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Poluição pelo uso de térmicas já é maior que a do desmatamento

O Globo, Economia, p. 24
12 de Jan de 2013

Poluição pelo uso de térmicas já é maior que a do desmatamento
No fim do ano, foram emitidas 15,3 milhões de toneladas de gás carbônico

Roberta Scrivano

O uso prolongado das usinas térmicas, que começaram a ser acionadas em outubro para preservar os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, que estão em patamares críticos, já provocou a emissão de mais de 16 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2) equivalente até o último dia 10. Apenas entre outubro e dezembro do ano passado, o total de CO2 despejado pelas termelétricas na atmosfera chegou a 15,3 milhões de toneladas, de acordo com a consultoria WayCarbon, que fez o estudo a pedido do GLOBO.
De acordo com Tasso Rezende Azevedo, consultor em sustentabilidade do Ministério do Meio Ambiente, além de ser o maior volume de gases de efeito estufa já produzido pelas térmicas em um único ano, as emissões totais de CO2 da geração de energia no país deverão superar, pela primeira vez, em 2012, as emissões provocadas pelos desmatamentos.
- Registramos um recorde de tempo de uso de térmica. Por isso, pela primeira vez na História, as emissões de gás carbônico oriundo da geração de energia vão superar as do desmatamento. O Brasil está piorando a sua matriz - diz Azevedo.
O tempo de térmicas ligadas hoje também é inédito. Historicamente, diz ele, o período de acionamento dessas usinas é de 15 dias por ano, em média.
- Todas as térmicas ligadas geram, em um mês, 5,1 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente. É um número elevadíssimo. A potência dessas usinas tem sido aumentada constantemente, o que amplia a emissão sempre que episódios de estiagem ocorrerem. É preciso investir em matrizes limpas, não só em térmicas - diz Luísa Krettli, consultora da WayCarbon.
Parque térmico tem 1.155 usinas
Como a capacidade de geração térmica do país mais do que dobrou na última década, os gases tóxicos gerados nos três últimos meses do ano passado vem subindo. O parque térmico brasileiro tem hoje 1.155 usinas, sendo 145 a gás natural, 999 movidas a óleo diesel e 11 a carvão natural. Há dez anos, eram 600 térmicas.
Azevedo afirma que sujar a matriz brasileira "não tem cabimento, já que o país tem os maiores potenciais eólico, solar, hídrico e de biomassa do mundo".
Custo chega a R$ 1,6 bilhão
O Greenpeace estima que, de outubro até o fim deste mês, o custo da operação das térmicas chega a R$ 1,6 bilhão. A ONG tomou como base informação do Operador Nacional do Sistema (ONS), de que o ativamento emergencial de todas as usinas custa R$ 400 milhões ao mês. Se esse montante fosse aplicado na construção de parques eólicos, diz Ricardo Baitelo, coordenador do Greenpeace, cerca de 450 megawatts (MW) teriam sido acrescentados a essa matriz, energia suficiente para abastecer cerca de um milhão de pessoas. Se fosse investido em placas fotovoltaicas, a geração adicional seria de 300 MW.
- Esse investimento deveria ter sido feito há dois ou três anos para termos essa energia limpa e mais barata hoje no sistema. Os nossos cálculos e conclusões comprovam a falta de planejamento do governo e quem paga por isso é o cidadão brasileiro - critica o coordenador do Greenpeace.

Temor de racionamento
Reservatórios têm primeira alta do ano

O nível dos principais reservatórios do país teve a primeira alta do ano. As represas do Sudeste e do Centro-Oeste ficaram em 28,67% na quinta-feira, contra 28,43% no dia anterior, mas ainda estão perto do limite de risco, de 28%. No Sul, o nível subiu de 45,33% para 46,89% entre quarta-feira e quinta-feira. A margem de segurança é 22%. A única região a apresentar queda foi a Nordeste, de 29,91% para 29,61%, abaixo da margem de segurança de 34%.
Ex-ministro de Minas e Energia entre 1999 a 2001, ou seja, até o início do racionamento, o presidente do Sindicado Nacional da Indústria da Construção Pesada e Infraestrutura (Sinicon), Rodolpho Tourinho, disse ontem, depois de uma audiência com a presidente Dilma Rousseff, que não está preocupado com o risco de um novo racionamento. Segundo ele, a situação hoje é bem diferente.
- Em 2001, não se tinha capacidade de geração térmica.

Opinião
Pela culatra
A constatação de que é inexorável o Brasil depender mais de termelétricas ajuda a consolidar um grande paradoxo.
Pois o fato deriva, em grande parte, de pressões de ambientalistas contrários a grandes usinas hidrelétricas com reservatórios. Sem eles, não há áreas inundadas, mas também acaba a margem de manobra de se armazenar energia em forma de água.
Não choveu, térmicas precisam ser logo acionadas. E devem ficar ligadas o ano todo, a depender do crescimento da economia.
Mas assim, troca-se a fonte hidráulica, limpa, por carvão e gás, poluidores. Tiro no pé de ambientalistas.

O Globo, 12/01/2013, Economia, p. 24

http://oglobo.globo.com/economia/poluicao-pelo-uso-de-termicas-ja-maior…

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