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Prefeito usa crise para emplacar sucessora

OESP, Vida, p. A23
30 de Mar de 2008

Prefeito usa crise para emplacar sucessora
Ele organizou frentes para ocupar desempregados das madeireiras

Lisandra Paraguassú

Todos os dias, antes das 7 horas, 600 moradores de Tailândia (PA) encontram-se em frente à prefeitura, vestem camisetas laranja e cantam o hino nacional antes de sair para o trabalho. A cena de civismo programado foi idéia do prefeito do município, Paulo Jasper (PSDB), mais conhecido como Macarrão, que decidiu contratar desempregados pelo fechamento das madeireiras para uma frente de emergência que varre e capina ruas, pinta calçadas e recolhe lixo.

Os 600 escolhidos para o trabalho também têm que ostentar a marca do prefeito em suas camisetas. Elas são de cor laranja, como a da sua campanha, com o símbolo de sua administração na frente e seu lema de campanha - "Trabalho e Cidadania - às costas.

As carroças de apoio às frentes, contratadas da Associação de Carroceiros de Tailândia - também pintadas de laranja -, trazem os símbolos do prefeito e a inscrição "apoio: Hígia Frota". Ela é a secretária de Ação Social da cidade.Mais do que isso, é a mulher do prefeito Macarrão, que planeja vê-la candidata a qualquer cargo eletivo.

Em segundo mandato, ligado aos madeireiros da região, pouco habituado a passar muitos dias no seu próprio município, mas disposto a tentar eleger seu sucessor, Macarrão faz o que pode para transformar a crise em um momento político a seu favor. Uma das suas promessas de campanha foi a de que, enquanto fosse prefeito, não haveria fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Tailândia.

De fato, até agora Macarrão havia conseguido. Como se queixou um contador da cidade, Luiz Cláudio Bonneman, antes o Ibama avisava quando a fiscalização viria. "Essa agora veio sem dar oportunidade para ninguém. Antes o Ibama vinha aqui, conversava, explicava o que era preciso para regularizar. Só depois vinha a fiscalização", diz. Agora, com esse apoio perdido, Macarrão tenta descobrir para onde ir.

No dia em que a Polícia Federal e o Ibama iniciaram a Operação Arco de Fogo, fazia quase 15 dias que o prefeito estava fora. Chegou três dias depois dos fiscais, trazendo políticos - deputados federais e estaduais - para falar em um palanque montado em frente a uma escola. Seu primeiro ato, organizado pela mulher Hígia, foi a distribuição de 3,5 mil cestas básicas. Compradas com recursos da prefeitura, foram distribuídas em frente a sua casa, uma enorme fazenda às margens da rodovia PA-150, a seis quilômetros do centro de Tailândia, com pista de pouso particular e um hangar com dois aviões.

ESTADO DE EMERGÊNCIA

Na última quarta-feira, Macarrão decretou estado de emergência em Tailândia. Passou quase toda a semana na capital, Belém, onde estaria negociando com o governo do Estado ações para tentar ajudar sua cidade. Procurado pela reportagem, o prefeito não quis falar. Sua chefe-de-gabinete, Maria de Jesus, informou que ele estava muito ocupado para atender ao telefone. Em seu nome, Maria de Jesus, mais conhecida como Preta, acusa o governo federal e a imprensa de fazer de Tailândia um bode expiatório.

De acordo com o Ministério Público do Pará, Macarrão não só sabia das irregularidades, como está sendo investigado. Numa apuração em andamento o MP investiga se o prefeito faria parte de um grupo acusado de criar de forma irregular seis projetos de manejo e licenciamento ambiental para lavar madeira ilegal. Nas terras onde os projetos estariam instalados não existe sequer uma árvore há mais de 15 anos. O grupo teria usado papéis para esquentar madeira ilegal.

O nome de Macarrão não aparece diretamente nos projetos. No entanto, dois deles estão em nome de um funcionário da prefeitura e sócio do prefeito em outras fazendas e um outro projeto em nome de um cunhado de Macarrão.

Os projetos foram aprovados pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente na gestão de Raul Porto, preso em março do ano passado durante a Operação Ananias, da Polícia Federal. Porto é acusado de envolvimento em atividades ilegais de madeireiras, o que ele nega. Os papéis da autorização dos projetos sumiram da secretaria.

OESP, 30/03/2008, Vida, p. A23

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