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Previsões sombrias para um futuro não muito distante

O Globo, Amanhã, p. 16-17
Autor: RANDERS, Jorgen
29 de Jan de 2013

Previsões sombrias para um futuro não muito distante
Um dos autores do "Limites do Crescimento", Jorgen Randers lança nova publicação sobre como será o mundo nos próximos 40 anos

Entrevista: Jorgen Randers
Professor da escola de Negócios Norueguesa e autor do livro "2052 - Previsões Globais para os Próximos 40 Anos" (ainda sem tradução para o português)

JOÃO SORIMA NETO
joao.sorima@sp.oglobo.com.br

Qual é o máximo de habitantes que a Terra pode suportar, sem esgotar seus recursos naturais? Especialistas que se debruçaram sobre o tema estimam que este número estaria num intervalo entre quatro bilhões e 16 bilhões de pessoas. O livro "2052, a Global Forecast for the Next Forty Years" ("2052 - Previsões Globais para os Próximos 40 Anos, sem tradução para o português"), lançado recentemente pelo professor da escola de Negócios norueguesa, Jorgen Randers, aponta que a população mundial chegará a um limite máximo de 8,1 bilhões de pessoas em 2042. O livro ainda não foi lançado no Brasil e, por enquanto, não tem previsão de ser publicado por aqui. O problema é que o planeta não passará incólume a tanta gente. As emissões de gases que provocam o efeito estufa dobram a cada ano e devem elevar a temperatura da Terra em dois graus até 2050 e, em três graus, até 2080. O calor poderá afetar a produção de alimentos. Os recifes de corais podem sumir, assim como o atum. Especialista em traçar cenários futuros, Randers, junto com outros colegas do Clube de Roma - um grupo de notáveis que discute temas de interesse da humanidade - já tinha escrito sobre o futuro do planeta Terra na década de 70. O relatório "Os Limites do Crescimento" é uma das publicações de sustentabilidade mais vendidas da história e se tornou uma referência no assunto. O livro foi traduzido em 30 países.

Após escrever 2052, o senhor se sente otimista ou pessimista sobre o futuro?

A melhor descrição para o que sinto é tristeza. Tenho medo de que a humanidade decida criar um futuro muito menos atraente do que o que poderia ter sido alcançado com políticas mais racionais. Estou triste porque devemos tomar uma série de decisões erradas nas próximas décadas. E, como resultado, vai criar um futuro sem atrativos. A conclusão de 2052 é que as pessoas precisam continuar se esforçando para ter um futuro melhor, independentemente de previsões sombrias.

O senhor descreve no livro que já estamos queimando recursos além do limite oferecido pela Terra. Até onde isso vai e qual é o impacto?

Em alguns casos, veremos o colapso de alguns recursos antes de 2052. Um exemplo é a provável perda dos recifes de coral. Outra perda significativa será a do atum. O mais preocupante é que se aproxima um colapso global causado pela emissão contínua de gases. Estamos emitindo duas vezes mais gases que causam o efeito estufa a cada ano. Esses gases estão sendo absorvidos pelas florestas e oceanos. Isso vai piorar e o pico, pelas minhas previsões, deve acontecer até 2030. O efeito disso será um aumento significativo de CO² na atmosfera, com consequente aquecimento. E o aquecimento até 2080 irá desencadear mudanças climáticas ainda mais drásticas. O derretimento da tundra (um bioma da região do Ártico), emitindo enormes quantidades de gás metano, vai continuar a aquecer a atmosfera e derreter ainda mais esse bioma. É um processo que não vai parar até que toda a tundra derreta e o mundo se torne desagradavelmente morno. Eu não acho que a humanidade vá superar os limites de recursos como petróleo, alimentos, água, até 2052. Isso porque a economia global deve crescer muito mais lentamente do que a maioria das pessoas pensa. Assim teremos mais tempo para encontrar substitutos para os recursos escassos. E, mais importante, o Produto Interno Bruto (PIB) menor que o esperado significa uma redução do uso de recursos naturais.

Como a mudança climática pode afetar a capacidade da Terra de produzir alimentos?

O aumento do nível de CO² na atmosfera acelera o crescimento da planta. A fotossíntese acontece mais rápido quando há mais CO² ao redor. Se esse fosse o único efeito, seria positivo. Mas o CO² também leva a temperaturas mais elevadas, e o calor reduz o crescimento de plantas, na maioria dos lugares, com exceção da região Norte do planeta, onde o frio é o limitador. Nos próximos 30 anos, o efeito total do calor sobre a produção agrícola mundial será limitado. Mas depois a produção de alimentos vai começar a declinar porque o efeito do calor vai superar o efeito de CO². Não se sabe exatamente como a agricultura será afetada em localidades específicas. Há especulações de que as plantações de milho nos EUA e de trigo na Índia podem sofrer mais. Mas os agricultores vão mudar para outras culturas. E os consumidores terão de ajustar seu gosto para a nova produção. Eu acredito que o mundo vai ser capaz de fornecer o alimento que será exigido em 2052. O problema será, como agora, o fato de que muitas pessoas morrem de fome porque não têm dinheiro para comprar seu alimento. O fator dominante na cena mundial de alimentos será a pobreza, não as restrições de terra, água ou fertilizantes.

Existe alguma evidência de que os países vão tomar medidas para reduzir as emissões de gases que produzem o efeito estufa?

Sim. Alguns países da União Europeia, por exemplo, têm feito cortes nas emissões desde o acordo firmado em 1990. Mas a maioria dos países têm feito pouco ou nada. Os EUA aumentaram suas emissões em 16% entre 1990 a 2010. O resultado total é que as emissões globais de gases que provocam o efeito estufa cresceram mais rapidamente nos anos 2000 do que na década de 1990 - apesar de todas as conversas sobre o tema. É um fato triste que a ação de alguns países responsáveis não seja suficiente para compensar o aumento das emissões de todas as outras nações. Assim, mesmo após um corte de 8% nas emissões na União Europeia, as emissões globais em 2010 foram 45% maior do que foram há dez anos, em 1990.

O senhor fez parte do grupo que escreveu o livro Limites do Crescimento, de 1972. Quarenta anos depois, por que decidiu escrever 2052?

Primeiro, porque nós os autores de "Limites do Crescimento" havíamos prometido este livro. Mas, mais importante ainda, porque depois de ter trabalhado por quatro décadas tentando salvar o mundo da insustentabilidade global, com sucesso limitado, eu tinha ficado muito curioso sobre o que vai realmente acontecer nos próximos 40 anos. Eu queria saber em que condições vou passar os últimos anos de minha vida. E me dá uma certa paz saber, porque 2052 simplesmente contém a descrição do que eu acredito que vai acontecer.

O Globo, 29/01/2013, Amanhã, p. 16-17

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