Correio Braziliense-DF
Autor: Paloma Oliveto
14 de Nov de 2005
Mais de 500 anos após a ação de padres jesuítas, a cultura dos índios brasileiros está novamente ameaçada por crenças religiosas do homem branco. Agora, são missionários ligados a igrejas evangélicas que aproveitam a ausência do Estado em várias aldeias para prestarem assistência social e, ao mesmo tempo, propagarem a religião cristã entre os indígenas. Para evitar um novo etnocídio, a Fundação Nacional do Índio (Funai) vai recadastrar, até o final do ano, as missões que atuam entre essas populações. Uma das motivações do órgão foi a ação dos agentes da Jovens com uma Missão (Jocum), que em abril retiraram da aldeia oito índios zuruahá - considerados totalmente isolados e tutelados pelo estado - sem a autorização do governo e os levaram para São Paulo.
Na sede da Funai, há 54 missões religiosas cadastradas, mas o número pode ser maior, já que muitos missionários conseguem se infiltrar entre os indígenas, sem o conhecimento do órgão. Com um orçamento anual de pouco mais de R$ 100 milhões, a fundação reconhece a dificuldade de fiscalizar todas as 257 terras indígenas do país. E também assume que as missões acabam encontrando brechas nos lugares onde a assistência do governo é falha. "As missões não têm como finalidade levar saúde e educação aos índios. O que querem é 'salvar almas'. Terminam fazendo trabalhos pontuais nessas áreas como moeda de troca", acusa o indigenista Izanoel Sodré, coordenador regional da Amazônia Ociental.
Segundo a Funai, a estratégia dos missionários é contactar pequenos grupos, que acabam levando a religião para dentro das aldeias. O modelo jesuíta de traduzir a Bíblia para as línguas indígenas ainda é adotado pelas organizações, como forma de aproximação cultural. Em alguns casos, a resistência é grande.
Proibições
Durante cinco anos, o mairuna André Chapiama foi atraído por missionários da Assembléia de Deus e da Igreja Batista. Para isso, teve de abandonar sua cultura. "Eles não deixavam de jeito nenhum a gente se pintar nem fazer nossos rituais", conta. André tentou ajudá-los a construir templos dentro da aldeia, próxima a Atalaia do Norte (AM), mas os pajés destruiram as obras. "Era uma minoria que aceitava a religião evangélica", conta o índio, que desistiu da igreja dos brancos. "Hoje não freqüento mais, tenho a crença do meu povo", garante.
Donos de um dos rituais funerários mais bonitos e misteriosos dos índios brasileiros, os bororo, nação que vive no Mato Grosso, foram, há 100 anos, proibidos de seguir sua cultura e falar a língua própria, depois que os padres salesianos começaram a evangelizar a etnia, em 1910. Hoje, a igreja católica continua presente entre eles, mas não interfere nos ritos. Os bororos conseguiram recuperar as tradições e voltaram a realizar funeral. "Agora, os xamãs tentam resgatar a cultura, mas continua havendo missas dentro das aldeias", critica o xavante Jurandir Siridiwê, presidente do Instituto das Tradições Indígenas, organização não-governamental que promove o patrimônio cultural indígena.
Siridiwê, que trabalha em um projeto de revitalização da cultura dos bororo, conta que, entre os xavante, a investida das missões também é grande. "Das oito reservas, apenas duas não têm contato com missionários", diz. "O resto, fala e canta em gospel. É muito contraditório com as tradições dos nossos povos", critica.
Pecado
"Esse tipo de evangelização está acabando com a nossa cultura", decreta Marinaldo Macuxi, coordenador do Conselho Indigenista de Roraima. Ele diz que os missionários evangélicos impõem a religião à medida que trabalham junto às comunidades a noção de pecado. "Na cultura indígena, não existe pecado. Mas eles dizem que comer determinada comida é pecado, beber um tipo de bebida é pecado, fazer um ritual é pecado. Isso é um absurdo, eles não podem interferir", diz.
Marinaldo reconhece, porém, a importância de uma missão católica, o Conselho Indigenista Missionário, na luta pela homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol. "Eles (do Cimi) não fazem interferência cultural, respeitam nossas tradições", avisa.
O coordenador da regional norte do Cimi, Günther Loebens, diz que, hoje, a Igreja Católica não presta mais o papel de conquistadora espiritual dos índios, como fez no passado. "Nosso interesse é defender a vida e a cultura dos povos. Tentar substituir as crenças indígenas por outros valores é uma agressão", reconhece.
Preocupada com a catequização de índios, Funai vai recadastrar os grupos religiosos que atuam no país
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