O Globo, Opinião, p. 16
02 de Dez de 2016
A preocupante retomada do desmatamento na Amazônia
O Brasil tem o dever de reagir. Estão em jogo questões ambientais próprias e o compromisso do país com o Acordo de Paris
Em 2004, a Amazônia atingiu um pico de desmatamento que devastou, somente naquele ano, uma área de 27,7 mil quilômetros quadrados. Preocupantes, o tamanho da devastação e o ritmo - então em alta constante - da perda de árvores levaram à adoção de uma série de medidas de preservação ambiental, que lograram derrubar a taxa de desflorestamento, três anos mais tarde, a um nível, ainda não aceitável, mas de qualquer forma mais baixo, de 11 mil quilômetros quadrados.
Sinais, em 2008, de que a curva de desmatamento retornava ao perfil anterior provocaram nova reação na política de preservação, com medidas (embargo de áreas desmatadas, criação de lista de municípios "sujos", alterações na política de crédito agrícola e do Cadastro Ambiental Rural) que conseguiram manter o ritmo de queda - de tal modo que, em 2012, a região alcançou, com uma área desflorestada de 4,5 mil quilômetros quadrados, o mais baixo nível de devastação desde 1998, o início da série histórica.
Era um avanço inegável num país que ainda é o que mais desmata no mundo. A notícia ruim em meio a esperanças de que o Brasil estaria a caminho de se desfazer dessa imagem, ou ao menos melhorar a posição no ranking das nações "sujas", é que 2016 vai se encerrar com números novamente condenáveis. Desde o ano passado, o desmatamento na Amazônia vem disparando, atingindo, segundo o balanço anual do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma área de 7,9 mil quilômetros quadrados.
É preciso alinhar as causas que reconduzem a um perfil e a uma tendência de devastação que se esperava estarem superados. O afrouxamento das políticas de combate ao desmatamento, entre 2012 e 2015, está entre elas - como a anistia de multas ambientais, leniência na preservação de áreas protegidas etc. O peso de uma particularidade conjuntural - o vácuo de poder entre o processo de impedimento de Dilma Rousseff e a assunção de Temer, período em que sintomaticamente aumentou o ritmo de derrubada de árvores na Amazônia - também é fator considerável.
Causas e responsabilidades à parte, o Brasil tem o dever de reagir. Estão em jogo questões ambientais próprias e o compromisso do país com o Acordo de Paris, de reduzir as taxas de emissão de gases que contribuem para o aquecimento global, fruto de desmatamento. Os números sinalizam que nos distanciamos cada vez mais dele.
O Globo, 02/12/2016, Opinião, p. 16
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