OESP, Economia, p. B8
01 de Jul de 2012
Preços das terras agrícolas disparam
Pesquisa mostra que as cotações das terras para o agronegócio subiram 16,5% em 12 meses e 50% nos últimos três anos
MÁRCIA DE CHIARA
Puxados pela disparada das cotações dos grãos, especialmente da soja, e pela queda nos juros, os preços médios das terras para o agronegócio no País subiram 50% em três anos, com aceleração maior nos últimos 12 meses. A tendência é as cotações continuarem em níveis elevados, apesar da desaceleração da agricultura, que afetou o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre.
Entre março de 2011 e abril deste ano, a valorização média da terra no País foi de 16,5%, segundo pesquisa da Informa Economics FNP, consultoria especializada em agronegócio. A alta de preços é mais que o triplo da inflação acumulada no período, de 5,1%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em abril deste ano, o preço médio de um hectare estava em R$ 6,7 mil. "É a maior cotação média registrada pela pesquisa, que começou a ser feita em 2002", afirma Nadia Alcantara, gerente técnica da Informa Economics FNP. Os preços são coletados a cada bimestre com corretores, técnicos agrícolas especializados em avaliação patrimonial e agências do Banco do Brasil, em todos os municípios do País.
A pesquisa mostra que a região mais valorizada em 12 meses foi a de terras para soja em Sinop (MT), onde o preço subiu 73,3% até abril, de R$ 9 mil para R$ 15,6 mil o hectare. Em seguida vem a terra para cana no Espírito Santo, com alta de 54% no período, de R$ 6,5 mil para R$ 10 mil o hectare. As terras mais valiosas do País estão em Santa Catarina, na região de Itajaí. Ali, um hectare para produção de uva, geralmente em pequenas propriedades, sai por R$ 43 mil. Neste caso, a valorização em 12 meses até abril foi de apenas 2,5%.
Passado esse boom das cotações, a perspectiva é que os preços das terras fiquem estáveis, concordam pesquisadores e corretores. Um forte indício de que a tendência é a sustentação das cotações em níveis elevados é o número de negócios fechados. Hoje, poucas transações de compra e venda ocorrem e o motivo é a escassez de ofertas.
Os potenciais vendedores adiam os negócios, pois acreditam que conseguirão preços ainda maiores, especialmente no caso de terras para soja, diz Nadia. Isso porque, apesar do ritmo mais lento da economia, aqui e no exterior, a perspectiva é que a demanda por comida não recue. "A oferta de terras é limitada e a necessidade de produção de alimentos continua."
Também o fato de parte da crise atual ser de confiança no sistema financeiro contribui para o fortalecimento do mercado de terras. A terra acaba sendo um porto seguro para o investidor. "A desaceleração da economia não afetou o mercado de terras", afirma o corretor Atílio Benedini, dono da imobiliária Atílio Benedini Agronegócio, de Ribeirão Preto (SP), polo produtor de cana. Ele observa que, quando a taxa de juros cai, o preço da terra sobe.
"Cair não cai", diz o corretor Claudinei Pereira, da Império Imóveis, de Guarapuava, importante município produtor de soja e milho do Paraná, referindo-se aos preços de terras do município com 80% de aproveitamento para a agricultura.
A pesquisa mostra que, em Guarapuava, o avanço da soja sobre as áreas de pecuária puxou as cotações das terras tradicionalmente destinadas à engorda do gado, agora voltadas para a agricultura. Em 12 meses até abril, o preço do hectare subiu 70%.
Vizinhos. "Na última semana começou a sair negócio", diz Pereira. Ele intermediou duas transações, uma que envolveu 400 hectares e a outra, de 360 hectares. O preço médio foi de quase R$ 50 mil o hectare.
O corretor conta que, após um longo período sem negócios, eles começaram a acontecer. O que assustou inicialmente os compradores foi o preço elevado da terra que, na região, é indexado à cotação da soja. A saca de soja de 60 quilos hoje vale entre R$ 60 e R$ 70, nível considerado elevado. "No mês passado, o produtor entregou a safra e teve de colocar o dinheiro em algum lugar", diz o corretor.
Ele acrescenta que os negócios fechados foram entre produtores vizinhos. Nesse caso, o desejo de comprar uma determinada área já vem sendo alimentado há algum tempo. "Por isso, o comprador aceita pagar um pouco mais pela terra."
Em Ribeirão Preto, Benedini diz que o mercado continua paralisado por falta de oferta. "Quem procura uma área de 100 alqueires (242 hectares) para comprar não acha." As áreas mais cobiçadas são as localizadas nas redondezas de usinas sólidas.
Alta da soja e incertezas puxam as cotações
Principal produto de exportação da agricultura brasileira, a soja dita o preço da terra no País. E hoje as cotações do grão superam níveis recordes. Na semana passada, por exemplo, a soja superou US$ 14 por bushel na Bolsa de Chicago e a marca histórica gira em torno de US$ 8.
Segundo o analista de grãos da Informa Economics FNP, Aedson Pereira, esse patamar elevado de preços reflete a perspectiva de redução da safra dos Estados Unidos, apontada em relatório recente do Departamento de Agricultura americano.
No caso do milho, o quadro é semelhante. Afetada por problemas climáticos, a produção americana de milho deve recuar e os estoques dos Estados Unidos são os mais baixos em 16 anos. Com isso, as cotações do grão na Bolsa de Chicago passam de US$ 6 por bushel, superando a média histórica de US$ 4.
Esse movimento de alta dos preços dos grãos, especialmente da soja, tem reflexos diretos no preço da terra. Quando o preço da soja sobe, a terra vai atrás. "Mas nem sempre quando cai a terra vai junto", diz o analista. Neste caso, a tendência é o preço da terra ficar estagnado e manter a valorização conquistada no período anterior. A razão para esse movimento, explica Pereira, é que a terra é um ativo que funciona como reserva de valor.
Domínio. Hoje, a soja baliza os preços não só das terras para grãos, mas de cana e pastagem.
"A soja é o principal indexador de preços da terra", diz Pereira. Com a expansão da área de produção de cana para regiões tradicionalmente produtoras de soja em Goiás, ele explica que a conta que o mercado faz na hora de fixar o preço da terra para a cana considera o quanto renderia se estivesse produzindo soja. Raciocínio semelhante ocorre no caso da pecuária de corte que, em algumas regiões, cedeu lugar para a lavoura de soja./M.C.
Preço subiu 75% em dois anos em Sinop, no Mato Grosso
Leonildes Bares, que produz soja no município, diz que regras ambientais limitam o uso da terra, o que inflaciona a cotação
FÁTIMA LESSA/CUIABÁ
ESPECIAL PARA O ESTADO
O preço da terra em Sinop, no norte de Mato Grosso, aumentou 75% entre 2010 e 2012. Em 2010, o hectare valia entre R$12 mil e 13 mil. Em 2011, subiu para R$ 15 mil e, em março deste ano, atingiu R$ 21 mil, segundo pesquisa do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Leonildes Bares, produtor de soja em Sinop, diz que as limitações ambientais para abertura de áreas agrícolas acabam valorizando ainda mais as áreas já usadas para agricultura.
Além das regras que limitam o avanço da agricultura e contribuem para a valorização da terra, Bares acredita que a escassez de alimentos é outro fator que deve fazer com que o preço da terra suba ainda mais. "É uma tendência mundial a valorização de terras destinadas à produção de soja e milho."
Mato Grosso tem 62% do território (56,02 milhões de hectares) preservados, sendo que deste total dois terços estão nas propriedades rurais e um terço em áreas protegidas, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas. A área considerada produtiva equivale a 38% do território estadual, sendo 32,41 milhões de hectares com produção agropecuária e 1,89 milhão de hectares destinados a outras ocupações, segundo o Imea.
No ranking brasileiro, Mato Grosso ocupa o primeiro lugar na produção de soja, algodão, milho segunda safra, girassol e criação de bovinos. Mundialmente, a produção de soja mato-grossense está na quarta posição.
Segundo Bares, o preço da área pronta para plantio de soja subiu porque é esse tipo de terra que dá retorno imediato para o produtor.
O agricultor observa também que os níveis elevados de preços estão sendo sustentados por negócios fechados entre pessoas da região. "São os próprios vizinhos que pagam caro. E esses negócios fechados acabam inflacionando as cotações."
Segundo o comerciante Alcir Marta, do setor de secos e molhados, a valorização do preço da terra agrícola em Sinop é superior a de municípios vizinhos, como Claudia. Quando em Claudia o preço do hectare é de R$ 5 mil, em Sinop chega a R$ 21 mil.
OESP, 01/07/2012, Economia, p. B8
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