A Crítica - acritica.com
Autor: Waldick Júnior
10 de Jul de 2026
Quase 500 indígenas se reúnem para cobrar demarcação de quatro terras e dizer não a atividades predatórias no território
(Foto: Reprodução)
Quase 500 indígenas do povo Mura participam do 9o Encontro do Povo Mura, que se encerra neste sábado (11), na aldeia Capivara, no município de Autazes. A mobilização reúne parentes para debater estratégias de enfrentamento à mineração e a outras atividades predatórias, além de reforçar a cobrança pela demarcação de seus territórios tradicionais.
Com o tema "Continuamos Sendo a Resposta", os indígenas iniciaram debates ainda na quinta-feira (9) sobre saúde indígena, protagonismo da juventude e de mulheres, educação, demarcação de terras e mineração.
"Hoje, a resistência é uma luta que construímos em defesa dos nossos direitos. Por isso, realizamos essa assembleia fundamental. Trocamos ideias, dialogamos com lideranças e autoridades, fazemos questionamentos, encaminhamentos e pedidos, além de denunciar ataques aos nossos territórios", diz o coordenador da Organização indígena da Resistência Mura de Autazes (Oirma), Roni Mura.
A entidade foi criada em meio à divisão do próprio povo Mura com o avanço da mineração nos territórios. O tuxaua do Lago do Soares, Gabriel Mura, afirma que cinco aldeias integram o grupo que faz frente a outras 35 aldeias cujas lideranças apoiam a mineração.
"A gente vê que isso não é de hoje. Na colonização, houve essa questão de dividir para conquistar. É uma forma de cooptar lideranças, inclusive com dinheiro. Por outro lado, a gente deixa claro que dentro dessas aldeias há pessoas contrárias à mineração e a favor da demarcação", comenta.
Segundo ele, o Encontro do Povo Mura tem sido um espaço para mostrar aos parentes que as aldeias contrárias às atividades exploratórias no território também tem força, inclusive com o apoio de instituições como o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
"É muito importante termos esses órgãos, porque nos ajuda a mostrar aos parentes que estamos do lado certo. Foi com muita luta, muita conquista. Hoje temos na própria Funai parentes nossos, do território, dentro da instituição, que é o Herton Mura. Para nós, é motivo de alegria", diz.
Entre os principais enfrentamentos dos Mura presentes na Assembleia, estão a exploração de potássio em Autazes, de gás natural em Silves e Itapiranga, a concessão do rio Madeira à iniciativa privada e o garimpo ilegal. As três primeiras têm contado com o apoio dos governos estadual e federal.
"Se depender do Estado brasileiro, a gente não consegue demarcação, somente violações. O poder publico e o Judiciário tem apoiado as mineradoras, mesmo com as provas que a gente leva, e essa assembleia serve para nos fortalecer, porque o movimento indígena é muito difícil. Tem ameaças, às vezes dá vontade de desistir, mas juntos nos fortalecemos", destaca Gabriel.
Roni Mura explica que, ao final do encontro, a assembleia deve elaborar cartas para serem enviadas ao MPF, DPE, Funai, Ibama e ao Ministério de Minas e Energia. O objetivo é reforçar o posicionamento dos Mura contra as atividades predatórias e cobrar a demarcação dos territórios Ponciano, Sissaíma, Murutinga e Lago do Soares, todos no Amazonas.
"Queremos viver no nosso território, pescando, caçando, ensinando isso aos nossos filhos, preservando a floresta. Não queremos o que aconteceu em Mariana, em Maceió, ou viver o que vivem nossos parentes Yanomami com garimpo no território deles", reforça Roni.
O povo Mura, que habita o estado do Amazonas desde antes da colonização, vive em regiões próximas aos rios Madeira, Amazonas e Purus, além de centros urbanos. No Encontro em Autazes, estão presentes parentes de diversas regiões do estado. No próximo ano, a expectativa é que o evento ocorra em Borba, na calha do rio Madeira.
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