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Pressão por Amazônia vai crescer rápido, diz físico

Valor Econômico, Primeira Página e Brasil, p. A1 e A3
07 de Mai de 2021

Pressão por Amazônia vai crescer rápido, diz físico
Para ativistas, frear mudança no clima requer vontade política

Por Gabriel Vasconcelos
Do Rio 07/05/2021

A pressão internacional para que o governo brasileiro detenha o desmatamento na Amazônia vai crescer rapidamente e por uma razão clara: se toda a floresta queimar, haverá aumento de até 6oC na temperatura do planeta, quando a meta global é uma variação de até 2oC neste século.

A afirmação foi feita ontem na Live do Valor pelo físico Paulo Artaxo, que integra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC). Também participaram o cineasta Fernando Meirelles e a universitária e ativista do Instituto Socioambiental (ISA) Paloma Costa.

Para os três, com a profusão de tecnologias para evitar emissões de gases-estufa nos últimos anos, a questão climática se resume a um problema de vontade política: embora os principais chefes de Estado reconheçam a gravidade do problema, não apresentam receituário claro sobre o cumprimento da meta de carbono zero até 2050.

"Não existe maneira mais barata, rápida e simples de reduzir emissões de carbono do que diminuir a queima de florestas tropicais", disse Artaxo. "Não caiu a ficha dos brasileiros de que a Amazônia contém 120 bilhões de toneladas de carbono em suas árvores, e isso equivale a dez anos de queima de todos os combustíveis fósseis do planeta.

Ou seja, se isso for para a atmosfera, 'tchau, tchau' para todos nós", afirmou. O governo Jair Bolsonaro, no entanto, ignora o contexto de preocupação, diz Paloma, do ISA. Ela aponta a inocuidade da estratégia do Planalto de pedir ajuda financeira internacional para agira na Amazônia, em paralelo a ações que corroeram a credibilidade construída em fóruns como a Eco92 e a Rio+20. "O plano de prevenção e controle do destamento na Amazônia sofreu retrocessos e não está sendo aplicado. Existem recursos para o clima e para a Amazônia que não são usados, que estão congelados em fundos", disse.

Um deles, o Fundo Amazônia, tem cerca de R$ 2 bilhões parados devido a desentendimentos sobre sua governança entre os países doadores, Noruega e Alemanha, e o governo federal. Os argumentos baseiam ação de litígio climático contra o governo federal no Supremo Tribunal Federal (STF), de autoria de partidos políticos e organizações não governamentais. Única brasileira entre os sete jovens conselheiros do secretário-geral da ONU, António Guterres, Paloma conta que o grupo tem pressionado pela obrigatoriedade de preservação de ecossistemas naturais, além diversidade nas esferas de decisão ambiental.

Ela argumenta que, a despeito dos avanços no diálogo multilateral nos 26 anos que sucederam a primeira conferência da ONU para o clima (CoP1), em Berlim, houve pouca ação efetiva, o que atribui a uma "crise estrutural" refletida na morosidade dos tomadores de decisão, na mira da juventude. Meirelles, que tem se dedicado à temática ambiental - tem uma agrofloresta, um projeto de ficção voltado a adolescentes com pano de fundo sobre mudança climática e prepara uma série documental sobre soluções ao meio ambiente -, insistiu que a saída é pelo voto e políticas de Estado que interrompam o subsídio a combustíveis fósseis e precifiquem emissões de carbono.

O preço do poluente, afirmou, deveria ser agregado ao de produtos consumidos no dia a dia para inibir emissões. O cineasta se disse cético às promessas de chefes de Estados na recente Cúpula de Líderes sobre o Clima, como o do próprio presidente americano, Joe Biden, que fez discurso assertivo e antecipou metas de redução de até 52% nas emissões do país até 2030, mas não tocou no tema dos subsídios à indústria do petróleo. Artaxo questiona como se poderá alcançar neutralidade em carbono até 2050 sem modificar a indústria de alimentos, "hoje responsável por 30% das emissões mundiais" e que terá a demanda turbinada por uma população global de 10 bilhões. "Como eletrificar a frota de automóveis do mundo inteiro?

Temos recursos naturais para fazer isso do ponto de vista de minerais estratégicos [para baterias]?" Prova do descompasso entre retórica e ação, diz o físico, é o fato de que em 2020, quando a pandemia derrubou a atividade econômica, as emissões globais caíram só 3%, quando teriam de recuar 5% todo ano entre 2020 e 2050 para garantir o teto de elevação da temperatura em 2oC.

Valor Econômico, 07/05/2021, Primeira Página e Brasil, p. A1 e A3.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/05/07/pressao-por-amazonia-…

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