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Autor: Fabiana Reinholz
16 de Jan de 2026
Por Fi Ga é o nome que identifica a aldeia Kaingang localizada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, no Vale dos Sinos, Região Metropolitana de Porto Alegre, território marcado pela colonização alemã. Em Kaingang, por fi significa tovaca, pássaro que comunica os guerreiros kaingang sobre as feras da mata, e gã significa terra. Assim, Por Fi Ga é a "terra da tovaca", denominação que guarda parte da história e da memória da comunidade.
É essa história que ganha forma no documentário Por Fi Ga: história e tradições, que teve sua primeira pré-estreia nesta quinta-feira (15), em um encontro que reuniu representantes da aldeia, a equipe realizadora, apoiadores e o poder público.
A produção apresenta relatos, memórias, práticas e referências culturais que compõem a identidade Kaingang na aldeia Por Fi Ga. Outras sessões de pré-estreia devem ocorrer ao longo de 2026, com datas ainda a serem divulgadas.
"Documentar para reconhecer"
O jornalista e produtor audiovisual Gustavo Carniel Hubert, diretor do filme e da agência Comunique Produtora, explica que o documentário nasceu do desejo de registrar e fortalecer a história da comunidade.
"Por Fi Ga: História e Tradições é uma obra que tive a oportunidade de dirigir junto do Elton Luiz Nascimento, então cacique da aldeia. Nosso objetivo foi documentar a história da comunidade, visando seu reconhecimento junto à sociedade não indígena. Registramos como foi o processo até a conquista do território, as motivações da vinda desse povo para a região e as dificuldades enfrentadas até garantir seus direitos", afirma.
A obra foi produzida em 2025, por meio de edital da Lei Paulo Gustavo em São Leopoldo, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Segundo o diretor, o trabalho buscou reunir "a pluralidade de vozes", incluindo pessoas que acompanharam a formação da aldeia, como o professor Dorvalino.
O processo envolveu aproximação com a comunidade, roteirização, gravações ao longo da aldeia, inclusive com imagens aéreas, e registro de aspectos culturais como culinária, música, pintura e ancestralidade. "Tivemos a oportunidade de acompanhar o preparo do bolo na cinza, de ouvir uma anciã contando o aprendizado passado de geração em geração, de registrar cantos, pinturas, danças e representações simbólicas. É um compilado de valores, princípios e da educação Kaingang", explica.
A produção levou cerca de um ano. Parte das falas está em Kaingang, o que demandou também um processo de tradução e decupagem cuidadoso.
Para Hubert, a obra tem relevância nacional: "Ela pauta o reconhecimento e combate à invisibilidade dos povos indígenas. Estamos falando de um território de colonização alemã. Muitas pessoas sequer sabem que existe uma aldeia indígena aqui."
O filme conta com 20 minutos, formato necessário para circular em festivais. Após a pré-estreia íntima para a comunidade, o documentário deve ser exibido em escolas públicas e em eventos maiores previstos para março e abril, próximos à Semana dos Povos Indígenas. "Espero que o filme seja uma ferramenta educativa, de afirmação e pertencimento. Que ajude a preservar a cultura Kaingang e fortaleça essa luta interna pela continuidade da identidade cultural", conclui.
"Colocar jovens, mulheres e idosos juntos"
Ex-cacique da aldeia e co-diretor do filme, Elton Luiz Nascimento da Costa relata que a ideia inicial foi unir diferentes gerações e grupos da comunidade. "Pensei em colocar a juventude junto, mulheres e idosos. Só faltaram as crianças, mas elas também apareceram quando o professor Narciso mostrou a forma como ensina a nossa língua materna, o Kaingang. Acho que tivemos essa missão cumprida", acredita.
Costa explica que prefere que os mais velhos contem a história da aldeia porque carregam detalhes que ele mesmo não vivenciou. O documentário situa a formação da comunidade nos primeiros anos de 2000, embora parte das famílias tenha chegado antes.
Ele também relembra sua experiência estudando fora da aldeia, marcada pelo racismo e pela violência linguística. "Quando eu estudava na escola do não indígena, errava palavras. Sofri muito bullying. Chegou um ponto em que pensei: não sou bem recebido aqui, por que vou continuar? Acabei abandonando." Segundo Costa, a partir disso, colocou na cabeça que precisava ter escola dentro da comunidade. "As crianças seriam soldados que vão para a guerra: preparadas, cientes do que vão enfrentar. E assim poderiam alcançar seus sonhos." Hoje, estima-se que entre 270 e 300 pessoas vivam na Aldeia Por Fi Ga.
"Seguimos ocupando espaços": a voz das mulheres Kaingang
Técnica de enfermagem, artesã, ativista pelos direitos das mulheres e representante das mulheres indígenas do Bioma Pampa, Sueli Khey Kaingang também aparece no documentário e reforça a importância de registrar a história a partir das próprias narrativas indígenas.
"Estamos sempre na luta, trazendo nossas marcas, cores, grafismos e artesanatos para todos os espaços. Lutamos pela demarcação dos nossos territórios, mas também pela demarcação na universidade, na política, e por que não nas nossas telas?", questiona.
Para ela, o documentário é um marco histórico. "Essas telas vão ficar. Vão mostrar o que somos hoje e o que fomos. Esse momento é importante não só para nós, mas para toda a sociedade, para dizer que estamos aqui e seguimos resistindo. Vivemos em São Leopoldo, e seguimos sendo invisíveis. Por isso mostramos nossas memórias, nossa ancestralidade, nossas mulheres, jovens e lideranças. A nossa história é antiga e recente ao mesmo tempo. É um dos poucos documentários sobre nossa comunidade."
Lei Paulo Gustavo e políticas culturais
Presente ao evento, a Chefe de Divisão Escritório do Ministério da Cultura no RS, Patrícia Affonso celebrou a pré-estreia e o alcance da Lei Paulo Gustavo. "Represento o governo federal, que fez o repasse dos recursos da Lei Paulo Gustavo. Essa lei foi uma conquista num momento muito difícil, em que o Ministério da Cultura estava extinto. A comunidade cultural descobriu o recurso parado no audiovisual e abriu essa possibilidade", explicou.
Affonso destacou a importância das cotas para territórios indígenas, quilombolas e periferias, e elogiou o trabalho estruturado da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo, que mantém há 20 anos um cadastro extenso de artistas da comunidade.
De acordo com ela, São Leopoldo recebeu quase R$ 2 milhões da Lei Paulo Gustavo. Pela Política Nacional Aldir Blanc, foi R$ 1,5 milhão no ciclo 1, e agora mais R$ 1,5 milhão no ciclo 2, já nos cofres da prefeitura. Os editais devem abrir em janeiro e fevereiro, ampliando as oportunidades para toda a comunidade artística, incluindo indígenas, quilombolas, povos de terreiro e pessoas negras.
A representante do MinC lembrou ainda o impacto das enchentes de 2024 e a necessidade de fortalecer a cultura no processo de reconstrução.
"Nossa história sempre foi contada por outras pessoas. Agora somos nós que falamos por nós"
Além de participar do documentário Por Fi Ga: história e tradições, a liderança indígena Sueli Khey Kaingang também integra uma nova produção nacional dirigida por mulheres indígenas. Trata-se do filme Mulheres Bioma, realizado pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas, Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA).
A direção é da cineasta do povo Krenak, de Brumadinho (MG), território marcado pela tragédia do rompimento da barragem da Vale em 2019, Shirley Krenak. Segundo Khey Kaingang, a produção aborda a luta e a representatividade das mulheres indígenas de diferentes biomas do país. A estreia internacional está prevista para junho ou julho, na Alemanha. "É muito importante para nós fazer essas divulgações e trazer nossa representatividade enquanto mulheres. É fundamental romper barreiras e levar nossa voz para fora daqui também", afirma.
Ao comentar sobre o documentário Por Fi Ga e a importância das narrativas indígenas serem produzidas por mãos e vozes indígenas, Khey Kaingang destaca um aspecto que considera essencial: a demarcação das telas. "Quando vemos um filme feito por vocês contando a história de vocês, isso é muito forte. Porque nossa história sempre foi contada por outras pessoas. Hoje somos nós que estamos contando. Trazer nossa voz para dentro desses espaços é fundamental", defende.
Ela recorda uma fala da ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara: "Hoje não aceitamos mais que falem por nós. Temos que falar por nós mesmas. Temos autonomia, voz ativa e precisamos ser ouvidas".
Para Khey Kaingang, a demarcação de telas acompanha a luta pela demarcação dos territórios físicos, da educação e da saúde. "Por que não estar nas nossas telas também? Levar nossas marcas, nossos grafismos, os significados dos nossos artesanatos. É importante fazer essa representatividade enquanto mulher indígena dentro desses espaços de visibilidade."
A ativista critica o preconceito que ainda existe contra indígenas. "Muitas vezes a gente não tem informação sobre o que é ser indígena, quantas etnias existem, quantos povos vivem na região Sul, é por falta de consideração, de pegar a nossa tecnologia e fazer uso dela. E por que não? A gente ouve muito: 'mas indígena tem celular, indígena tem televisão, tem carro'. E por que a gente não poderia ter? Por que não poderíamos usar essas ferramentas de trabalho?", questiona.
Para ela, hoje a tecnologia é uma das principais ferramentas de visibilidade, registro e comunicação das mulheres indígenas.
Urbanidade indígena e apagamento: "Ninguém fala que estamos nas cidades"
Vivendo em uma região marcada pela colonização alemã, Khey Kaingang ressalta que a presença indígena urbana ainda é invisibilizada. "Geralmente, nas minhas palestras, eu pergunto: o que vem à tua cabeça quando se fala em povos tradicionais? As pessoas respondem floresta, cultura, artesanato, diversidade. Mas ninguém fala política, ninguém fala universidade, ninguém fala de profissões, ninguém fala de cidade. E hoje a gente está na cidade. Fazemos parte dela."
Para ela, reconhecer essa presença é fundamental para romper estereótipos. "É muito legal pensar na floresta e nas tradições, claro. Mas também é muito importante perceber que hoje vivemos dessa forma, nessa inclusão. Mesmo que seja lenta e difícil, estamos aqui. Também estamos. E seguimos."
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