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A poluição que vem da mata

Veja, Ambiente, p. 76-77
18 de Jan de 2006

A poluição que vem da mata
Uma pesquisa descobre que as plantas produzem um dos gases do efeito estufa

Okky de Souza

A luta contra o aquecimento global, fenômeno que já elevou a temperatura média da Terra em quase 1 grau e ameaça provocar uma série de desastres naturais em meados deste século, precisará levar em conta a partir de agora uma descoberta desconcertante da ciência. Na semana passada, o Instituto Max Planck, da Alemanha, divulgou uma pesquisa que demonstra que as plantas produzem quantidades elevadas de gás metano, justamente um dos vilões do aquecimento do planeta. Até hoje se pensava que, em seu ciclo de vida, as plantas emitissem apenas oxigênio. O metano, assim como o dióxido de carbono, o óxido nitroso e os fluorcarbonetos, gases tóxicos produzidos em sua maior parte pela atividade humana, concentra-se em quantidades cada vez maiores na atmosfera, impedindo que o calor dos raios solares que chegam à Terra se disperse adequadamente. O resultado é o chamado efeito estufa. A descoberta dos cientistas alemães mostra que as grandes florestas tropicais, celebradas como pulmões do planeta, na verdade podem dar sua cota de contribuição para o aquecimento global. "Essa é uma descoberta extremamente relevante", diz o geofísico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo. "Resta saber se os resultados obtidos em laboratório pelos cientistas vão se confirmar na imensa biodiversidade das florestas", ele completa.
A nova pesquisa pode explicar duas questões que têm intrigado a ciência. Primeiro, por que os satélites de pesquisa costumam detectar sinais de metano sobre as grandes florestas do mundo. Nunca se imaginou que o gás pudesse ser produzido em grandes quantidades pela própria floresta. Segundo, por que a concentração de metano na atmosfera tem crescido a um ritmo gradativamente menor nos últimos dez anos, enquanto a dos demais gases tóxicos cresce em ritmo acelerado. A explicação, segundo a pesquisa, está nos desmatamentos a que as grandes florestas - inclusive a Amazônica - têm sido submetidas. Com menos árvores, as florestas produzem menos metano. Embora a concentração de metano na atmosfera seja bem menor que a de dióxido de carbono, ele é capaz de reter 21 vezes mais calor. Evidentemente, a descoberta de que as plantas produzem um gás tóxico não faz delas vilãs. Se o mundo vegetal desaparecesse, levaria junto toda a vida na Terra. "Plantar árvores continua sendo uma boa idéia, entre outras coisas porque as plantas absorvem o gás carbônico, o que é importantíssimo para as espécies", observa o biólogo Yadvinder Malhi, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. "A nova pesquisa mostra apenas que os benefícios proporcionados pelas plantas podem ser um pouquinho menores do que se julgava", ele diz.
Até hoje se pensava que somente as plantas mortas, desprovidas de oxigênio, pudessem produzir metano. A pesquisa do Instituto Max Planck afirma que as plantas vivas podem produzir entre dez e mil vezes mais metano do que as mortas. Pelos cálculos apresentados pelo estudo, isso faz com que as florestas do mundo sejam responsáveis por algo entre 10% e 30% das emissões de gás metano na atmosfera. A se confirmarem essas cifras, as árvores e plantas contribuiriam tanto para a concentração de metano sobre o planeta quanto outros emissores já conhecidos - depósitos de lixo, grandes plantações de arroz, pântanos e flatulências de animais ruminantes. Se as conclusões da pesquisa se tornarem consensuais entre os cientistas, será preciso também rever os termos do Protocolo de Kioto, o acordo internacional que procura combater o efeito estufa por meio do compromisso dos países de diminuir a emissão de gases tóxicos. Pelo acordo, uma das principais compensações oferecidas pelos países que produzem muita poluição atmosférica é justamente promover o reflorestamento e o plantio de novas florestas em regiões diversas do planeta. Nesse caso, o tiro pode estar saindo pela culatra.

77% do efeito estufa é provocado pelo dióxido de carbono (CO2), produzido principalmente por automóveis, indústrias e termelétricas. Em segundo lugar vem o metano (CH4), com 14%.
Já se sabia que o metano era produzido por flatulência dos animais ruminantes, plantações de arroz, pântanos, colônias de cupins e depósitos de lixo.
Agora, pesquisadores alemães constataram que as florestas, antes consideradas defesas naturais contra o efeito estufa, também emitem metano.

O EXTERMÍNIO DOS SAPOS
Nas últimas décadas, mais de setenta espécies de sapo foram extintas na América do Sul e na Central sem que os cientistas produzissem mais do que conjecturas para explicar o fenômeno. Na semana passada, estudiosos de um centro de pesquisas da Costa Rica publicaram um trabalho na revista Nature que se propõe a resolver a charada. Segundo eles, os sapos são as mais novas vítimas do efeito estufa. Os animais são exterminados por um fungo, o Batrachochytrium dendrobatidis, que se aloja em sua pele e tem a proliferação favorecida pelo aquecimento global.
O fungo já era conhecido pela ciência, mas sempre foi identificado em regiões de clima ameno, entre 17 e 25 graus. Como explicar sua ação predadora em áreas tropicais, de clima mais quente? A explicação é que a elevação das temperaturas no planeta provoca nessas regiões maior evaporação e a conseqüente formação de nuvens. Durante o dia, as nuvens se interpõem aos raios solares e amenizam a temperatura. À noite, o aquecimento global puxa o termômetro para cima. A combinação entre as duas situações proporciona ao fungo seu habitat ideal, condenando os sapos à morte em duas semanas.

Veja, 18/01/2006, Ambiente, p. 76-77

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