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Poluição reduz água para consumo em SP

OESP, Cidades, p. C6
14 de nov de 2003

Poluição reduz água para consumo em SP
Segundo SOS Mata Atlântica, menos da metade da Bacia Alto Tietê pode ser tratada

Evanildo da Silveira

A falta de chuva não é a única ameaça ao abastecimento na região metropolitana de São Paulo. A poluição das águas dos rios e córregos da Bacia do Alto Tietê torna o problema ainda mais grave. Um levantamento recente feito pelo Núcleo União Pró-Tietê, da organização não-governamental SOS Mata Atlântica, mostra que menos da metade delas pode ser tratada para consumo humano. O restante tem qualidade tão ruim que o tratamento é inviável.
Segundo a ambientalista Malu Ribeiro, coordenadora do núcleo, o levantamento foi o mais abrangente já realizado pela SOS Mata Atlântica. Foram colhidos dados de 280 pontos em córregos e rios de cinco sub-bacias do Alto Tietê:
Juqueri/Cantareira, Cotia/Guarapiranga, Pinheiros/Pirapora, Tietê Cabeceiras e Billings/Tamanduateí. "Medimos parâmetros físicos e químicos dos rios", explica Malu. "Entre eles, turbidez, cor, material flutuante, material sedimentado, cheiro, oxigênio dissolvido, coliformes fecais e Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO)."
Os resultados mostraram que a situação dos rios da região metropolitana é crítica. O problema mais grave foi registrado na sub-bacia Billings/Tamanduateí, onde apenas 12,8% da água apresentava condições aceitáveis para tratamento. No outro extremo, apareceu a sub-bacia Juqueri/Cantareira, na qual 12,9% da água é considerada boa e 22,6%, aceitável. Nas sub-bacias Cotia/Guarapiranga, Tietê Cabeceiras e Pinheiros/Pirapora, esses índices foram, respectivamente, de 2,8% e 36,1%, 0% e 28% e 0% e 17,1%.
Insustentável - Para Malu, este é um retrato que muita gente já conhece. "Existe água na região metropolitana, mas não em quantidade e qualidade para abastecer toda a população", diz. "Se não se encarar o saneamento como uma ação integrada entre Estado e municípios, a situação vai ficar insustentável. Não haverá água para todo mundo. E não adianta rodízio. Pelos nossos cálculos, para ser abastecida, a região metropolitana necessitaria quatro vezes mais água do que dispõe."
O biólogo José Luiz Negrão Mucci, do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), diz que essa crise da água tem raízes históricas. "No início do regime militar, na época do desenvolvimento a qualquer preço, a água era vista como tendo apenas um uso: mover turbinas para gerar energia", explica. "Para isso, não precisava ser tratada. Mas as cidades cresceram e água passou a ter outros usos, como o consumo humano. Com o aumento da população, virou um recurso escasso, que precisa ser tratado."
Para tentar resolver o problema da má qualidade da água, o governo do Estado criou um programa de despoluição do Rio Tietê. Desde 1992, estão sendo implementadas medidas para isso. "Na primeira fase, que foi até 1999, construímos de três estações de tratamento de esgoto, ampliamos uma já existente e aumentamos a rede coletora", diz Marcelo Rampone, coordenador de Controle e Planejamento do Projeto Tietê, como o programa foi batizado no âmbito da Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp). "Agora, vamos dar continuidade ao programa com novas obras."
Apesar desses esforços, a melhoria da qualidade das águas da Bacia do Alto Tietê foi mínima até agora. "Embora tenha melhorado, isso ainda é imperceptível", diz José Eduardo Bevilacqua, da Divisão de Qualidade das Águas, da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). "Um exemplo é o Rio Pinheiros. Há menos material orgânico nas águas, mas quem olha ainda não consegue perceber."

Mesmo com chuvas, nível do Cantareira tem nova queda
Sistema chegou a apenas 2,8% de sua capacidade de armazenamento
Mauro Mug
Embora tenha recebido 6,6 milímetros das chuvas que atingiram a região durante a madrugada, o nível de armazenamento de água do Sistema Cantareira apresentou nova queda. Desta vez, caiu mais 0,3% ponto porcentual, chegando a apenas 2,8% de sua capacidade.
Nos 13 primeiros dias deste mês, o reservatório acumulou 27,6 milímetros de chuvas, índice muito abaixo da média histórica de 156 milímetros. Se essa situação prosseguir, é possível que a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) inicie o racionamento para 9 milhões de pessoas da capital e da Grande São Paulo a partir de segunda-feira.
"Está mais do que na hora de começar um rodízio no abastecimento feito por esse reservatório", disse ontem o engenheiro Júlio Cerqueira César, coordenador da Divisão Técnica de Engenharia Sanitária do Instituto de Engenharia. "A prudência indica que o racionamento já deveria ter começado quando o nível se encontrava em 15% ou 10%."
Ele diz que, para não prejudicar a população, a Sabesp está retardando o início do racionamento, "aproveitando até a última gota do manancial. "Só que estão apostando no início das chuvas, que ainda não chegaram com a intensidade desejada."
Para César, a demora em tomar essa decisão poderá colocar em risco o abastecimento durante a temporada de estiagem do ano que vem. "Com o fim do período chuvas, em março, o manancial deveria estar praticamente cheio", disse o engenheiro. "Como o nível hoje está muito baixo e, se as chuvas forem abaixo das médias históricas, não haverá tempo para o manancial se recuperar."
O coordenador discorda em parte da afirmação do secretário Mauro Arce, de Recursos Hídricos, de que é possível captar água mesmo que o nível do reservatório chegue a zero, pois os cinco rios que formam o manancial continuarão correndo.
"Tecnicamente é possível, mas não com a mesma capacidade", afirmou. "Não há condições de retirar os mesmos 31 metros cúbicos por segundo, pois o volume de vazão dos rios é bem menor. Por isso, é necessário fazer a reserva."
Cotia - O Sistema Alto Cotia, em racionamento desde o dia 22 de outubro, estava ontem com 5,6% de sua capacidade - 0,1 ponto porcentual a menos do que na quarta-feira. O Rio Grande continua sendo o sistema em melhores condições, com 63%.

OESP, 14/11/2003, Cidades, p. C6

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