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Porta aberta para Chávez

Época, Brasil Fronteiras, p. 46-48
31 de Dez de 2007

Porta aberta para Chávez
E também para o contrabando de gasolina, drogas e armas na fronteira da Venezuela

Rodrigo Rangel, de Pacaraima (PR) e Santa Elena de Uairén (Venezuela)

A cidade de Pacaraima, no extremo norte de Roraima, está debruçada sobre a fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Apenas 12 quilômetros separam um pelotão do Exército brasileiro de um esquadrão de cavalaria do Exército de Hugo Chávez, do lado de lá. A convivência entre militares brasileiros e venezuelanos é pacífica. Tem até jogo de futebol. Mas uma dose de desconfiança contaminou a zona de fronteira desde que Chávez iniciou sua escalada armamentista, há cerca de três anos. Os militares brasileiros vivem com a sensação de que, a qualquer momento, um gesto belicoso do líder venezuelano - ainda que nem seja contra o Brasil - possa alterar a rotina de paz e tranqüilidade da região.
"Temos de estar sempre alertas", diz o comandante do pelotão brasileiro, tenente Alexandre Silva, que acaba de chegar à unidade. Falar sobre a Venezuela exige cautela dos oficiais brasileiros. É preciso se policiar para não melindrar a tropa vizinha e afetar o bom convívio. O cuidado é o mesmo do outro lado. "Nós temos uma relação fraterna", afirma o capitão Johnnie Arévalo Vargas, comandante do Escamoto 5102, como é chamado o esquadrão venezuelano baseado à beira da rodovia que corta a fronteira. A desconfiança mútua não está nas palavras. Está no ar, o tempo todo.
Desde 2005, o governo Hugo Chávez, na Venezuela, começou a fazer compras maciças de equipamentos militares. A primeira investida venezuelana foi a compra de 100 mil fuzis de assalto Kalashnikov AK-103 e AK-104, fabricados na Rússia. Depois a Venezuela acertou com a Espanha a encomenda de oito navios de guerra, parte de um negócio de 1,2 bilhão de euros. Na China, Chávez foi buscar radares móveis. O pacote bélico de Chávez inclui ainda helicópteros, submarinos, mísseis terra-ar. A aquisição mais valiosa foi feita em julho de 2006: 24 caças Sukhoi, aviões de guerra russos, mais poderosos e modernos que qualquer outro na América do Sul (leia o quadro da página 48). De acordo com o último relatório do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), instituto sueco dedicado ao monitoramento de gastos militares, a Venezuela foi, em 2006, pelo segundo ano consecutivo, o país da América do Sul que mais aumentou gastos militares: 20% em termos reais.
Os investimentos de Chávez em armamentos ainda não chegaram ao Escamoto. Ainda assim, os venezuelanos parecem mais bem armados e equipados que os brasileiros. Eles usam fuzis AK, melhores e mais resistentes que os Parafals dos brasileiros, em serviço desde a década de 60. Possuem ainda metralhadoras Uzi e bazucas, que fazem questão de exibir nas cerimônias conjuntas que as duas tropas realizam quase mensalmente no marco de fronteira, com hasteamento de bandeira e execução dos hinos nacionais. No Forte Roraima, sede do Escamoto, repousam quatro tanques de combate. Há diferença também no efetivo. São 180 homens no quartel venezuelano, enquanto no pelotão brasileiro servem 60.
No quartel venezuelano, à primeira pergunta de ÉPOCA sobre Chávez, o capitão Arévalo trata logo de exibir subordinação absoluta. Volta-se para uma fotografia do presidente na parede e bate continência. "É nosso comandante-em-chefe", diz. A ascendência de Chávez sobre a força é visível nos menores detalhes. As fardas estão sendo trocadas, porque a padronagem do tecido camuflado era americana. É preciso seguir não só as ordens, mas também a ideologia do presidente. "Estamos comprometidos com o desenvolvimento que o presidente quer", afirma Arévalo. Sobre os objetivos militares de Chávez, o capitão desconversa. Diz apenas que sua tropa está sempre de prontidão. "Se houver uma necessidade (militar), estamos preparados para ela", afirma, diante de um imenso óleo sobre tela com a imagem do Monte Roraima, símbolo da fronteira, com um tanque em posição de combate no sopé.
A "necessidade" a que Arévalo se refere pode estar bem próxima daquele ponto da fronteira - e isso tem causado preocupação entre comandantes militares brasileiros na região. Desde o século XIX, a Venezuela reivindica quase a metade do território da antiga Guiana Inglesa, hoje República Cooperativa da Guiana. A área aparece em todos os mapas políticos da Venezuela como "zona em reclamación". De tempos para cá, têm crescido os rumores de que Chávez estaria planejando uma ofensiva militar para anexá-la de fato. Na leitura reservada de oficiais brasileiros, o enfraquecimento político de Chávez, exposto pela derrota que sofreu em dezembro no plebiscito que poderia lhe conferir mandatos sem limite, pode levá-lo a criar uma "causa" que una o país. Uma ofensiva contra a Guiana poderia, hipoteticamente, ser essa causa. E seria relativamente fácil, pois o poder de fogo guianense é quase nulo. O país, que se tornou independente da Inglaterra em 1966, nem sequer tem força aérea contra os Sukhois venezuelanos.
A ameaça chama a atenção das forças brasileiras principalmente porque a área em litígio é contígua à fronteira com o Brasil. Há pouco mais de um mês, a Força Aérea Brasileira ampliou e reformou uma pista de pouso na comunidade indígena de Serra do Sol, município de Uiramutã, Roraima, encravada na tríplice fronteira com Guiana e Venezuela. Oficialmente, a reforma foi feita para permitir vôos do Correio Aéreo Nacional. Mas ter uma pista em condições de uso na região é uma necessidade estratégica para o caso de um ataque da Venezuela à Guiana - situação que fatalmente colocaria o Brasil na obrigação de agir para, pelo menos, evitar que o conflito contamine nosso território.
"Temos uma companhia lá na região", diz o capitão Arévalo ao ser indagado sobre o conflito territorial. O batalhão a que ele está subordinado é o mesmo que detém a incumbência de cuidar da fronteira contestada. Pelo menos no mapa da área de jurisdição da unidade, o pedaço de território da Guiana já foi anexado. Em novembro, a Guiana acusou soldados da Venezuela de fazer uma operação contra garimpos dentro de seu território.
A concentração militar de dois países não inibe o festival de desmandos naquele pedaço da fronteira norte do Brasil. Nas duas margens da rodovia que liga Pacaraima a Santa Elena de Uairén, a cidadezinha venezuelana mais próxima, um emaranhado de picadas e estradas de chão serve a quem quer driblar os órgãos de fiscalização com postos de controle instalados à beira do asfalto. Do lado brasileiro, há postos da Secretaria da Receita, Vigilância Sanitária e Polícia Federal. Do lado venezuelano, além de agentes da aduana, homens da Guarda Nacional e do Exército são encarregados de fazer a fiscalização.
Às margens da pista venezuelana, cartazes com a foto de Chávez sorridente, a desejar boas-vindas, têm ao fundo as estradas usadas pelos contrabandistas e traficantes. Elas fazem ziguezague pelas planícies de savana, típicas da região. Aquele pedaço da fronteira é rota conhecida do crime organizado. "Por ali entram drogas e armas contrabandeadas que chegam pelo Caribe venezuelano e acabam indo para as favelas do Rio de Janeiro ou de São Paulo", afirma um oficial do Exército brasileiro com experiência na região. Um sinal de que o controle não funciona: a Polícia Federal nem tem estatísticas sobre apreensões de drogas e armas por ali. Tudo passa ao largo.

O contrabando é escancarado. Santa Elena de Uairén é uma zona franca. Por lá proliferam lojas que vendem de tudo, de bebidas a eletroeletrônicos de última geração. É uma versão venezuelana dos mercados paraguaios de Ciudad del Este, destino predileto dos contrabandistas do Brasil. No domingo 9 de dezembro, as ruazinhas de Santa Elena estavam tomadas por s brasileiros. A professora de Educação Física Luciett Araújo de Oliveira, de 27 anos, saiu de Manaus com o namorado para comprar em Santa Elena. A maioria vem de Boa Vista, a apenas 250 quilômetros de distância. "Vale a pena, as coisas aqui são baratas", diz Luciett. Uma máquina fotográfica digital de qualidade sai a 833 mil bolívares, a inflacionada moeda venezuelana. Isso é o equivalente a R$ 340, metade do preço cobrado nas lojas brasileiras.
Os que querem passar legalmente pela fronteira têm de limitar suas compras a R$ 600, valor da cota estabelecida pela Receita. Em meio à multidão ávida por comprar nas ruas de Santa Elena, surge um senador da República: Augusto Botelho (PT-RR). "Estou dentro da cota, viu?", diz. Com a mulher, o filho e a nora, ele chegara a Santa Elena na véspera. Sua caminhonete Toyota Hilux já estava abarrotada. O senador comprou impressora, aparelho de DVD, liquidificador, árvore de Natal e mais um punhado de bugigangas. Diante da reportagem, ensaiou um discurso: "Isso aqui acaba com a economia de Boa Vista. Só num dia como hoje, os brasileiros estão deixando aqui mais ou menos R$ 500 mil. É dinheiro que poderia ser gasto do nosso lado da fronteira".
Os contrabandistas, a exemplo dos traficantes de drogas e armas, passam incólumes - principalmente à noite - pelas estradinhas alternativas que margeiam a rodovia principal. "De vez em quando o Exército põe piçarra para evitar que essas estradas sejam usadas, mas outras são abertas", diz o prefeito, Francisco Roberto do Nascimento, do PT.
Outro problema daquele pedaço da fronteira é o contrabando de combustível. De domingo a domingo, carros de passeio em frangalhos e caminhões com placas brasileiras se enfileiram na fronteira para comprar gasolina ou diesel do lado venezuelano. Eles compram o barato combustível da Venezuela, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, por R$ 0,65. Revendem em Boa Vista, por R$ 1,80. Sob o olhar das autoridades, de um lado e de outro.

Época, 31/12/2007, Brasil Fronteiras, p. 46-48

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