O Globo, Economia, p. 28
07 de Jul de 2013
Praga 'importada' se alastra por 12 estados e prejudica lavouras
Só na Bahia, perda foi de R$ 1,5 bilhão. Transgênicos são suspeitos
DANILO FARIELLO
danilo.fariello@bsb.oglobo.com.br
BRASÍLIA E RIO - O governo acionou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e demais órgãos de inteligência da esfera federal para investigar a origem de uma praga devastadora que colocou o país em uma inédita situação de alerta fitossanitário. A helicoverpa armigera, que está fora de controle, é uma espécie de mariposa que foi trazida do exterior recentemente e já causou prejuízo de R$ 1,5 bilhão apenas nesta safra de algodão no oeste da Bahia, onde foi vista pela primeira vez no país. A praga causa estragos também no cultivo de milho, soja, sorgo, feijão e tomate, e já afetou 12 estados brasileiros.
Sua entrada pode ter sido involuntária, mas relatórios feitos pela Abin e entregues ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e à própria Presidência da República trabalham também com a hipótese de contaminação não acidental. O governo constatou ainda que, enquanto a disseminação traz danos enormes para a agricultura nacional, ao mesmo tempo beneficia empresas internacionais.
Monsanto refuta suspeitas
Suspeitas são levantadas contra empresas de transgênicos que já trabalhavam com genes resistentes à helicoverpa armigera, antes mesmo de o inseto ser visto no país. A Monsanto reconhece que já pesquisava no Brasil genes que colaboram para a supressão da praga, mas aponta que o pedido de registro dos ativos sequer considerava essa hipótese. Mesmo assim, a venda dessas sementes na próxima safra será "ínfima", segundo Luciano Fonseca, líder de gestão responsável de produto da Monsanto. Para ele, é uma "irresponsabilidade" levantar a hipótese de um ato voluntário, principalmente considerando-se o envolvimento da indústria de insumos.
Leonardo Bastos, diretor de Marketing da empresa, informou, porém,que 10% da produção brasileira de soja da próxima safra já serão com as sementes resistentes à praga.
- Empresa de insumo vive em função do sucesso do produtor, não do fracasso- disse Fonseca, lembrando que outras concorrentes já se mobilizam para fornecer genes resistentes à mariposa.
A praga já contaminou gigantescas áreas na Austrália, na Índia e na Europa. No Brasil, pelo menos a Bahia já declarou situação de emergência e Mato Grosso e Goiás estão para fazê-lo. As linhas de investigação passam pela comparação de marcadores no DNA da espécie vista no país com exemplares de outros cantos do mundo.
Hipóteses incluem sabotagem
É possível que o caminho exato da larva nunca seja descoberto ou que seja comprovadamente fortuito, mas o governo não descarta a possibilidade de sabotagem, uma vez que o Brasil vem se consolidando como protagonista agrícola no mundo. A hipótese de bioterrorismo já foi considerada pelo menos por Eduardo Salles, secretário de Agricultura da Bahia. A vassoura-de-bruxa, fungo que reduziu a partir de 1989 de maneira permanente a competitividade do cacau brasileiro, é outra praga que chegou ao Brasil em condições até hoje suspeitas.
Os transgênicos podem ser parte do problema e parte da solução para o extermínio da helicoverpa armigera. O Ministério da Agricultura tem três vertentes para o controle da lagarta: o aumento da quantidade de sementes transgênicas protegidas; pesquisas da Embrapa para entender melhor o inseto; e estudos de produtos que possam combatê-lo sem prejudicar a saúde humana. A multiplicação pelo país da mariposa (que coloca 1.500 ovos a cada 40 dias) deixou exposto a vulnerabilidade do sistema de proteção nacional, que o governo agora corre para rever.
- Eu passei 40 anos no campo e nunca vi nada tão agudo. Não tem aftosa, vaca louca, nada igual a isso - disse o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Ênio Marques. - O Brasil não pode ser ingênuo ao achar que todos nos amam - completou.
Na visão de Rui Prado, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a praga veio da Austrália:
- Estamos vivendo um problema (desde 2001) até hoje da ferrugem asiática da soja, que ainda causa um prejuízo grande. A gente aprendeu a controlar, mas essas coisas têm um custo na produção - disse.
Para Leonardo Melgarejo, técnico do Incra e membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), os transgênicos têm responsabilidade na expansão da helicoverpa armigera e o uso de mais variações genéticas para combatê-la pode levar a um problema sistêmico maior.
- A sucessão de uso dessas culturas transgênicas vai criar desequilíbrios ambientais que ainda não podemos avaliar. Quando se libera comercialmente um produto, esse uso massivo gera variáveis incontroláveis, não percebidas nos canteiros experimentais - disse (Colaborou Henrique Gomes Batista).
Radiografia
ONDE A LAGARTA JÁ EXISTIA:
Oceania, África, Ásia e Europa
POR ONDE ELA ENTROU NO BRASIL: Oeste da Bahia
PARA AONDE JÁ SE ESPALHOU:
Tocantins, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul
CULTURAS JÁ ATACADAS:
Algodão, soja, milho, sorgo, feijão e tomate
PREJUÍZO CONTABILIZADO: Só em algodão na Bahia, R$ 1,5 bi
ALGUMAS MEDIDAS ADOTADAS:
1 - Uso de sementes modificadas que restrinjam ou eliminem as populações da praga;
2 - Determinação de épocas de plantio e restrição de cultivos seguidos, sem interrupção;
3 - Manutenção do solo sem plantação por certos períodos para deixar a terra livre de hospedeiros;
4 - Uso de controle biológico, com ou sem disseminação de inimigos naturais vivos;
Fontes: Ministério da Agricultura e Embrapa
Antídoto ao inseto é muito tóxico aos seres humanos e seu uso gera polêmica
Ministério da Agricultura quer liberar a utilização do veneno
BRASÍLIA E RIO - A primeira arma comprovadamente eficiente para conter a helicoverpa armigera não foi usada na Bahia nesta safra por conta de um entrave institucional, o que acabou colaborando para a expansão da praga. O benzoato de emamectina é um veneno com alto grau tóxico para os seres humanos, por isso o seu uso não foi aprovado pelo comitê técnico de avaliação de agrotóxicos - composto pelos ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente.
De maneira unilateral, a Agricultura assumiu a responsabilidade pelo ato e aprovou a importação do agrotóxico, que chegou ao país, mas não foi usado porque o Ministério Público da Bahia conseguiu barrá-lo na Justiça.
- O governo decidiu, mas os promotores por aqui impediram o uso - disse Celito Breta, presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa). - Eles estão por fora, ouviram só parte do assunto - completou.
- É absurdo o uso de um veneno que afeta o sistema neurológico das pessoas - disse o deputado Sarney Filho (PV-MA), coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista.
Governo prepara decreto
Diante do impasse, o governo prepara um decreto para detalhar condições e prerrogativas que devem ser adotadas em casos de ameaças similares. A norma deverá ser lançada no dia 30, criando o programa nacional de Manejo Integrado de Pragas, que será detalhado em seminário sobre o tema. Ele envolve não apenas seleção de insumos, mas ações de técnica agrônoma, como rotação de culturas e regras de rodízio.
- Constatamos que precisamos melhorar a regulamentação. Até então lidamos com emergências não-agudas e não tenho dúvida de que vamos passar a ter mais situações de urgência, por conta da forma como o ambiente tem sido usado e pela introdução de espécies exóticas no país - disse o coordenador geral de avaliação de substâncias químicas do Ibama, Marcio Freitas.
- Com o manejo integrado e biofábricas para controle biológico espalhadas pelo país, é possível que essa praga esteja sob controle no período de apenas uma safra - avalia Jefferson Costa, assessor da Embrapa.
O Globo, 07/07/2013, Economia, p. 28
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