4,4 milhões de metros cúbicos de dejetos animais. Essas medidas deverão exigir crédito equivalente a R$ 157 bilhões até 2020.
Desde a safra 2010/2011, foram contratados R$ 8,162 bilhões, nas contas de Rocha, dos quais perto de 70% destinados ao financiamento da recuperação de pastos. "Vamos centrar o programa na recomposição de pastagens nas áreas mais críticas dentro da Amazônia Legal", afirma o secretário.
Para dar substância ao programa, ajustar seu alcance e aprimorar a contratação do crédito, ainda de acordo com Rocha, o governo vem reforçando sua divulgação e investe na capacitação de 300 agentes financeiros, numa parceria entre Mapa, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Febraban, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Embrapa.
O prazo entre a apresentação da proposta e a liberação do crédito, conforme Rocha, tem variado entre seis a oito meses e a meta é reduzir isso para 30 dias.
Em outra iniciativa, o Mapa e a CNA desenvolveram uma plataforma com uma centena de projetos técnicos, envolvendo ensaios e simulações diversas de impactos
Veterinário por formação, produtor de grãos e pecuarista, Adolfo Petry embarcou em 2011 no Programa para Redução da Emissão de Gases de Efeito-Estufa na Agricultura (Programa ABC), linha de crédito criada em agosto do ano anterior para financiar a adoção de tecnologias e práticas de manejo que contribuam para a reconversão ambiental da agropecuária brasileira, ampliando o potencial do setor para capturar carbono e, como diz o seu título pomposo, poupar emissões, ajudando o país a cumprir metas assumidas internacionalmente nesta área.
O programa foi concebido como parte do Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, mais conhecido simplesmente como Plano ABC. Para tornar a atividade sustentável, num cenário de pressões ambientais crescentes, especialmente numa região crítica como a Amazônia Legal, Petry acredita que o caminho seja aumentar o sequestro de dióxido de carbono (CO2).
O produtor tem endereço fixo em Campo Novo dos Parecis, no oeste de Mato Grosso, mas no início de 2011 decidiu arriscar-se um pouco mais ao norte, investindo na compra de uma propriedade de quase 2 mil hectares na região de Juara, dos quais em torno de mil hectares ocupados por pastagens. "A área estava degradada, com capacidade produtiva extremamente baixa, e não conseguia dar suporte para 700 cabeças", conta o produtor. Na média, a taxa de ocupação do pasto mal se sustentava em 0,7 unidade por hectare.
No ano seguinte, Petry deu entrada à primeira proposta de financiamento no Programa ABC, projeto que previa a recuperação de aproximadamente 300 hectares. Mais dois contratos foram firmados em 2013 e em 2014, cobrindo em torno de 580 a 600 hectares no total, o que significará, ao final deste ano, a recomposição de praticamente metade da área degradada, a um custo estimado em R$ 1 mil a R$ 1,5 mil por hectare.
Os recursos foram contratados a juros de 5% ao ano, com prazo de 12 anos e três de carência. "O programa é maravilhoso, extremamente viável do ponto de vista econômico, pois possibilita, a um juro relativamente baixo, um aumento de produção por unidade de área, reduzindo a pressão para incorporar novas áreas ao processo produtivo", entusiasma-se.
Além disso, continua, o balanço entre emissões e sequestro de carbono equivalente passa a ser muito mais positivo, "o que torna o programa muito interessante do ponto de vista do meio ambiente".
Com metade da área, os pastos já conseguem manter perto de 2 mil animais em regime de recria, o que significa uma ocupação em torno de quatro unidades por hectare ou cinco vezes mais do que a taxa observada antes do investimento. "Com manejo, podemos chegar a 2,5 mil bois por ano no mesmo espaço", afirma. O aumento da produção permitiu multiplicar a receita bruta por seis, em grandes números, saltando de R$ 348 por hectare/ano para R$ 2.088.
A vantagem veio, ainda, sob a forma de uma melhora mais do que proporcional na pegada de carbono da propriedade. Adotando metodologia reconhecida no mundo acadêmico, Petry estima que o volume de CO2 sequestrado de forma líquida, ou seja, descontadas as emissões, aumentou 13 vezes, saindo de 4.270 quilos por hectare ao ano para 55.665 quilos.
O trabalho iniciou-se, na verdade, antes da aquisição da terra, com análises detalhadas do solo, talhão a talhão. Depois da compra, a área de pastos foi gradeada, recebeu calagem para correção do Ph e adubação. Petry trocou o braquiária escolhido pelo antigo proprietário por capins das variedades massai e mombaça, com potencial produtivo mais elevado, mais adequadas às condições climáticas naquela região e, sobretudo, mais resistentes aos ataques de cigarrinha, praga comum por ali.
Até o final da década, as metas do programa deverão contemplar, segundo Caio Rocha, secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa): a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, num investimento estimado em R$ 33 bilhões; a implantação de 4 milhões de hectares com sistemas de integração lavoura, floresta e pecuária (dos quais 2,76 milhões de hectares pela agricultura familiar); a expansão da técnica de plantio direto para mais 8 milhões de hectares; o aumento de 50% na área de florestas cultivadas, com inclusão de mais em 3 milhões de hectares; além da introdução da fixação biológica de nitrogênio em 5,5 milhões de hectares, reduzindo ou eliminando o uso de fertilizantes nitrogenados, e o tratamento de 4,4 milhões de metros cúbicos de dejetos animais. Essas medidas deverão exigir crédito equivalente a R$ 157 bilhões até 2020.
Desde a safra 2010/2011, foram contratados R$ 8,162 bilhões, nas contas de Rocha, dos quais perto de 70% destinados ao financiamento da recuperação de pastos. "Vamos centrar o programa na recomposição de pastagens nas áreas mais críticas dentro da Amazônia Legal", afirma o secretário.
Para dar substância ao programa, ajustar seu alcance e aprimorar a contratação do crédito, ainda de acordo com Rocha, o governo vem reforçando sua divulgação e investe na capacitação de 300 agentes financeiros, numa parceria entre Mapa, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Febraban, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Embrapa.
O prazo entre a apresentação da proposta e a liberação do crédito, conforme Rocha, tem variado entre seis a oito meses e a meta é reduzir isso para 30 dias.
Em outra iniciativa, o Mapa e a CNA desenvolveram uma plataforma com uma centena de projetos técnicos, envolvendo ensaios e simulações diversas de impactos, que estará à disposição dos produtores com o objetivo de acelerar a análise e aprovação dos projetos pelos bancos. De acordo com Rocha, nos dois primeiros meses do ciclo 2014/15, julho e agosto, as contratações alcançaram R$ 425,1 milhões, 77% superiores às de mesmo período do ano passado.

Valor Econômico, 09/10/2014, Caderno Especial, p. F5

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