VOLTAR

Preservar a natureza

CB, Opinião, p. 25
Autor: FALCÃO, Dom José Freire
05 de Jun de 2004

Preservar a natureza

José Freire Falcão
Cardeal arcebispo emérito de Brasília

É do começo do século passado o movimento voltado para a proteção e a salvaguarda da natureza. Pelo vocábulo natureza, em seu significado usual, entende-se o conjunto do mundo físico, antes e independente da intervenção humana.
Tem crescido em nossos dias a consciência dos danos da poluição, bem como do esgotamento rápido das riquezas naturais, comprometendo o futuro do homem na Terra (Clube de Roma). Preocupação válida, sem dúvida. Mas se chega ao extremo de idealizar a natureza. Seria excelente, até mesmo perfeita, sem a ação humana. Especialmente, o crescimento populacional estaria contribuindo para sua destruição. Daí que se advoga o controle da população por qualquer método e por quaisquer meios.
Chega-se, também, a pregar a volta à natureza. Expressão ambígua. Inaceitável, se por essa volta se entende que o homem deve abster-se de nela intervir. A reação cega e irracional da sociedade do lucro e do consumo serve também de bandeira ao combate da ação do homem sobre a natureza, com o sacrifício do progresso técnico -científico.
Os defensores exaltados da ecologia contestam qualquer intervenção na natureza, como o desvio de um curso d'água ou a destruição de algumas árvores, mesmo quando indispensável a uma obra de engenharia em benefício de uma população.
Esquecem-se que a natureza é ambígua. Pode conduzir a Deus ou contribuir para a decadência da criatura humana. 0 respeito idolátrico da natureza é uma volta ao mundo greco-romano, cuja visão cosmocêntrica colocava a natureza acima do homem e dos deuses. Pseudo correntes religiosas, em nosso tempo, por confundirem a natureza com Deus, a subtraem do domínio a serviço do homem.
Não há oposição entre Deus e a natureza. Mesmo porque Deus é o seu criador. A natureza não é rival de Deus. Nem se confunde com ele. Doutra parte, a natureza é imperfeita. Graças à ciência e à técnica e ao poder criador do homem, pode ser melhorada e enriquecida. Torna-se mais bela e mais útil ao homem.
Brasília é um exemplo. As árvores do cerrado destruídas para sua construção, com o sacrifício de alguns cursos d'água, foram substituídas por outras mais frondosas e úteis. Seu pobre solo se cobriu de uma grama encantadora, ornada de flores e de espelhos d'água. A própria arquitetura grandiosa de Brasília e suas obras de engenharia são grandiosas molduras do cerrado.
Evidentemente, seria pôr em jogo a existência do homem na terra a ação absoluta e irracional do homem sobre a natureza. É preciso preservá-la, mas com sensatez e equilíbrio. Na perspectiva da revelação divina, a natureza manifesta a glória de Deus. Diz o salmista: "0 céu e a terra proclamam a glória de Deus" (119,1). No judaísmo primitivo, o homem é chamado a agir sobre a natureza e não está submetido à sua fatalidade.
Ao homem, Deus confiou a natureza para que a domine, dela tome posse e seja mediador em sua volta para Ele (Gen. 1,26-28; 4, 1-2, 7). Ao utilizar a natureza e dominar suas energias, o homem prolonga a obra da criação, a frutifica e a desenvolve, colocando-a ao seu serviço e ao seu crescimento. Transformando a natureza, o homem cumpre um mandamento de Deus.
No ensinamento do Novo Testamento, a criatura foi submetida à vaidade e entregue à servidão da corrupção. Geme em trabalho de parto (Ro. 8, 20 e 22). Em virtude do pecado do primeiro homem, a natureza toda foi afetada. Mas foi resgatada pela morte e ressurreição de Cristo, e submetida aos desígnios benevolentes de Deus de "ligar todas as cousas sob um único chefe, Cristo" (Ef. 1,10), no qual tudo deve ser reconciliado (Col. 1,20). Os textos neotestamentários falam de uma criação nova (2 Cor. 5,7) e de uma terra nova (Ap. 21, 1-5; 1 Pd. 3,13).
A natureza, maravilhoso dom de Deus à humanidade, é graça para a criatura humana quando sabe usá-la em seu proveito com equilíbrio e sensatez, sem submeter-se a ela e sem dominá-la de modo absoluto e insensato.

CB, 05/06/2004, Opinião, p. 25

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.