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Producao de couro vegetal enfrenta crise no Amazonas

A Critica, Economia, p.A15
29 de Ago de 2004

Produtos Florestais
Produção de couro vegetal enfrenta crise no Amazonas
Empresa Couro Vegetal da Amazônia, única compradora do produto, cancelou o negócio
Boca do Acre, AM (AE) - A especialista em compra de produtos florestais Ana Yang pegou um táxi-lotação em Rio Branco (Acre) e foi verde perto o que está acontecendo em Boca do Acre (Amazonas). Ana faz pós-graduação em economia social e meio ambiente na PUC-SP. Seu foco são negócios de produtos florestais não-madeireiros em comunidades amazônicas. Ela ouviu dizer que o couro vegetal, considerado o grande filão desse segmento, está em crise.
Wilson Manzoni, presidente da Apas, a associação dos seringueiros de Boca do Acre, confirma. Única compradora da produção, a empresa carioca Couro Vegetal da Amazônia S/A suspendeu o negócio em novembro por tempo indeterminado. Os seringueiros que viviam do produto estão atrás de alternativas.
O temor é que deixem a floresta e tomem o rumo de Terto Monteiro dos Santos, 51 anos, que está trabalhando no seringal de cultivo de um fazendeiro, perto da cidade, e melhor remunerado. 'Ele me convidou para dividira sorte com ele', conta Terto, referindo-se à parceria com o fazendeiro para limpar o seringal em troca da produção. Afixação dos povos e a conseqüente conservação da floresta é o apelo para a venda de produtos florestais, lembra Ana Yang, ex-compradora de produtos florestais para a indústria de cosméticos Natura. Ela está trocando a iniciativa privada por uma ONG, o mais novo nicho de mercado de trabalho para especialistas em marketing. A primeira lição para este tipo de empreendimento é que ele nunca será sustentável se contar só com um comprador', ensina. O caso do couro vegetal das comunidades do Sul do Amazonas e do Vale do Juruá, no Acre, é bem ilustrativo. 0 produto foi desenvolvido por seringueiros na segunda metade do século 19, quando descobriram que tecido de algodão, como os sacos de farinha, quando banhado em látex e defumado, fica impermeável como o couro animal.
Em 1991, o artesão Manzone apresentou o produto à estilista carioca Beatriz Saldanha. Associada ao construtor João Augusto Fortes, Beatriz fundou a empresa Couro Vegetal. Financiada pelo BNDES, a empresa aprimorou a tecnologia para produção do couro e investiu em designers para criação de peças de acessórios. Na Rio-92, o couro vegetal teve divulgação mundial como a oportunidade de redenção econômica dos seringueiros e, conseqüentemente, a salvação da floresta. Com a comercialização do couro, em vez da borracha bruta, os seringueiros passaram a ter ganho seis vezes maior, ou R$ 6,00 por um espelho de couro de 60 por 80 centímetros. Mas o negócio só deslanchou em 1999, quando a grife francesa Hermès fechou contrato com a empresa carioca no valor de US$ 50 mil. Já na primeira fornada, no entanto, a Hermès descobriu que . suas bolsas de US$ 1.500 esfarelavam. 0 contrato foi honrado, mas a técnica de produção está sendo repensada.

A Crítica, 29/08/2004, p. A15

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