OESP, Especial, p. H6
19 de Set de 2009
Pretos e pardos já são maioria absoluta no País
Participação de negros e brancos na população caiu, enquanto as de mestiços, amarelos e índios aumentou
Wilson Tosta, Rio
A Pnad 2008 apontou que no ano passado, pela primeira vez, mais da metade da população brasileira - 50,6% dos habitantes, ante 50% em 2007 - se declarou parda ou preta. Com uma peculiaridade: na pesquisa, a participação das populações negra e branca no total de brasileiros recuou, enquanto as de mestiços e outros (que abrange amarelos e indígenas) cresceu.
Em 2007, o número de pretos tinha crescido em comparação com 2006, em movimento atribuído por especialistas às políticas de ações afirmativas, como reservas de vagas em universidades públicas para afrodescendentes. Em 2008, contudo, a curva se inverteu, embora o crescimento dos pardos tenha persistido - o grupo também é, em geral, beneficiado pelos mesmos instrumentos que os negros.
A sondagem apontou que, em 2007, 42,5% dos brasileiros se diziam pardos, porcentual que subiu para 43,8% em 2008. Os pretos, contudo, reduziram sua participação na população nacional de 7,5% para 6,8%.
Houve ainda crescimento dos entrevistados que classificaram sua condição étnica como "outra" - que passaram de 0,8% para 0,9% dos habitantes do Brasil. Já os que se dizem brancos reduziram sua presença na população - em tendência já observada em pesquisas anteriores - de 49,2% para 48,4%.
"O que vínhamos detectando é que cada vez mais brancos começavam a se declarar pardos, porque aumentava a consciência do seu pertencimento; as últimas Pnads já refletiam esse aumento", disse o pesquisador Renato Ferreira, do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). "Agora, o fato de pretos se declararem pardos não costumava acontecer. Esse indicador nunca acelerou muito. A oscilação apontada (entre os que se dizem pretos) não é tão grande. Pode ser alguma coisa estatística. O que continua valendo é que está aumentando a consciência das pessoas."
Somente a Região Centro-Oeste registrou queda na proporção de pessoas que se dizem pardas, de 2007 para 2008, de 50,9% para 50,2% (0,7 ponto porcentual a menos). Nas demais, houve crescimento. A Norte foi a região com a maior expansão, de 68,3% para 71%. Em seguida, veio o Sudeste, de 32,4% para 34,4%. Mesmo o Sul, onde predominam descendentes de imigrantes de origem europeia, registrou aumento de pardos, de 16,4% para 17%.
Já os pretos recuaram sua participação em todas as regiões: Norte (5,5% para 5,1%), Nordeste (8,5% para 7,9%), Sudeste (8,4% para 7,7%), Sul (4,3% para 3,5%) e Centro-Oeste (6,6% para 6,5%).
Os autodeclarados brancos registraram recuo no Norte (24,7% para 22,9%), no Nordeste (29,4% para 29,3%) e no Sudeste (58,3% para 56,8%). Aumentaram, porém, sua presença no Sul (78,6% para 78,7%) e no Centro-Oeste (41,1% para 42,2%).
Os entrevistados que se declararam de outra condição étnica, curiosamente, reduziram sua participação em regiões onde os descendentes de índios têm presença marcante: Norte (de 1,5% para 1%) e Centro-Oeste (1,4% para 1%). Houve aumento no Nordeste (0,5% para 0,6%), Sudeste (0,9% para 1%) e Sul (0,7% para 0,8%).
Ferreira avalia que a profusão de discussões sobre a questão étnica no Brasil, envolvendo sobretudo as políticas de ação afirmativa, tem levado muitos não-brancos a se questionarem sobre sua condição racial de maneira positiva. "O debate passou a ter mais espaço na mídia."
Para ele, até os opositores das políticas de ação afirmativa contraditoriamente contribuíram para aumentar a consciência de antigos "brancos" que passaram a se reconhecer como pardos. "A própria reação de grupos minoritários às políticas de ação afirmativa tem despertado nas pessoas o desejo de, pela primeira vez, relatar o seu pertencimento racial, como reação a isso", diz. "Os opositores das políticas dizem que viveríamos em uma fase pós-racial, que racismo, no Brasil, não existe. Empiricamente, a Pnad está mostrando que não."
''Brasil é mestiço e multicolorido''
Alberto Komatsu
Nem preto, nem pardo, branco, amarelo ou indígena. O Brasil é "mestiço e multicolorido". Essa é o resultado de uma rápida enquete feita ontem pelo "Estado" no centro do Rio, com 12 pessoas. Ao serem informadas sobre a pesquisa do IBGE indicando que 50,6% da população é constituída de pretos e pardos, os entrevistados não titubearam ao responder qual, na sua opinião, era a cor do povo brasileiro.
"Não diria que o Brasil é preto, pardo ou branco. É multicolorido, com faces e cheiros diferentes", afirmou a artista de rua Fernanda Fonseca Machado, de 29 anos. "Eu sou morena; no registro sou parda, mas me sinto negra."
Também artista de rua, Marivaldo de Souza, de 39 anos, afirma ser moreno e todos os dias trabalha com o rosto maquiado com tinta branca, característica do seu personagem. "O Brasil é um país mestiço. Tem de tudo um pouco."
Um "misto de cores" é como vê o Brasil o casal Tatiana Oliveira e Wanderley Ataide. Ela, de cor preta, e ele, branco, têm um filho de 7 anos e afirmam que, quanto mais mistura de cores, melhor.
O advogado Marcos Ferreira, de cor preta, rechaça a classificação por cores. "O Brasil é pardo, fruto de uma miscigenação bastante intensa e visível." Zilda Rosa Nogueira resume: "Todo mundo é igual".
OESP, 19/09/2009, Especial, p. H6
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