VOLTAR

Por que a grande fauna sul-americana se extinguiu?

OESP, Geral, p.A14
15 de Ago de 2004

Por que a grande fauna sul-americana se extinguiu?
Zoólogo brasileiro tem uma hipótese, publicada em respeitada revista inglesa: florestas que tomaram conta das savanas os deixaram sem espaço e alimento
Evanildo da Silveira
Sempre que via na televisão algum documentário sobre os grandes animais da África, o zoólogo Mário de Vivo, da Universidade de São Paulo (USP), se perguntava: por que a América do Sul também não tem espécies de grande porte? A questão o intrigava mais ainda porque fósseis encontrados em vários pontos do território sul-americano demonstram que o continente já abrigou uma fauna de respeito, com preguiças e tatus do tamanho de um Fusca e predadores ferozes, como o tigre-dente-de-sabre.
Depois de anos pensando e pesquisando o assunto, Vivo acredita que chegou a uma explicação.
O resultado é uma nova teoria sobre a extinção da megafauna sul-americana, elaborada durante um ano e meio por ele e sua aluna de doutorado, Ana Paula Carmignotto, e publicada na edição de maio do Journal of Biogeography, uma respeitada revista científica inglesa.
Para Vivo, os grandes animais - herbívoros e pastadores e seus predadores - que perambulavam pela América do Sul, inclusive no Brasil, foram extintos há cerca de 5 mil anos por causa de mudanças climáticas e no regime de chuvas no continente.
O trabalho de Vivo vai além, no entanto. Ele faz um paralelo com o que teria ocorrido na África, no mesmo período. Para fazer isso, o zoólogo do Museu de Zoologia da USP se valeu de dados conhecidos sobre o clima e o índice de chuvas do final do pleistoceno e do meio do holoceno, épocas geológicas que vão, respectivamente, de 1,8 milhão a 12 mil anos atrás e de 12 mil anos aos dias de hoje. A isso ele acrescentou informações também conhecidas sobre a relação entre índice de chuvas e vegetação.
Cenários - Com esses dados cruzados, montou dois cenários: um para o final do pleistoceno - mais ou menos entre 20 mil e 12 mil anos, quando o planeta vivia sua mais recente era glacial - e outro para o meio ou auge do holoceno. "No primeiro caso, o clima era mais seco e frio do que hoje", explica.
"Em conseqüência disso, havia vastas áreas de savanas abertas, com árvores esparsas e gramíneas, e florestas com enclaves de savanas. Era um ambiente propício para grandes herbívoros e pastadores."
O outro cenário é o oposto desse - um ambiente mais quente e úmido do que hoje. Com o aumento das chuvas em cerca de 50%, a fisionomia dos dois continentes mudou.
As florestas se expandiram e as savanas se tornaram mais densas ou desapareceram em algumas áreas, dando lugar a matas fechadas. Na África, a maior umidade transformou os desertos do Saara, ao norte, e do Kalahari, ao sul, em savanas.
É o que teria salvado os grandes mamíferos africanos. "Eles puderam migrar da região central do continente para áreas onde antes havia desertos, no norte e no sul", explica Vivo. "Isso lhes garantiu a sobrevivência. É por isso que hoje ainda encontramos grandes animais na África."
Extinção - Os bichos da América do Sul, no entanto, não tiveram a mesma sorte. "Aqui não sobraram áreas abertas e savanas para onde os grandes animais pudessem migrar", diz. "Sem espaço para viver, nem gramíneas para pastar, foram condenados à extinção", completa.
Isso explica, segundo a teoria de Vivo e Ana Paula, porque o maior animal nativo da América do Sul é a anta, que pode chegar a 300 quilos, 5,45% do que um elefante africano, que atinge até 5,5 toneladas.
Sem falsa modéstia, Vivo se diz orgulhoso do trabalho, embora reconheça que ele não responde a todas as perguntas sobre a megafauna sul-americana e sua extinção.
"Grande parte dos trabalhos feitos até hoje só se preocupa com a extinção dos megamamíferos sul-americanos e esquece a sobrevivência desses na África", diz. "O nosso lida também com a África. Nosso trabalho é a segunda hipótese existente na literatura científica a respeito do porquê de os grandes mamíferos terem sobrevivido na África. A única hipótese alternativa é que os seres humanos teriam co-evoluído na África com os grandes mamíferos e, portanto, não os extinguiram", afirma o zoólogo da Universidade de São Paulo.

Tigres ferozes e tatus grandes como um Fusca
Há 10 mil anos, território brasileiro era habitado por bichos gigantes
Poucos imaginam, mas o Brasil, tido como paraíso tropical e habitado por uma fauna exuberante e colorida, já foi morada de bichos grandes e estranhos para os padrões a que todos estão acostumados. Antes da chegada do homem, em data controversa, mas que deve estar por volta de 10 mil anos atrás, e mesmo um pouco depois, os donos do território eram preguiças e tatus gigantes, tigres-dente-de-sabre e mastodontes. Eles formavam a chamada megafauna sul-americana do pleistoceno.
Um dos maiores e mais impressionantes animais que viviam nessa época era a preguiça gigante (Megatherium americanum), que media 6 metros da cabeça à extremidade da cauda e, quando erguida nas patas traseiras, chegava a 3 metros de altura. Havia várias espécies de preguiças terrestres, algumas menores que isso. Tinham longa pelagem e, apesar do tamanho, eram pacíficas.
Caminhavam vagarosamente pelo campos, se alimentando de folhas de arbustos e árvores baixas.
Outro gigante das savanas era o gliptodonte (Pampatherium paulacoutoi), que tinha quase o tamanho de um Fusca. Era uma espécie de tatu tamanho família, cuja biologia devia ser como a dos similares modernos, só que em escala maior.
"Eles escavavam o solo e comiam um pouco de tudo, desde frutos até vermes e provavelmente eram capazes de comer carcaças de animais mortos", explica o zoólogo Mário de Vivo, da Universidade de São Paulo (USP).
Também chamaria a atenção de algum caminhante humano que estivesse passando pela savana o mastodonte (Haplomastodon waringi), animal parecido, em tamanho e hábitos, com os atuais elefantes.
Perambulava ainda pelo território do que hoje é o Brasil animais como a macrauquênia (Macrauchenia sp.), parecido com um camelo moderno e do mesmo tamanho, mas com uma tromba curta. Era um herbívoro, provavelmente comedor de folhas de arbustos e árvores baixas.
Os toxodontes - havia duas espécies, Toxodon platensis e Trigonodops lopesi -, por sua vez, tinham um tamanho comparável ao de um rinoceronte ou hipopótamo moderno. Também comiam folhas, mas incluíam capim na dieta. Entre os predadores o destaque, sem dúvida era o tigre-dentes-de-sabre (Smilodon populator), um felídeo do tamanho de um leão. Sua marca registrada são as duas afiadas presas, com até 30 centímetros de comprimento. Eram armas mortíferas. (E. S.)

Biólogo da UFMG tem uma das teorias mais conhecidas
A teoria do zoólogo Mário de Vivo, da Universidade de São Paulo, não é a única que tenta explicar a extinção da megafauna sul-americana do pleistoceno. Uma das mais conhecidas é de autoria do biólogo Cástor Cartelle, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicada em 2000 no livro Mammals in neotropics, editado nos Estados Unidos. Diferentemente do que defende Vivo, Cartelle acredita que os grandes animais sul-americanos foram extintos mais cedo, no fim do pleistoceno, há 12 mil anos.
Nessa época, segundo ele, houve um grande aumento de frio e chuvas. "Isso provocou o aumento da mata atlântica, da floresta amazônica e da caatinga e a diminuição do cerrado e das pastagens. Com essa, teriam desaparecido somente os pastadores de campo aberto e seus predadores. E restado apenas os mamíferos herbívoros de mata ou de sua periferia e seus predadores."
Outra conseqüência da mudança climática teria sido a expulsão de numerosas espécies de grande porte de seus territórios originais, principalmente do sul, onde hoje estão Uruguai e Argentina. "Comprovei isso com pesquisadores argentinos e com o achado de espécies de clima temperado-frio refugiadas no Brasil."
Essa fauna teria sido escorraçada de seu lugar de origem e vindo para a região intertropical do Brasil. "Espécies típicas do sul e espécies intertropicais acabaram vivendo juntas numa mesma região", diz. "Há fósseis de espécies que não poderiam estar aqui, como lhamas, guanacos, ratão-do-banhado e ursos."
Essa invasão do sul também teria contribuído para a grande extinção, mais rápida que a dos dinossauros. "Do território intertropical também foram extintos porque surgiram superpopulações e, conseqüentemente, aumentou a competição por espaço e alimento." Há ainda outra divergência entre os dois pesquisadores. Cartelle não aceita as datações de alguns fósseis citadas no artigo de Vivo. "O grosso desapareceu mesmo no final do pleistoceno." (E. S.)

OESP, 15/08/2004, p. A14

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.