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Precisamos de muito mais

O Globo, Economia, p. 26
Autor: VIEIRA, Agostinho
13 de Fev de 2014

Precisamos de muito mais

Agostinho Vieira

O nível dos reservatórios de água das hidrelétricas do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste caiu de 40,1% para 37,6% desde o início de fevereiro. De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), este é o menor percentual para o período desde 2001. Naquele ano, quando houve racionamento de energia, os índices estavam entre 31,4% e 33,4%. Ou seja, é hora de economizar. Certo? Errado.
Na casa da gente, quando o porteiro liga dizendo que vai faltar água, que será feita a limpeza da caixa d`água, algumas decisões óbvias são tomadas: parar de usar a máquina de lavar, esquecer a faxina da cozinha, adiar a lavagem do carro. É verdade que tem sempre um vizinho "esperto" que aproveita para encher os baldes. É a vida. O mesmo acontece quando alguém fica desempregado. Esquece a roupa nova. Comer fora, nem pensar.
Na política não é assim. O caminho certo nem sempre é o melhor caminho. Acima dos interesses do país estão os interesses eleitorais. E este é um ano de eleição. O racionamento de 2001 não foi feito só porque era a decisão correta a tomar. Foi feito porque era a única decisão a tomar.
Não havia alternativa. Os riscos políticos eram claros e foram bem aproveitados pelos adversários da época, que hoje viraram vidraça. A situação agora é um pouco diferente. Não é preciso, ainda, fazer um racionamento compulsório, criar um gabinete de crise. A situação é crítica, mas não desesperadora. Seria prudente, maduro e inteligente fazer uma campanha entre os consumidores para que reduzissem o uso de energia. Evitassem o desperdício. Isso já foi feito antes e os resultados foram ótimos. Mas prudência, maturidade e inteligência não fazem parte desse jogo. O governo teme que um pedido para racionar ou racionalizar o consumo seja percebido como um sinal de fraqueza.
A oposição vai dizer que o governo perdeu o controle, que são um bando de incompetentes. Acusarão a presidente candidata de jogar a responsabilidade para os consumidores. Um filme muito parecido com o que vimos em 2001. Podíamos avançar mais, correr menos riscos, não só no setor de energia, se tivéssemos um projeto de país. Não temos. Alguns projetos são até partidários. Mas, na maioria das vezes, o que vemos são ambições pessoais.

O setor elétrico avançou nos últimos anos. Ganhamos em previsibilidade. A criação da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e os contratos de energia feitos com até cinco anos de antecedência deram tranquilidade ao mercado. Obras que estavam paradas voltaram a andar e o investimento em energia eólica nunca foi tão grande. Mas ele não é perfeito. Muito pelo contrário. Vários projetos estão atrasados, faltam linhas de transmissão e os problemas de gestão e de manutenção são maiores do que aparentam.
Agora, imagine esse último parágrafo sendo escrito ou lido por um representante do governo ou da oposição. Impossível. Nem um lado nem o outro são capazes de fazer autocrítica ou de reconhecer avanços. Tratam o eleitor como um imbecil. Tentam passar a ideia de que tudo é muito simples. E que, se não foi feito, é porque faltou vontade política e competência. Não é bem assim. O Brasil é bem mais complexo do que isso.
E quando o tema é energia, essa complexidade é maior. Vivemos num país continental, com diferenças grandes entre as regiões. Precisamos da energia hidrelétrica da Amazônia para abastecer as indústrias do Sudeste, mas não podemos destruir a floresta. Temos vento forte no Nordeste e no Sul, mas faltam linhas de transmissão. As térmicas são fundamentais para o sistema, mas são caras e sujas.
Há dois anos foi regulamentada a microgeração de energia no país. Qualquer cidadão pode produzir energia em pequena escala na sua casa ou prédio e vender para a distribuidora da região. Uma boa medida para reduzir o valor da conta e limpar ainda mais a matriz energética. Só que os Estados resolveram cobrar ICMS sobre a energia gerada e o projeto não anda. Apenas Minas e Tocantins abriram mão desse imposto absolutamente sem sentido.
Para complicar um pouco mais, temos o aquecimento global batendo na porta. Ele vai alterar o regime de chuvas, a vazão dos rios e reduzir os níveis dos reservatórios. Enquanto isso, o país continuará crescendo, em população e poder de compra. Mais gente consumindo geladeira, televisão, ar-condicionado e energia. Um desafio que não pode ser enfrentado com discursos radicais, teses vazias e arrogância. Precisamos de muito mais.

E-mail: economiaverde@oglobo.com.br

37,6 %
É o nível atual dos reservatórios de água das Hidrelétricas do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste. O menor percentual para o período desde 2001, ano em que houve racionamento de energia. A luz amarela indica que é hora de economizar.

O Globo, 13/02/2014, Economia, p. 26

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