OESP, Agrícola, p. 4-5
20 de Jul de 2011
Produtores de MS integram lavoura e pasto
Programa estadual tem permitido aos produtores aumentar a renda e também recuperar áreas de pasto degradado
João Naves de Oliveira
Especial para o Estado
Milho safrinha por todo lado e, numa rua entre os talhões, uma máquina agrícola nova, recém-adquirida por R$ 400 mil. É um pulverizador de última geração. Há cinco anos, seria apenas sonho para um médio produtor. "Agora estou bem, com a redução contínua dos riscos da atividade", afirma o proprietário da Fazenda São Joaquim, em Maracaju (MS), Léo Renato Miranda. Ele ainda tem plano de instalar um sistema de irrigação por pivô central na propriedade de 1.200 hectares.
A melhoria das condições econômicas veio depois que ele deixou de plantar só soja e milho. "Em 1992 e 1993, a produtividade baixou muito", conta. "Colhia apenas 35 a 40 sacas por hectare e 50 de milho." Hoje, colhe 70 sacas de soja e 100 sacas de milho/hectare, em 950 hectares. "E mandamos para abate mil bovinos por ano."
Miranda faz parte de um contingente de quase 5 mil pequenos e médios agricultores de Mato Grosso do Sul que aderiram ao Programa de Integração Lavoura-Pecuária (ILP).
Conforme o agrônomo Dirceu Luiz Bruch, um dos profissionais responsáveis pelo programa, ânimo para aderir ao sistema não falta. E cita os números da Secretaria Estadual de Produção e Turismo de MS. "A cada mês, uma média de 70 agricultores adere ao programa."
Um dos mais recentes participantes é Alexandre Scaff Raffi, da Fazenda Boa Esperança, em Anastácio, município na borda do Pantanal. Na região predomina a pecuária de cria, recria e engorda. Em algumas fazendas, o teor de areia chega a quase 86%, fator que, com o novo sistema, não impede o desenvolvimento da agricultura, principalmente soja e milho.
Lotação. "Comecei há seis meses e já coloco três bois em 1 hectare, onde normalmente seria menos de um por hectare", diz. "Separei 100 hectares para a integração. É um pasto verdinho, dá dó em pensar que terei que derrubar tudo para produzir massa verde e fazer o plantio direto da soja, mas vamos fazer exatamente como mandam os técnicos", continua.
É uma das fases da integração. A primeira é a correção do solo com calcário, gesso e fósforo, após uma limpeza geral, com a retirada das raízes, por menores que sejam. Em seguida, passa-se a grade e depois semeia-se braquiária. Quando surge o pasto o gado entra, evitando, porém, o consumo das plantas até a raiz. É necessário, ainda, deixar o suficiente para a cobertura do solo, visando ao posterior plantio direto da soja. "Notei também que no pasto comum o gado engordava 300 gramas/dia. No espaço trabalhado, 500 gramas/dia."
Ciclo completo. O capim fica crescendo sob a lavoura. Após a colheita da soja ou milho, sobra o pasto para o gado. O ciclo completo da integração lavoura-pecuária é de quatro anos, desde a formação do primeiro pasto até a colheita da soja ou milho. Depois o processo retorna ao ponto inicial "É um processo onde a agricultura ampara a produção pecuária, e vice-versa, evitando prejuízos", diz o agrônomo Roney Pedrosa.
Como funciona
O PASSO A PASSO DA INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA
1 Correção do solo
Aplica-se calcário, gesso e fósforo, após uma limpeza da área, com retirada de raízes
2 Gradeação
A área é gradeada e em seguida semeia-se o pasto, normalmente braquiária
3 Introdução do gado
Quando o pasto se forma os animais entram, mas não devem comer o capim até o talo
4 Introdução de lavoura
Soja ou milho são cultivados sob a palha do pasto, que após a colheita viceja novamente
Satisfação
Leo Renato Miranda
Agricultor e pecuarista
"Colhia apenas 35 a 40 sacas por hectare e50de milho. Hoje, colho70 sacas de soja e 100 sacas de milho/hectare, em 950 hectares. E mandamos para abate mil bovinos por ano"
Área degradada é de 8 milhões de hectares
João Naves de Oliveira
O diretor executivo da Fundação MS - organização de pesquisa e assistência técnica mantida por produtores rurais -, Dirceu Luiz Bruch, explica que em Mato Grosso do Sul existem 8 milhões de hectares de áreas com pastos degradados.
Acrescenta que a situação piora ao constatar que "o pecuarista possui a maior parte de suas áreas com pastagem e faz uma pecuária extensiva, extrativista e de baixo investimento. Está, infelizmente, na cultura do pecuarista fazer pouco investimento na atividade", diz.
Com a integração lavoura-pecuária, Bruch explica que não existe mais necessidade de desmatamentos para melhorar ou aumentar a produção agropecuária, notadamente a pecuária. Aliás, acrescenta, é muito difícil manter uma pecuária isolada. Por meio da integração, o retorno do capital investido é mais rápido. Passados quatro meses do plantio, ocorre a colheita e a comercialização da soja. O fertilizante químico residual e o nitrogênio fixado pela soja produzem uma pastagem de alto vigor e valor nutritivo.
Assim sendo, com a agricultura na propriedade, há possibilidade de ter uma pecuária mais eficiente e lucrativa".
Os pesquisadores da Embraba Gado de Corte, com sede em Campo Grande, também estão concluindo um trabalho sobre integração lavoura-pecuária.
Módulos. São eles Armindo Neivo Kichel, José Alexandre Agiova da Costa e Roberto Giolo de Almeida. Conforme explicam, o sistema consiste em dividir a área da fazenda em quatro módulos, sendo que cada módulo é utilizado por dez meses, com lavouras de grãos e 14 meses, com pastagens.
Nos módulos com lavoura, 100% da área é cultivada com soja na safra verão, sendo que, na safrinha outono-inverno, metade da área é cultivada com milho consorciado com forrageiras e a outra metade formada com pastagem das mesmas forrageiras. Nos módulos com pastagem, esta é utilizada durante todo ano.
Assim, a área da fazenda ocupada com pastagens no inverno (julho a outubro) é de 100%, e no verão (outubro a março) é de 50%. As forrageiras utilizadas foram capim-piatã, no primeiro e no segundo anos, e capim-mombaça, no terceiro e no quarto anos.
OESP, 20/07/2011, Agrícola, p. 4-5
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110720/not_imp747143,0.php
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110720/not_imp747154,0.php
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