O Globo, Economia, p. 29
23 de Mar de 2013
Pouca chuva, conta alta
Governo vai desembolsar R$ 11 bi com térmicas, o quádruplo de 2012. Consumidor pagará mais
RAMONA ORDOÑEZ
ramona@oglobo.com.br
BRUNO ROSA
bruno.rosa@oglobo.com.br
Rio e Brasília A falta de chuvas neste ano no país - principalmente no Nordeste, que enfrenta uma seca devastadora - vai fazer com que as usinas térmicas se mantenham ligadas a plena carga durante todo o ano de 2013 para gerar energia, afastando assim risco de racionamento. Só que o custo dessa operação deverá chegar a R$ 11 bilhões, conforme estimativas do governo federal, segundo uma fonte do setor. O valor é quatro vezes maior que os R$ 2,6 bilhões gastos com as térmicas em 2012. E o consumidor é quem vai pagar essa conta já a partir do ano que vem, embora de forma diluída, por até cinco anos. A situação, crítica, faz crescer as preocupações para 2014, ano da Copa do Mundo.
O nível dos reservatórios das hidrelétricas está no ponto mais baixo desde 2001, época do racionamento de energia. No dia 21 de março, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as usinas das regiões Sudeste e Centro-Oeste estavam em 49,9% da capacidade. Já as do Nordeste marcavam 42%, e as do Sul estavam em 53,1%. Embora os níveis estejam acima da margem mínima de segurança, especialistas afirmam que as térmicas continuarão funcionando a todo vapor neste ano, principalmente porque o período de chuvas termina em abril.
- O nível dos reservatório chega no fim de março no pior nível desde 2001. É preocupante, pois as térmicas estão funcionando 100% desde meados de outubro de 2012 - disse Bernardo Bezerra, gerente de Projetos da consultoria PSR.
O ONS revisou para baixo suas estimativas dos níveis dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste para o fim deste mês. Passou de 54,20% para 52%. Por outro lado, elevou as do Nordeste, de 41,10% para 42,30%, assim como as do Sul, de 48,40% para 50,60%.
O custo de R$ 11 bilhões com as térmicas é pago pelas distribuidoras de energia às usinas. Mas, para evitar que a despesa extra seja repassada às contas de luz este ano - neutralizando a prometida redução em até 18% -, o governo federal decidiu lançar mão dos recursos do encargo Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), uma taxa voltada para a universalização da energia no país. No último dia 7, a presidente Dilma Rousseff assinou o Decreto 7945, determinando o uso dos recursos da CDE para pagar os custos com as térmicas.
- Foi a forma encontrada para que a redução das tarifas não fosse anulada. Algumas distribuidoras teriam uma redução de 20% nas tarifas, mas por causa das térmicas acabariam reajustando os preços em 15%. Acredito que o repasse ao consumidor começará a partir do ano que vem, diluído em cinco anos - diz Nelson Leite, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).
ANEEL DEFINE REPASSES NA TERÇA-FEIRA
Mesma avaliação tem Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da UFRJ. Segundo ele, o consumidor vai pagar sim, mas deforma diluída, para não impactar na inflação.
- Ainda não é possível calcular o valor do reajuste. O repasse da CDE para as distribuidoras de energia vai depender da necessidade de cada uma. Hoje, a CDE tem algo em torno de R$ 11 bilhões. E isso é uma vantagem para o setor elétrico, pois esse dinheiro estava parado em um fundo. Agora, será usado - afirma Nivalde.
Na terça-feira, a diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai se reunir para definir a regulamentação do decreto, definindo os valores da CDE que serão repassados para cada distribuidora. Segundo Nelson Leite, somente em janeiro os gastos extras com a geração térmica foram de R$ 1,5 bilhão, contra R$ 20 milhões no mesmo mês do ano passado.
O especialista lembra que as distribuidoras aguardam a regulamentação da Aneel para o pagamento dos custos da geração térmica de janeiro. Os gastos efetuados em fevereiro serão apurados até o fim deste mês.
- Com pouca chuva, as térmicas vão ter que rodar o ano todo. Em relação ao ano que vem, vai depender do próximo período das chuvas, que começa em novembro - disse.
Por sua vez, o presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), Reginaldo Medeiros, disse que o problema maior será mesmo em 2014, um ano crítico, na sua avaliação, se não chover no fim de 2013.
- As térmicas continuam funcionando a toda carga (em 2013), porque ninguém sabe quanto de água virá - disse.
O vice-presidente da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape), Cristiano Amaral, faz uma análise parecida. Segundo ele, a geração térmica vai assegurar o abastecimento no país ao longo de 2013. O recorde de consumo aconteceu em 18 de fevereiro, explicou. A partir de agora, com o fim do verão, a demanda de energia tende a cair.
Segundo Amaral, os cálculos do ONS para assegurar o abastecimento do país já considera um aumento de carga (consumo) de 4% neste ano, devido ao crescimento da economia.
- O risco de racionamento está distante, mas vamos ter uma energia cara - admite.
O cenário ganha um contorno ainda mais dramático com os atrasos de diversas obras no setor. Segundo dados de fevereiro do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que reúne Ministério de Minas e Energia, Aneel, Eletrobras e ONS, apenas 40% das 342 novas usinas de geração estão com o cronograma em dia. O restante está com atraso médio de oito meses. Em relação aos projetos de linhas de transmissão, só 30% dos 21.843 quilômetros estão dentro do previsto. Neste caso, o atraso médio das obras é de 13 meses.
RACIONAMENTO DE ÁGUA EM RECIFE
NO NORDESTE, A PIOR SECA DOS ÚLTIMOS 40 ANOS
-RECIFE- A estiagem que se alastra por 134 dos 184 municípios pernambucanos já é a mais grave das últimas quatro décadas na região. Depois de zerar reservatórios do agreste e do sertão - onde mais de mil caminhões pipa circulam pela área rural -, ela espalhou-se pela zona canavieira, normalmente marcada por temporadas de chuvas generosas. E já atinge a Região Metropolitana, onde mais de 2,5 milhões de pessoas enfrentam racionamento:
passam 20 horas com água nas torneiras, e 28 com elas secas. Isso porque os reservatórios da Compesa estão em níveis críticos, como é o caso da barragem de Pirapama, que chegou a 20% de sua capacidade de armazenamento.
A de Utinga secou, e o seu leito lembra o esturricado que caracteriza açudes e barreiros do semi-árido.
A barragem de Pirapama é a maior da Grande Recife. No interior, reservatórios que abastecem o sistema Chesf - como Itaparica e Sobradinho - preocupam, com danos também à agricultura.
- Antes morria o gado, agora até os peixes estão morrendo - disse o secretário de Agricultura de Petrolândia, Fábio Correia.
Ontem o governo estadual lançou uma campanha para que se economize água. Na Região Metropolitana, cuja média histórica de chuvas é de 333 milímetros em março, o total até agora é de apenas 66 milímetros. (Letícia Lins)
Apagão deixa parte de Brasília sem luz por 4 horas
Em ranking do setor, Light aparece como a quarta pior na qualidade do serviço oferecido
MÔNICA TAVARES
monicao@bsb.oglobo.com.br
BRASÍLIA- Um apagão atingiu ontem a região central norte da capital federal e durou cerca de quatro horas e meia. A Companhia Energética de Brasília (CEB) informou que houve um problema no disjuntor da subestação três. A queda de energia afetou o Palácio Buriti, sede do governo local; Brasília Shopping, Universidade de Brasília (UnB), Hospital Regional da Asa Norte, Estádio Nacional Mané Garrincha, onde será realizado o jogo de abertura da Copa das Confederações, em 15 de junho, e outros pontos da cidade.
O diretor de Operações da CEB, Manuel Clementino, disse que foi trocado o equipamento que causou a falha. O problema teria começado com um curto-circuito na rede de distribuição.
A CEB informou que 6.700 consumidores continuavam sem energia até as 16h50min. O apagão atingiu 23.423 consumidores da área central norte da capital. A energia só foi totalmente restabelecida às 18h10min.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou ontem o ranking de qualidade do serviço das distribuidoras de energia do país em 2012. Das 35 maiores distribuidoras, as três piores foram a Celpa, do Pará, em 35o lugar; a Celg, de Goiás, que ficou em 34o; e a CEB, em 33o.
A Light aparece em seguida entre as piores, em 32o lugar. A Ampla ficou na 25ª posição. A melhor colocada foi a CPFL Santa Cruz, do interior de São Paulo.
Os brasileiros ficaram em média, 18,65 horas sem luz no ano passado, segundo balanço publicado pela Aneel, acima do limite máximo estabelecido pela agência, que foi de 15,87 horas.
O Globo, 23/03/2013, Economia, p. 29
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