GM, Agronegocio, p.A1, B12
06 de Mai de 2005
Produtores interrompem construção de estradas
Pedra Preta (MT), 6 de Maio de 2005 - Soja em baixa e um câmbio desvaforável reduzem meta de pavimentação no Centro-Oeste. Um dos mais festejados exemplos de parceria entre o governo e a iniciativa privada, a construção de estradas no Mato Grosso com dinheiro dos agricultores está ameaçada.
O programa, que já asfaltou 763 km nos últimos dois anos - o equivalente à distância entre São Paulo e Florianópolis -, foi colocado em xeque com os baixos preços da soja e as oscilações da moeda. O câmbio tem papel importante porque, no cultivo da oleaginosa, os ativos são dolarizados: tanto o adubo, adquirido no ano passado a um câmbio de R$ 3,20, quanto a soja em si, que ontem foi negociada a uma taxa muito menor, de R$ 2,46.
Por conta das dificuldades financeiras, os produtores reduziram as metas de construção de estradas. Inicialmente, esperavam asfaltar 800 km, mas com a inadimplência batendo à porta a meta foi revista para 400 km.
"Apesar da redução, tenho confiança que as obras não vão parar, porque os benefícios superam em muito o investimento", diz o governador de Mato Grosso e maior produtor de soja do mundo, Blairo Maggi. "As estradas valorizam o preço das propriedades, reduzem os custos do frete e o desgaste das carretas e caminhões", afirma.
Os agricultores, no entanto, não estão tão confiantes. A inadimplência das obras deste ano chega a 30%. "Na minha região, a dívida com fornecedores, como a Petrobras, já chega a R$ 1 milhão", diz Orcival Guimarães, produtor de Lucas do Rio Verde, no centro do Mato Grosso.
Produtores interrompem construção...
Guimarães, que planta quase 20 mil hectares de soja, milho e algodão, diz que falta dinheiro até mesmo para a compra de cabines de pedágio e balanças rodoviárias para as estradas que já estão prontas.
Wesley Torres, administrador das obras que ligam as cidades de Campo Novo dos Parecis e São José do Rio Claro, diz que o consórcio dos agricultores esperava pavimentar 47 km neste ano. "Mas, diante das dificuldades, acho que só vamos conseguir asfaltar 22 km", afirma.
De um modo geral, o baixo preço da soja vai atrasar a conclusão das obras dos agricultores em um ano. "Os produtores rurais, que tinham como meta concluir o asfaltamento de 2 mil km até 2006, provavelmente cumprirão a meta somente em 2007", diz Luiz Antônio Pagot, secretário de Infra-estrutura do governo do Mato Grosso.
Em todo o estado, apenas três estradas já estão prontas, e começam a cobrar pedágio em julho próximo. Trata-se da MT-010 (São José do Rio Claro a Diamantino), MT-225 (Vera à BR-163) e MT-449 (Lucas do Rio Verde a Tapurah). Os produtores que contribuíram para a construção receberão cartões bônus para utilizá-la sem gastos adicionais. A arrecadação do pedágio (o preço é calculado entre R$ 2,35 e R$ 3,75 por eixo) será usada para a manutenção dos trechos.
Custo de produção
O drama dos agricultores pode ser entendido com a queda dos preços internacionais - por conta da supersafra americana - e a desvalorização do dólar em relação ao real.
O custo de produção é calculado em 50 sacas de soja por hectare. O valor não é calculado em reais, mas em sacas de soja, que é a moeda do produtor.
Com a seca no sul do estado e as chuvas na colheita no norte, a produtividade foi de 40 sacas. Ou seja, a produção não cobre os custos de cultivo.
Os reflexos disso já podem ser sentidos no interior do estado. Nas concessionárias de automóveis de Rondonópolis, as vendas estão paralisadas, apesar das faixas espalhadas pela cidade anunciarem "desconto de 8% para os produtores rurais". As revendedoras de tratores e colheitadeiras estão vazias. Só não faltam ligações de produtores querendo postergar o pagamento de parcelas do financiamento.
Maggi está se preparando para uma redução de 15% na arrecadação do ICMS. "Se uma fazenda vai mal, o agricultor e seus funcionários reduzem as compras", afirma.
GM, 06-08/05/2005, p. A1, B12
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